Na Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Diamantina, será celebrada missa pela alma de Chica da Silva; o templo abriga órgão musical (detalhe) construído com doação feita por ela crédito: Marcela Bertelli/DivulgaÇÃO
Ópera, exposição e lançamento de livro são alguns dos destaques na lista de eventos relacionados aos 230 anos do falecimento de Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva. Na segunda reportagem sobre essa personagem marcante para o Brasil, o EM mostra as principais iniciativas que, muito além de homenagens, resgatam os passos dessa figura tão complexa, misteriosa e inquietante.
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Nesse roteiro histórico, Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, tem parada obrigatória. No município, uma estátua em pedra-sabão, com tamanho natural, ilustra uma página importante do antigo Arraial do Tejuco ou Tijuco. Instalada no ano passado pela prefeitura local, quando se homenagearam personagens importantes da cidade reconhecida como Patrimônio Mundial, a escultura de Chica da Silva, obra de Tercio Viega de Carvalho, fica no parque urbano municipal. Também no Centro Histórico, há outros monumentos importantes na vida da ex-cativa que viveu com o contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira, nascido em Mariana e criado em Portugal.
“Não temos um roteiro específico sobre Chica da Silva, mas as visitas guiadas mostram aos turistas lugares de destaque na vida dela”, conta o secretário Municipal de Cultura e Patrimônio, Alberis Mafra. Um deles é o sobrado onde o casal viveu, e abriga, hoje, o escritório técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e, provisoriamente, o Museu do Diamante, até ficar pronta a restauração da Casa do Padre Rolim.
FÉ RECONHECIDA
Dois templos em Diamantina são essenciais para conhecer a trajetória de Chica da Silva: a Igreja São Francisco de Assis, onde foi sepultada, e a de Nossa Senhora do Carmo. É nessa que, no dia 17, às 15h, será celebrada missa pela alma de Chica da Silva, informa o prior da Ordem Terceira do Carmo, Davi Santana. Ele lembra que a igreja será restaurada com recursos do governo federal, via PAC, estando em processo da licitação.
Projeto inicial da Ordem Terceira do Carmo, a Igreja do Carmo acabou sendo construída pelo contratador João Fernandes. Destaca-se o órgão musical de 549 tubos, “único instrumento desse tipo construído integralmente no Brasil colônia e que contou com a ajuda financeira de Chica da Silva para ficar pronto”, informa Davi Santana. “Conta nos nossos arquivos a doação de Chica para a construção do órgão histórico”, acrescenta.
Já no distrito de Milho Verde, no Serro, está em obra a Igreja Nossa Senhora dos Prazeres, na qual Chica da Silva foi batizada. A primeira etapa foi concluída graças a recursos da Plataforma Semente, dentro do Programa Minas para Sempre, do Ministério Público de Minas Gerais, com execução do Instituto Joaquim Artes e Ofícios. O investimento de R$ 2,3 milhões contemplou estrutura, telhados, forros, alvenarias, cabeamento elétrico, instalação de câmeras de segurança, sensores de fumaça e outros setores essenciais. A próxima etapa, que depende da captação de novos recursos, prevê intervenções em pisos, esquadrias, elementos artísticos integrados, drenagem e paisagismo. O templo é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG), que fez o acompanhamento da obra.
MOSTRA, ÓPERA E LIVRO
Ainda na programação, no próximo dia 26, em Belo Horizonte, na sede do Iepha-MG, via Diretoria de Promoção/Gerência de Documentação e Informação, será aberta a mostra “Os caminhos de Chica”, reunindo documentos e registros de bens culturais relacionados à vida dela. A sede do Iepha (Prédio Verde) fica na Praça da Liberdade, e a exposição poderá ser visitada até 26 de abril, de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h.
Já em 12 de setembro, estreia em Diamantina ópera baseada na vida da escravizada alforriada, que viveu num tempo de esplendor da mineração de diamantes, a partir da indagação: entre o mito e a mulher real, quem foi, afinal, Chica da Silva?
