CINEMA

'Coração Selvagem' filma a relação entre homem e cachorro

Longa estrelado por Brad Pitt está em cartaz nos cinemas brasileiros desde 24 de setembro

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Em cartaz nos cinemas de BH, "Coração selvagem" traz um enredo bem característico das histórias de aventura ancoradas em um herói solitário, que, por desejo ou necessidade, isola-se na natureza. Brad Pitt faz o papel do subtenente James Belmont, que, após perder todos os companheiros em uma emboscada, na guerra, passa uma temporada acampando em meio às belezas e perigos do Alasca.

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Nessas linhas gerais, o roteiro pode lembrar "Na natureza selvagem", de 2008, e outros filmes de aventura na selva.

Mas o resumo do filme com Brad Pitt contém imprecisões. A começar pelo fato de que James não perdeu todos os parceiros na guerra. Um deles sobreviveu – é o cão Odin, e ele está a seu lado, na cabine do monomotor que sobrevoa a paisagem de montanhas e florestas no extremo norte do globo.

Por isso, na verdade, "Coração selvagem" é menos um filme sobre um herói solitário do que o retrato da amizade entre James e Odin. Ou talvez seja uma síntese dessas duas coisas.

Há uma diferença importante entre o filme estrelado por Brad Pitt e Uber – esse é o nome do cão que interpreta Odin, formidável – e a maioria dos filmes sobre a relação entre humanos e animais. James e Odin são, ambos, seres treinados para a guerra. Aprenderam a sobreviver em situações extremas e têm a rara capacidade de manterem-se fiéis um ao outro apesar das mais terríveis adversidades.

Nesse ponto, o longa de David Ayer talvez faça parte dos filmes que conseguiram dar imagem a essa fidelidade – talvez característica também de "Lassie" e "Benji" – e ao olhar de amor de um animal por um humano – como nas melhores versões de "King Kong".

Pouco após pousar seu pequeno avião na margem de um lago, James encontra um homem mais velho, um misterioso minerador de ouro interpretado por Jonathan Kimble Simmons, com quem divide algumas cervejas.

Ao amanhecer, o minerador vai embora, deixando de presente alguns versos de Walt Whitman que parecem dizer a sina do cão de guerra. Falam de alguém que viu o pior da humanidade e não perdeu a confiança nela.

Jornada do herói

Se "Coração selvagem" segue à risca a chamada jornada do herói, estrutura proposta pelo escritor Joseph Campbell que serviria de fio condutor para as mais variadas narrativas, o minerador de ouro faz, à sua maneira, o papel de mentor na jornada de James. Desse encontro em diante, tem início uma sequência de provações – tempestade, infarto, queda, urso, lobos – que, embora algo previsíveis, conseguem sustentar a atenção da plateia e a tensão da narrativa.

Cada nova peripécia deixa mais evidentes a valentia e a astúcia do protagonista humano, uma espécie de MacGyver do círculo polar, preparado para acender fogo em solo úmido, imobilizar uma fratura exposta ou localizar-se numa floresta desconhecida.

Aristóteles, que pensou a forma narrativa muito antes de Campbell e dos gurus do roteiro, interessou-se também pelas características dos animais, pensando em suas semelhanças e dessemelhanças com os humanos e propondo uma forma de hierarquia de inteligência. O filósofo grego observou que apenas os cavalos, os bovinos e os cachorros têm a capacidade de sonhar.

Em "Coração selvagem", Odin sonha. Mais do que isso. O cão, que tem nome do deus nórdico da guerra e da morte, sofre de estresse pós-traumático e, por isso, tem pesadelos, nos quais se assusta com flashes dos lances mais sombrios da emboscada.

David Ayer consegue a proeza de filmar o entendimento entre homem e cão. Os olhares de Odin para James são comoventes, e mais ainda a maneira como espera o tutor. A atuação de Uber impressiona.

Embora a pós-produção tenha corrigido e retocado algumas passagens, não se trata de uma atuação de inteligência artificial, muito pelo contrário. Quanto à ambientação no Alasca, também de tirar o fôlego, o grande artifício foi realizar as filmagens nas temperaturas mais brandas da Nova Zelândia.

 CORAÇÃO SELVAGEM

(EUA/Nova Zelândia/Canadá, 101 min, de David Ayer. Com Brad Pitt, Uber e J.K. Simmons) – Em cartaz nos cinemas dos shoppings BH, Big, Boulevard, Cidade, Contagem, DelRey, Diamond, Estação, Itaú Power, Minas, Monte Carmo, Norte, Paragem, Pátio, Ponteio e Via.

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