Entrevistado do programa “EM Minas”, da TV Alterosa e Portal Uai, exibido no último sábado (11/7), Gustavo Greco defende quecriatividade é a soma da imaginação com o repertório que se tem. Eleconsidera que é importante estimular todos os sentidos, e não apenas oolhar, embora trabalhe com identidade visual. O designer, que há maisde uma década tem integrado júris de festivais internacionais,destaca, ainda, projetos emblemáticos de sua empresa, a Greco, como o Memorial Brumadinho, o Cine Theatro Brasil, o Mercado Novo e a ArenaMRV, entre outros.
Gustavo acredita que é importante desmistificar a ideia de quecriatividade é um dom do além. Na entrevista, ele fala, também, dolugar da inteligência artificial em sua área e da paixão que mantémpor seu ofício.
Você disse que uma marca vai muito além de um logotipo. O que faz umacriação se tornar inesquecível ou realmente marcante?
É importante distinguir. Marca é tudo aquilo que forma uma percepçãona sua mente e no seu coração a respeito de uma empresa, de umapessoa, de um lugar. Identidade é o que dá materialidade para isso, écomo isso passa a ser percebido pelos sentidos nos diversos pontos decontato dessa marca com o mundo. Temos que pensar que esses pontos decontato são gatilhos para que as lembranças e percepções que se tem deuma marca sejam trazidas à tona. Identidade é aquilo que torna umamarca diferente da outra. Tempo, disposição e contato são pontos quenos levam a lembrar de uma marca com mais facilidade. As quereconhecemos mais imediatamente provavelmente são aquelas com as quaistemos mais contato, aquelas a que somos expostos mais vezes.
Você já disse que cria por meio dos sentidos, como se fosse umaidentidade brasileira. Esse é o seu diferencial?
Gosto sempre de dizer que não sou só eu; somos 25 pessoas e dividotodos os créditos com meu time. Temos, sim, uma característica, que énão fazer trabalhos com a característica da Greco. Estamos sempretrabalhando para a identidade do outro, então é importante quesaibamos entender o que o outro tem de diferente e deixar issoevidente. Se tem algo que perpassa tudo o que fazemos nos nossosprojetos de branding, é uma investigação grande do objeto de trabalhopara o qual estamos desenvolvendo o design. Nas premiações que temosganhado, o júri sempre dá uma declaração a respeito, que tem a ver coma brasilidade. Acho que é porque gostamos de usar o repertório daqueleprojeto, daquela empresa, e como trabalhamos com projetos brasileiros,temos essa investigação.
A Greco completou, recentemente, 20 anos, e vocês fizeram um vídeoinstitucional que mostra muito o que é a empresa. Gostaria que vocêexplicasse um pouco esse conteúdo.
O que esse vídeo mostra tem um pouco a ver com sua primeira pergunta,sobre marcas memoráveis. É sabido que, quanto mais os sentidos sãoestimulados em uma experiência de marca, mais memorável ela será. Asreligiões entenderam isso muito cedo. Toda vez que você vai a umacerimônia religiosa, todos os seus sentidos são estimulados, por umamúsica, pelo cheiro do lugar, alguma coisa que você colocou na boca nacomunhão, o toque. Ao estimular vários sentidos, em algumasexperiências, criamos uma relação quase que devocional com aqueleobjeto de estímulo. Se temos nos declarado agora uma marcasinestésica, é porque temos tentado estimular outros sentidos paraalém da visão, embora sejamos uma empresa de identidade visual. Foiisso que fizemos neste projeto que marcou os 20 anos, um ponto paracada sentido. Criamos uma vela com o cheiro da nossa casa; umatipografia exclusiva, que é só nossa; um chá e um biscoito com o gostoda nossa casa, um chá de clitória, uma planta azul. Nossa marca era sóazul até fazermos 20 anos. Descobrimos esse chá, que, se você pingalimão, ele fica rosa. É um processo natural. Adicionamos o verde dolimão e o rosa para a nossa paleta nova de identidade.
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De onde vem a imaginação quando uma empresa te procura para criar umamarca? Como funciona esse processo de criação?
Gosto de tirar a criação desse lugar místico, porque parece que nós,que trabalhamos na área, temos uma conexão com algo do além que chegae sopra uma ideia na nossa cabeça. Não é assim, é um trabalho comooutro qualquer. No nosso caso, a matéria prima é a informação. Gostode uma frase que diz que a criatividade é a união da sua imaginaçãocom seu repertório. Imaginação todo ser humano tem. O que vai fazer adiferença é o tamanho do repertório que você constrói, um repertóriosimbólico em relação ao que você está produzindo, por isso digo sempreque a solução do problema está dentro do próprio problema.Investigando de perto nosso objeto de design é que a gente encontra apaleta cromática, a tipografia, o acabamento, o material que a gentevai usar. Não é olhar para fora, é olhar para dentro. Brinco comaquela frase "pensar fora da caixinha". Eu gosto de pensar o problemado design muito dentro da caixinha.
