Elza Soares (1930-2022) chegou ao fim da vida como emblema, após transformar sua própria existência, marcada por pobreza, racismo, misoginia e violência, em força criadora e ato político. Esse é o aspecto sobre o qual a jornalista e pesquisadora Lígia Moreli joga luz no recém-lançado livro “Elza Soares: Insurreição na garganta” (Sesc São Paulo), derivado de sua dissertação de mestrado em comunicação e semiótica pela PUC-SP.

A autora investigou o que chama de instância “estética política” da artista. Fã assumida de Elza Soares, ela conta que o desejo de escrever sobre música, desde que fez o curso de jornalismo, e sua vivência como programadora e curadora do Sesc em São Paulo levaram à escolha do tema da dissertação.

A ideia inicial era analisar não só Elza, mas também a cantora Liniker, de um ponto de vista mais estritamente musical, sem, no entanto, escamotear completamente a carga política em ambas. “Estava intrigada com aquela eclosão de artistas surgindo e se destacando não somente pelo formalismo, pela estética, mas também por trazer temáticas hoje ditas identitárias, palavra de que não gosto muito, por embutir visão um pouco pejorativa. Fui para o mestrado querendo entender, por essa chave, o possível diálogo entre as duas cantoras”, diz Ligia Moreli.

Porém, ao conversar com a orientadora, percebeu que Elza, sozinha, representava um campo vasto para essa abordagem.

O período entre o lançamento do álbum “A mulher do fim do mundo” (2015) e a apresentação no Rock in Rio de 2019 foi o recorte temporal escolhido por Lígia, justamente quando a cantora, perto dos 90 anos, experimentou efervescência criativa renovada e a tomada de consciência sobre o que sua figura representava. Produzido por Guilherme Kastrup e contando, entre músicos e compositores, com nomes como Kiko Dinucci, Rômulo Fróes e Rodrigo Campos, o disco foi um marco na carreira de Elza.

A autora destaca que “A mulher do fim do mundo” se tornou um ponto a partir do qual poderia olhar para trás e para frente, para chegar na interseção da música com a política. “O disco não condensa, em si, uma única insurreição de Elza, mas talvez ele represente o momento em que isso fica mais evidente, culminando no Rock in Rio. Ela toma para si o papel de levantar uma bandeira e assumir um discurso que até então não tinha, pelo menos conscientemente, verbalmente, em frente ao microfone”, observa.

Show no Rock in Rio, em setembro de 2019, é uma das referências da análise de Lígia Moreli sobre a estética política adotada por Elza Soares

Mauro Pimentel/AFP

De acordo com Ligia, a partir daquele momento, a cantora passa a falar para as mulheres negras, para a comunidade LGBTQIA+ e pessoas que sofrem os mesmos tipos de violência que sofreu ao longo da vida. O próprio fato de se tratar de um álbum em que Elza sai do escaninho do samba é insurreição, segundo a autora. Ela pontua que a virada de chave, do ponto de vista das linguagens musicais, começa antes, com “Do cóccix até o pescoço” (2002), que já rompia com o gênero ao qual a artista sempre foi associada.

“Elza era devota do samba, fez muito por ele, mas era cantora múltipla. O germe de contestação já existia, no sentido de dizer que o lugar da mulher negra na MPB é cantando o que quiser.” Ela acredita que a recepção do álbum por parte de público e crítica reforçou em Elza o entendimento de que sua voz e sua história de vida tinham viés fortemente político. “Não sei se quando estava gravando ela tinha consciência de que aquilo viraria quase um manifesto”, diz.

A pesquisa de Lígia Moreli apoia-se em referências que atravessam feminismo, psicanálise, política, mídia e estudos de imagem, passando por autores como Suely Rolnik, Jacques Rancière, Lélia Gonzalez, Paul Gilroy e Stuart Hall.

O livro é enriquecido por diversas entrevistas realizadas por Lígia entre 2022 e 2023 com artistas e pesquisadores próximos a Elza. Ela chegou a marcar uma conversa com a cantora, mas não foi adiante por causa da pandemia. “Aí não tive mais acesso a ela”, lamenta.

Fontes preciosas

A autora destaca as contribuições de Kastrup e Dinucci. “Eles trouxeram os bastidores e a perspectiva da feitura de 'A mulher do fim do mundo', bem como da turnê”, pontua. Outra fonte preciosa, ela diz, foi Vanessa Soares, neta da artista.

“A partir de 2015, Elza passou a estar em todos os lugares, trilha de novela, filme, musical, documentário, mas, ao mesmo tempo, lidando com limitações físicas e de saúde. Vanessa trouxe esse lado, de como ela lidava com essa dicotomia”, comenta.

Fã ergue cartaz com slogan antirracista no show de Elza Soares no Rock in Rio, em setembro de 2019

Mauro Pimentel/AFP

Na opinião de Lígia Moreli, um dos principais legados de Elza Soares foi quebrar barreiras impostas aos corpos negros.

“Ela começou, em grande escala, a dizer que é preta, mas é rica, que pode cantar samba e mais o que bem entender, que é velha, mas pode estar no Rock in Rio diante de um público jovem. Elza deu visibilidade para os artistas negros e, sobretudo, tirou essas pessoas de determinadas caixinhas em que são colocadas à revelia”, ressalta.

Detalhe da capa do livro 'Elza Soares: Insurreição na garganta'

Editora Sesc São Paulo/divulgação

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“ELZA SOARES: INSURREIÇÃO NA GARGANTA”

• Livro de Lígia Moreli
• Edições Sesc São Paulo
• 160 páginas
• R$ 60

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