A ópera inédita da Fundação Clóvis Salgado tem música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcus Bernstein e Flávia Bessone. Direção de Jorge Takla, coreografia de Regina Advento, figurinos de Willian Rausch, cenários de Jonas Soares e iluminação de Gabriel Pederneiras. Chica da Silva será interpretada pela soprano Monique Galvão, sob regência do maestro Sílvio Viegas. Na produção, participam três corpos artísticos da Fundação Clóvis Salgado: Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico de Minas Gerais e Cia. de Dança Palácio das Artes.
Já nas livrarias, está a nova obra da escritora Mary Del Priore (ed. José Oympio): “Meu nome é Francisca – Uma história de Chica da Silva”. Assim como fez nos perfis anteriores de Tarsila do Amaral, da imperatriz Leopoldina e da filha, Maria da Glória, a historiadora assume a narração em primeira pessoa, unindo leitura crítica ao refinamento de seu estilo literário. Conforme divulgado pela editora, “o resultado é um texto primoroso, em que nos acercamos dos fatos históricos sem perder de vista as emoções que essa personagem icônica nos revela sobre o Brasil Colônia e seus desafios econômicos e morais”.
Casa ao lado do Mosteiro de Macaúbas, na zona rural de Santa Luzia, às margens do Rio das Velhas, era destino constante de Chica da Silva Gustavo Werneck/em/d.a press
TEMPORADAS EM SANTA LUZIA
Ainda neste semestre, a Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia, na Grande BH, vai reverenciar a memória de Chica da Silva. “Estamos preparando uma exposição, em data a ser definida, no Mosteiro de Macaúbas. Nesse local, quando era recolhimento para mulheres, estudaram as nove filhas dela”, informa o presidente da associação, Adalberto Andrade Mateus.
Já no próximo dia 16, quando serão lembrados os 230 anos de falecimento de Chica, que teve 13 filhos com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, seu nome e os de nove filhas estarão na lista de intenções da missa das 7h. A celebração eucarística será na Capela Nossa Senhora da Conceição, aberta ao público. Em área interna do mosteiro, se encontra sepultada uma das filhas de Chica e João Fernandes, Quitéria Rita Fernandes de Oliveira, que estudou no antigo recolhimento, saiu e depois retornou para seguir a vida religiosa.
Chica da Silva passava longas temporadas no Mosteiro de Macaúbas, localizado na zona rural de Santa Luzia, às margens do Rio das Velhas. Em uma dessas estadas, em 1770, ela escreveu seu testamento. Considerados beneméritos pelas monjas que vivem em clausura na tricentenária construção, Chica e João Fernandes mandaram construir entre 1767 e 1768, como parte do pagamento do dote das filhas, a chamada Ala do Serro, com mirante e 10 celas (quartos para as religiosas). A Capela dos Aflitos, que necessita de restauração, também foi obra do casal que viveu junto durante 15 anos. O imóvel no qual se hospedavam fica ao lado do mosteiro.
Em 1770, o mestre de campo Ignácio Correa Pamplona assinou contrato para construir outra ala, a da direita da sacristia (Retiro), igualmente dividida em celas. A construção tem ainda as alas da Imaculada Conceição, Félix da Costa (a mais antiga) e a de Santa Beatriz, onde se encontra o noviciado do mosteiro.
GUARDE AS DATAS
De 26 de fevereiro a 26 de abril
Exposição “Os caminhos de Chica”, reunindo documentos e registros de bens culturais relacionados à vida de Chica da Silva. Na sede do Iepha-MG (Prédio Verde), na Praça da Liberdade, em BH. De segunda a sexta-feira, das 9h às 16h. Entrada gratuita
Estreia, em Diamantina, a ópera sobre a vida de Chica da Silva. Local ainda a ser definido. Ópera inédita da Fundação Clóvis Salgado. Música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcus Bernstein e Flávia Bessone. Direção de Jorge Takla