Risos e lágrimas marcaram a posse de Márcio Borges como novo imortal da Academia Mineira de Letras (AML), neste sábado (11/7), especialmente durante seu discurso, que, de forma poética, alternou graça, emoção e muitas memórias.


A cerimônia, que teve início na parte da manhã e se estendeu até o início da tarde, contou com a presença de diversas autoridades. Familiares do novo acadêmico, músicos e letristas como Tavinho Moura, Paulinho Pedra Azul e Murilo Antunes também marcaram presença, bem como representantes de gerações posteriores da música em Minas, como Henrique Portugal, do Skank, Flávio Renegado, Mariana Nunes e Pedro Morais.

Márcio chegou à AML às 10h20 e foi recepcionado pelo presidente da instituição, Jacyntho Lins Brandão. Depois de uma sessão de fotos ao lado de outros acadêmicos, ele se dirigiu ao auditório onde seria diplomado.

Função pública

A solenidade foi aberta com Jacyntho apresentando um breve histórico da Academia e falando de seu funcionamento atual. Ele destacou a função pública da entidade, chamando a atenção para o fato de que ela tem que fazer sentido para a cidade e para a sociedade.

Márcio entrou no auditório às 11h30 sob efusivos aplausos. Depois da execução do hino nacional, o presidente da Casa discursou recepcionando o novo acadêmico. Falou dos imortais que o precederam na cadeira de número 29, da qual, agora, é o sétimo ocupante.

"Uma academia tem como base o convívio entre os acadêmicos, por isso nos chamamos de confrades e confreiras, ou seja, a Academia é uma espécie do que os ingleses chamam de 'club'", disse.


Clube no 'club'

Depois de citar Milton Nascimento, Lô Borges, Toninho Horta, Beto Guedes, Ronaldo Bastos, Fernando Brant e outros parceiros e amigos de Márcio, se dirigiu a ele e acrescentou: "Sua novidade e sua adequação a esta Casa está em que, afinal, você chega ao nosso 'club' com todo esse Clube da Esquina".

Muito emocionado, o novo imortal chorou e abraçou Jacyntho. Em seguida, foi anunciada oficialmente a posse de Márcio Hilton Fragosa Borges, que recebeu o diploma das mãos do presidente emérito da AML, Rogério Faria Tavares.

O acadêmico Amílcar Viana Martins entregou a insígnia da AML ao novo membro, eleito em 22 de janeiro deste ano. A diretora da instituição, Inês Rabelo, entregou um buquê de flores para Cláudia Brandão, esposa de Márcio, como presente de boas vindas.

O mais novo acadêmico, que completou 80 anos em 31 de janeiro, chorou também quando Angelo Oswaldo, ocupante da cadeira de número 3, lembrou de sua juventude, quando morava no edifício Levy, no centro da cidade, onde costumavam se encontrar.

Discurso de Márcio

Oswaldo evocou o livro "Os sonhos não envelhecem", escrito por Márcio e lançado em 1996, com as memórias do Clube da Esquina. O novo integrante da AML discursou em seguida, lembrou de seus 20 anos e se disse um homem de sorte, por suas palavras atravessarem os anos. Disse que criou seus versos por necessidade, porque era preciso, e se colocou de forma humilde diante dos outros acadêmicos.

"Tenho muito é que correr atrás, como se diz popularmente. Tenho que rever meus passos, relembrar onde e quando e como colhi algum merecimento, se é que cheguei a colher algum", disse.

Ele trouxe à baila suas aspirações de juventude. "Há 60 anos, quando tinha 20, eu pensa que poderia mudar tudo o que via de errado, instaurando uma mítica revolução que levasse a um mundo perfeito de paz e prosperidade, habitado por pessoas fraternas, bem alimentadas, sadias e felizes", destacou.

Durante o discurso, lembrou, muito emocionado, de quando seu pai leu seus escritos, guardados em uma mala, e disse que o filho estava começando de onde ele ainda não havia chegado. Neste momento, chorou mais uma vez. Disse que depois do episódio da mala devassada pelo pai, escreveu sua primeira poesia. Ao final, lembrou dos pais, do irmão Lô Borges e de outros parentes que já partiram.

Movimento de renovação


Para Jacyntho, a chegada de Márcio dá sequência a um movimento de renovação da AML que atravessa os anos e que representa uma grande novidade para uma instituição que, afinal, preserva o passado.

"A sequência de cada cadeira vai marcando a história, mas tem esses momentos quando, por exemplo, em 1969, tivemos uma grande novidade, com Henriqueta Lisboa e Maria José de Queiroz se tornando as primeiras mulheres na Academia. Em 2023, Ailton Krenak chegou como o primeiro indígena. Em 2024, Conceição Evaristo assumiu como a primeira mulher negra. E agora, pela primeira vez, temos um letrista", disse.

Ele brincou que nada casa mais com uma Academia de Letras do que um letrista. "Aqui temos muitos letrados e muitos literatos, só que, quando se escreve, a gente emudece a voz, e no caso de um letrista, na cultura da canção, a letra mantém a relação com a fala, com a língua, então tudo isso é uma renovação e um ganho enorme para a Academia", ressaltou.

Espetáculo musical

As comemorações pelas oito décadas de vida e pela posse do novo acadêmico seguem na segunda-feira (13/7), quando será realizado, no Teatro Feluma, o espetáculo "Márcio Borges - 80 anos em família".

Vão participar da celebração Marilton Borges, Yé Borges, Nico Borges, Rodrigo Borges, Fred Borges e Telo Borges, que responde pela direção musical. O evento também vai contar com as participações especiais de Flávio e Cláudio Venturini, Murilo Antunes, Beto Lopes, Enéias Xavier e Lincoln Cheib.

O repertório que será apresentado inclui clássicos da música brasileira com letras assinadas por Márcio, como "Clube da esquina nº 2", "Quem sabe isso quer dizer amor", "Tudo que você podia ser", "Vento de maio", entre outras canções gravadas por grandes intérpretes.

Momento de expectativa

"Estou ansioso, mas sou tranquilo, vivo na roça, com meus bichinhos", diz Márcio, em entrevista ao "Estado de Minas", sobre a expectativa para essa homenagem.

"Não planejei nada. Cláudia Brandão, minha esposa e empresária, junto com Telo e Marilton é que estavam organizando essa história, que era para ser uma surpresa, mas, claro, seria impossível manter em segredo, então me inteirei do assunto", conta.

Ele adianta que fará uma abertura poética com Murilo Antunes. "Depois, vamos nos sentar e acompanhar como espectadores, eventualmente sendo chamados ao palco", diz.

Márcio destaca que será um momento especial de interação familiar. "Durante décadas da nossa vida, principalmente com meu pai, Salomão, e minha mãe, Maricota, vivos, estávamos o tempo inteiro juntos e misturados, tocando violão, piano, enfim, um verdadeiro clube dos Borges, vendo os filhos, sobrinhos e netos crescendo. Depois que meus pais se foram, esses encontros começaram a ficar mais raros, mas nunca deixaram de acontecer. Agora, no palco, todo mundo junto, há muitos anos que não tem", comenta.

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Serviço:


Espetáculo: "Márcio Borges – 80 anos em Família", nesta segunda-feira (13/7), às 20h, no Teatro Feluma (alameda Ezequiel Dias, 275, centro)

Ingressos a R$ 150 (primeiro lote), R$ 190 (segundo lote) e R$ 350 (terceiro lote), à venda pelohttps://bileto.sympla.com.br/event/123258/d/397274/s/2616981

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