Frasista, Lobão sempre foi. “Sou incancelável”; “Não sou propenso à nostalgia”; “Estou me sentindo próximo daquilo que gostaria de ser”. João Luiz Woerdenbag Filho se sai com essas (e outras) em conversa com o Estado de Minas. A razão da entrevista é o show “Lobão Power Trio”, neste sábado (1º/8), no Palácio das Artes.
Mas o papo vai longe, para o passado e o futuro. A pouco mais de dois meses de completar 69 anos (em 11 de outubro), Lobão comenta que compõe, toca e produz melhor. “Estou muito feliz com a minha idade, começando a me divertir agora.”
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Ontem (29/7), ele pegou sua guitarra para o primeiro ensaio do show desta semana. “Meu último foi em maio. Não consigo sair de casa. Pela primeira vez na vida, estou há três meses sem tocar guitarra”, ele diz. A razão? Está compondo uma ópera com o enfant terrible Gerald Thomas. Leva o nome de “Incandescence”, terá dois atos para solistas, orquestra, coro e tudo a que se tem direito nesta narrativa apocalíptica que mistura extraterrestres e holocausto nuclear.
Irmão de Gerald Thomas
“Há dois anos, a gente começou a falar através do Instagram. Resolvemos fazer um zoom e, a partir disso, nunca mais deixamos de nos falar diariamente. Ele me ajudou muito no ‘Vale da estranheza’ (novo disco, já gravado). Ficamos irmãos. No ano passado, ele me sugeriu uma ópera. 'Tá maluco?'. E ele me disse: ‘Cara, se solta’.”
Desde o início deste ano, Lobão está envolvido no projeto, que vem consumindo 12, 14 horas diárias de trabalho. A metade já ficou pronta. “O Gerald me deu liberdade para botar qualquer instrumento, mas utilizei só os de orquestra. Coloquei até um órgão de igreja.” A exceção é o theremin, um dos primeiros instrumentos eletrônicos, criado na década de 1920.
Lobão compõe no computador e um programa escreve as partituras. “Até voltei a estudar violão clássico, tirar Bach e Villa-Lobos”, conta ele, autodidata de tudo. “Nem segundo grau (ensino médio) completo tenho. Me recusei a ficar que nem idiota aprendendo fórmula para vestibular.” Tendo a bateria como primeiro instrumento, ele toca viola, guitarra, violão, contrabaixo e teclado.
Anda bem encantado pela viola caipira, tanto que o show de BH terá uma sessão dedicada a ela. Lobão, com a guitarra em punho, estará acompanhado do baixista Guto Passos e do baterista Willian Paiva no palco.
“Quando virei independente (no fim do século passado), não tinha grana, então aprendi guitarra e montei um power trio. Esporadicamente fiz trabalhos com quinteto. Comecei a achar esquisito, e percebi que minha vocação é trio, algo que quase ninguém faz.”
O trem azul
No palco, além dos sucessos da vida inteira, ele vai homenagear Lô Borges com “O trem azul”. Seu álbum autoral mais recente é “O rigor e a misericórdia” (2015). No ano passado, lançou o single “Canções de um novo show”, em que retoma a parceria com Bernardo Vilhena, coautor dos hits “Corações psicodélicos”, “Revanche”, “Vida bandida” e “Vida louca vida”.
A ideia era lançar “Vale da estranheza” neste ano, mas Lobão adiou por causa da ópera. “Gravei no estúdio Mosh com o power trio. É tudo analógico. O André Abujamra fez um arranjo de cordas lindo. A Luna La Hara, violonista flamenca maravilhosa, brasileira que mora há muitos anos na Espanha, gravou também. Oitenta por cento do repertório gravei na viola caipira, mas é um disco de rock”, ele garante.
Ele vai pensar no lançamento a partir de novembro. “Como vou ouvir o disco de novo, provavelmente vou mexer em alguma coisa. Devo fazer outra mixagem”. A única já lançada deste trabalho, “Canções de um novo show”, tem versos como “O que passou, passou”.
Isso acaba sendo gancho para a pergunta obrigatória. Política nunca mais? “Abandonei completamente”, responde. “Graças aos estudos que fiz, percebi que a natureza humana não mudou em nada. Pegue os 10 mandamentos. As preocupações são as mesmas, a política não melhora em nada a natureza humana.”
“Suruba ideológica”
Lobão diz que “qualquer ramificação ideológica” é redutora. “Você não é mais um livre pensador, tem que entrar na cartilha que adota, senão vai ser cancelado pelo próprio grupo, virar anão de rodapé. Fora o fato de que os conceitos de direita e esquerda, além de cartesianos, são positivistas. Tudo virou um Fla-Flu, e as pessoas não perceberam que, na história, tanto a direita quanto a esquerda são celeiros de tiranos. É só você dar uma olhada na suruba ideológica. A China tem um capitalismo de Estado, autoritário. O Trump é aquela porcaria. Como você vai eleger e torcer para um partido? Me recuso a entrar nessa seara burra, desonesta e de mau gosto.”
Túnel do tempo
Álbum que colocou Marina Lima como figura de frente da Geração 80, “Fullgás” (1984) vai ser tocado na íntegra em 23 de agosto, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, no segundo dia do C6 no Rock. Lobão participará de dois shows do festival. No de Marina, vai tocar “Me chama”, canção dele e hit de “Fullgás”. Baterista da cantora na época, Lobão participou da gravação original.
“Também vou tocar no teclado outra do disco, ‘Nosso estilo’, que é dela, do (Antonio) Cícero e minha. Eu nem me lembrava”, diz. No mesmo dia, participará de tributo a Cazuza. Vai tocar “Vida louca vida”, canção de lavra própria gravada pelo homenageado, e “Ideologia”.
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“LOBÃO POWER TRIO”
Show neste sábado (1º/8), às 21h, no Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro). Ingressos de R$ 135 a R$ 470, à venda na bilheteria e na plataforma Sympla.
