Maestro fã do ziriguidum vai reger a ópera 'Chica da Silva'
André Brant, regente da Sinfônica de Minas Gerais, destaca o suingue do músico brasileiro e prepara a estreia de 'Chica da Silva' em BH e Diamantina
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André Brant, maestro da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, trabalha para aproximar a música de concerto de públicos ainda distantes desta arte. Em entrevista ao “EM Minas”, programa da TV Alterosa em parceria com o Portal Uai e Estado de Minas, ele falou sobre educação musical, o papel da regência e “Chica da Silva”, ópera que estreia no próximo dia 12/9, em Diamantina, e dia 19/9, no Palácio das Artes, reunindo três corpos artísticos da Fundação Clóvis Salgado.
Quando você percebeu que a regência seria a sua profissão?
Toco instrumento desde cedo. Comecei com o violão, tinha 7, 8 anos de idade. Toquei muito violão popular, passei para o violão clássico, comecei a cantar. Eu me lembro de, na adolescência, cantar em corais e, em certo momento, começar a me interessar pelo ofício de regente. Dizia: 'Se for fazer uma faculdade, vou fazer faculdade de regência'. Devia ter 13, 14 anos. A música sempre esteve presente, mas a regência foi me conquistando aos poucos.
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O que um jovem músico pode encontrar em Belo Horizonte?
Primeiramente, música brasileira. A música brasileira é muito rica, é a questão do improviso, a questão da brasilidade mesmo. Fui à Alemanha no mês passado fazer um concerto no qual tive a oportunidade de reger música brasileira. É interessante, porque eles são excelentes músicos, muito bons, mas aquele suingue brasileiro, o gingado que muitas vezes é necessário, a gente não consegue ensinar. Você aprende vivendo. É o ziriguidum do brasileiro, vou chamar assim, popularmente falando.
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Minas Gerais também tem isso?
O Brasil inteiro. Em Minas Gerais, a gente tem a música mineira, que é um pouco diferente da música baiana, é claro. Mas o ziriguidum é característico, cada lugar tem suas peculiaridades. A música brasileira, em geral, tem isso: a coisa que não é ensinada, você não consegue ensinar em livros. Você tem de sentir, de estar ali presente para ir aprendendo e vivendo.
Como é o trabalho do maestro?
Vou tentar resumir rapidamente como surgiu a profissão do maestro. Há 300, 400 anos, os grupos musicais eram muito pequenos. Pouco a pouco, compositores foram escrevendo, compondo obras que aumentaram as orquestras. À medida que a orquestra foi crescendo, surgiu a necessidade de uma pessoa ali na frente para fazer com que os músicos, primeiramente, tocassem juntos. Tocassem com a mesma pulsação, no mesmo ritmo, etc. Então, a função do maestro era fazer com que eles tocassem juntos. Ao longo do tempo, foi se desenvolvendo a técnica gestual do regente. Então, se você faz um gesto mais amplo, significa que quer o som mais forte; se você faz um gesto menor, significa som mais suave. Com isso, você consegue não só controlar a pulsação da orquestra, mas também a forma como quer que ela toque.
Como os músicos sabem o que cada movimento do regente significa?
A mão direita é responsável pela marcação do tempo. Normalmente, as músicas podem ser divididas em três, quatro tempos. Então, a gente tem: um, dois, três, quatro. Os músicos se orientam sobre onde estão. Eles têm a partitura, então sabem se estão no tempo um, se estão no tempo dois, né? Com a mão esquerda, você pode indicar uma entrada, porque nem sempre todos os músicos tocam ao mesmo tempo. Pode ter um ali esperando sua entrada. E você pode, com essa mão, indicar a entrada para ele. Ele vai entrar no momento certo, mas quando você o auxilia, dá mais tranquilidade.
Qual é o desafio para aproximar a população da música erudita?
A principal dificuldade é o preconceito de que música clássica é música de elite, uma música que você precisa conhecer. Isso não é verdade. Nós fazemos lá na Sinfônica vários concertos, temos também eventos voltados para escolas da rede municipal, rede particular. Quando as pessoas vão, elas gostam, independente do que a gente apresenta, mesmo se a gente apresentar uma sinfonia que parece um pouco distante. Muitas vezes, é o próprio preconceito de achar que a pessoa não está pronta para aquilo, sabe? A música é, realmente, encantadora para qualquer pessoa.
Como ampliar esse contato com a música?
Isso deve estar presente na educação, nas escolas. Então, os pais e as escolas têm de incentivar as crianças e os jovens a frequentar não só concertos, mas qualquer atividade cultural. Nem sempre a pessoa que mora mais distante do Centro tem a condição de vir pra cá, né? Pegar uma condução para assistir a concerto numa quarta à noite, numa quinta à noite. A função da nossa série de concertos no parque é levar a música para outros lugares, não só à região central. Já fizemos ópera em Ouro Preto, fizemos também em Congonhas. Sempre que possível. Afinal de contas, a Orquestra Sinfônica é de Minas Gerais.
O que o público vai encontrar na ópera “Chica da Silva”, que estreia no dia 19 em BH?
A gente encomendou a ópera de um compositor daqui do Brasil, chamado Guilherme Bernstein. Ela fala sobre a história da Chica da Silva. A mãe da Chica da Silva veio da África, foi escravizada, a Chica também. E conheceu o João Fernandes, que se apaixonou por ela, né? Isso é uma das histórias que a gente conhece. Então, vamos contar a história da Chica da Silva que a gente acha que é realmente a história dela, a Chica da Silva correta. Ou, pelo menos, como a gente vê: a Chica – heroína, né? A Chica mulher forte, mulher com seus medos, com seus receios, também pelo fato de ser filha de escrava, ser parda. Contamos um pouco também sobre algumas filhas da Chica. Os cuidados dela com a família, a importância que ela teve na comunidade na época em que viveu.
Como será a montagem?
Fazem parte da produção a Orquestra Sinfônica, o Coral Lírico e a Companhia de Dança do Palácio das Artes. Os três corpos artísticos e vários solistas convidados – mais de 20, inclusive. A gente tem toda a encenação. Ópera é uma das formas de arte mais completas, porque ela aborda música, teatro, dança.
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Se tivesse que apresentar Minas Gerais para o mundo, que música você escolheria?
É difícil dizer, mas, aproveitando que estamos fazendo essa ópera, diria a ópera “Chica da Silva”. O público vai realmente se identificar bastante, porque é uma temática muito próxima da gente. Agora, é ópera um pouquinho mais curta. Diria que “Chica da Silva” vai falar muito sobre a nossa história e vale muito a pena.