Aqui em Belo Horizonte temos vários locais com criações e sinalizaçõesfeitas pela Greco, pontos turísticos inclusive, não é mesmo?
O que acho mais legal é quando isso acontece, quando começamos a fazerprojetos para cartões postais da cidade. Fizemos alguns emblemáticos,como a marca da Pampulha quando ela foi candidata a Patrimônio daHumanidade. Criamos a identidade e o projeto gráfico do dossiê que foienviado. E nós ganhamos o título. Só me caiu a ficha do quãoimportante era ser Patrimônio da Humanidade quando pensamos que outrolugar que também é são as pirâmides do Egito. Temos em Belo Horizonteum lugar com o mesmo valor global das pirâmides do Egito. Também jáfizemos a identidade e sinalização do Cine Brasil e do Mercado Novo. Asinalização do Circuito Liberdade também é nossa, assim comoidentidade e sinalização da Arena MRV, do Galo. Tem, ainda, asinalização da Filarmônica.
Uma das criações da Greco é o Memorial Brumadinho. Gostaria que vocêfalasse um pouco sobre esse projeto.
Foi, seguramente, um dos trabalhos mais complexos e desafiadores quejá fomos convidados a fazer. Houve um concurso para o projeto doMemorial e o Gustavo Penna, arquiteto que é um grande parceiro nossohá muitos anos, ganhou e nos convidou para fazer o projeto deidentidade e sinalização. É sempre importante deixar claro que foi umpedido das famílias das vítimas do rompimento da barragem. A grande
função do Memorial Brumadinho é ser um espaço de memória, para que agente se lembre e para que o que aconteceu ali não se repita jamais.
Falando de um assunto do momento, que é a inteligência artificial,você acha que ela veio para roubar o espaço da criatividade dos sereshumanos?
Ela vem de uma forma avassaladora. Em tudo agora tem InteligênciaArtificial, mas tem uma frase determinante: Inteligência Artificialnão é criatividade. Ela gera alternativas baseadas em coisasexistentes, junta algoritmos e dá soluções para "prompts".Criatividade, a meu ver, se relaciona com algo que não existia antes.Um texto que li outro dia fala de três coisas que a InteligênciaArtificial não faz, que é ter criatividade, empatia e resolverproblemas complexos. Nós a entendemos como ferramenta de agilidade emuma série de processos, mas nunca como o início da solução.
De tudo o que você já criou, o que você destacaria? E, por outro lado,do que se arrepende ou pensa que poderia ter feito diferente?
Tem uma frase que uso muito, que é a seguinte: não me arrependo denada que me trouxe até aqui. Estou aqui com o que fiz de bom e deruim. Destacar o melhor também é difícil, porque, para mim, o projetonovo sempre é o que vai ser o melhor, aquele em que estamosinvestindo. Tenho um história muito carinhosa com os trabalhos quefizemos para nós mesmos. Temos um jornal da Greco e temos todos osprodutos de que falei anteriormente. Teve, também, um projeto desinalização que fizemos para uma clínica ortodôntica em BeloHorizonte, em 2012, todo de brackets e borrachas em dimensõesampliadas, uma ideia completamente fora do esperado para o segmento,mas muito óbvia. O problema me deu a resposta imediatamente. Ganhamosum prêmio em Cannes por esse projeto, um trabalho pequeno. Foi oprimeiro grande prêmio internacional que recebemos.
Foi ali que a Greco elevou seu nível de reconhecimento internacional?
Foi. Recebi, a partir dali, o primeiro convite para participar de umjúri fora do país, que foi, inclusive, o do Festival de Cannes, querdizer, o primeiro foi logo no maior festival de criatividade. Tenho representado o Brasil como jurado nos principais festivais do mundodesde então, em 2013.
Qual conselho você daria para quem vai começar na carreira, estáquerendo ser designer?
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Para além, obviamente, de todo o fundamento técnico que qualquer bomdesigner deve ter, acho importante a curiosidade. Temos que ser maiscuriosos do que o normal, fazer mais perguntas e saber escutar. Isso éuma coisa muito importante na nossa profissão, em um mundo onde agrande maioria das pessoas só quer falar. É um exercício complexo.
