LITERATURA

Padre Fábio de Melo participa do Sempre um Papo com livro de contos

Sacerdote é o convidado do projeto, nesta terça (15/9), com o recém-lançado "A terra que ninguém nos prometeu", que define como "resultado de um desencanto"

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Padre Fábio de Melo se lembra com clareza do primeiro contato com a literatura e os livros. Tinha acabado de entrar no primeiro ano do antigo primário, atual ensino fundamental, em Formiga (MG). Era o primeiro dia de aula, e ele fazia uma espécie de tour guiado com os colegas.

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Ao chegarem à biblioteca, a então bibliotecária, dona Conceição, apresentou o espaço: “Aqui moram pessoas e existem lugares encantadores. Mas, para vocês conhecê-los, precisarão ler”. Aquilo o marcou de tal forma que, passados pouco mais de 40 anos, ele ainda se recorda de cada detalhe do episódio, conforme conta em entrevista por telefone.

Padre Fábio conheceu os lugares encantados e os personagens que habitavam a biblioteca da escola. Tomou gosto pela leitura e, mesmo escolhendo abraçar o sacerdócio, não abriu mão da literatura. Aos 55 anos, é autor de 17 livros.

O mais recente é “A terra que ninguém nos prometeu” (Record), que ele lança nesta terça-feira (15/9), às 19h, no auditório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), no projeto Sempre um Papo. O evento é gratuito, com entrada por ordem de chegada.

“A terra que ninguém nos prometeu” é um livro de contos provocativos. A provocação já começa pela subversão da ideia bíblica da Terra Prometida, mas o título também sintetiza as 26 histórias reunidas na publicação. Elas abordam a condição humana a partir da solidão e do sentimento de orfandade. Luto, finitude e relações familiares complexas são questões que passam por todo o livro, considerado pelo autor o “resultado de um desencanto”.

“Mas não me entenda mal”, pondera Padre Fábio. “Acho que só os desencantos encantam verdadeiramente. Temos muitas ilusões acerca de nós e dos outros que nos dificultam viver bem, mas a vida só pode ser bem vivida se perdemos essas ilusões”, afirma.


INSUFICIÊNCIA HUMANA

Nos últimos anos, Padre Fábio tem refletido sobre o assunto. “Cheguei à conclusão de que há experiências em que ninguém pode me acompanhar. É ali que sinto a natureza da minha orfandade, resultado da insuficiência humana. Mas há beleza em nos reconhecermos frágeis e conseguirmos dar um significado a essa fragilidade. Então, é um livro de desencanto, mas também de esperança”, diz.

Ao contrário do que se poderia imaginar, os contos não são baseados em histórias reais ouvidas em confissões ou atendimentos. Muitos personagens de “A terra que ninguém nos prometeu” chegam a situações-limite.

Em “A outra margem”, por exemplo, a protagonista vive as consequências emocionais de lidar com os suicídios do irmão, do pai e da mãe. Em “A ponta da estrela”, a personagem principal é uma cantora famosa que “não veio ao mundo para ser mãe” e apenas suportou a maternidade. Já em “Mãe morta”, a orfandade do protagonista traz um sentimento ambíguo de luto e alívio por se ver livre da obrigação de ser feliz ou corresponder às expectativas maternas.

São dilemas diretamente influenciados por autores clássicos da literatura e da filosofia. Entre eles estão Proust, Aristóteles, Victor Hugo, Graciliano Ramos, Joseph Campbell e Dostoiévski, cujo romance “Os irmãos Karamázov” é citado em um dos contos.

“Eu gosto dos clássicos. Confesso que tenho um pouco de dificuldade com a contemporaneidade. Até procuro conhecer e ver o que está sendo feito, mas tendo a gostar quando consigo observar, nessas produções, as influências dos clássicos”, afirma.


CENSURA

Por vir à luz pelas mãos de um religioso, “A terra que ninguém nos prometeu” pode escandalizar um leitor purista e piedoso. Isso não preocupa Padre Fábio, contudo.

“A literatura é um lugar onde não pode haver censura. Não posso escrever censurando meus personagens. Preciso dar a eles o direito de dizerem o que querem dizer. E também não posso tentar proteger o leitor. Ele deve criar juízo de valor a respeito do personagem e da história. Se eu fizer literatura preocupado com o que as pessoas vão achar, nunca serei escritor”, pondera.

A reunião de contos não marca a estreia do religioso na ficção. Em 2008, ele lançou “Mulheres de aço e de flores”, com pequenas histórias sobre o universo feminino, a partir do olhar de uma mulher. O livro ganhou uma versão em audiobook gravada por Marília Pêra, que também preparava uma adaptação para o teatro quando morreu, em 2015.

Em 2023, Padre Fábio lançou, “A vida é cruel, Ana Maria”, em que cria diálogos imaginários com a própria mãe, morta em 2021, aos 83 anos, por complicações decorrentes da COVID-19.

“A arte precisa ser subversiva”, afirma o sacerdote. “As grandes mudanças antropológicas começaram com grandes revoluções artísticas, que depois se manifestam na filosofia. E a filosofia é arte, a arte de pensar. Então, o artista é, por natureza, uma alma subversiva, e vai ficando melhor à medida que assume isso”.

“A TERRA QUE NINGUÉM NOS PROMETEU”
• De Padre Fábio de Melo
• Editora Record
• 196 páginas
• R$ 69,92

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SEMPRE UM PAPO
Nesta terça-feira (15/9), às 19h, no auditório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (Av. Raja Gabaglia, 1.315, Luxemburgo). Entrada gratuita, por ordem de chegada.

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