Prisca Agustoni conversa sobre literatura e psicanálise na AML
Moradora de Juiz de Fora, poeta e tradutora participa, na próxima quarta-feira (10/6), do projeto "Lacan na Academia: conversando com a Literatura"
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Marina Baltazar - Especial para o Estado de Minas
O projeto “Lacan na Academia: conversando com a Literatura” vem sendo organizado, desde o ano passado, em torno do tema “Ecologia lacaniana”. A partir de debates contemporâneos acerca do aceleramento termodinâmico do planeta, do excesso de lixo produzido e da extinção em massa de diversas espécies, tateamos o problema de como a psicanálise pode contribuir para um novo pacto civilizatório, que agora parece se articular à questão ambiental.
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Em 1971, Lacan afirma que “o discurso da ciência, que parecia sem resto, sem nenhum litoral, entre a articulação significante e o gozo, vamos encontrá-lo com a poluição, esse tanto de lixo que a ciência nos fabrica, e que se torna cada vez mais difícil de eliminar do planeta”. Diante disso, o ciclo de eventos que ocorrem sempre em uma quarta-feira do semestre na Academia Mineira de Letras, procura colocar para conversar a literatura, a psicanálise e as artes, investigando o mal-estar contemporâneo e que ameaça a vida tal como conhecemos, não mais como ficção distópica, mas em nosso cotidiano imediato.
Os encontros de 2025 se desdobraram em conversas com Maria Esther Maciel e Alexandre Nodari. No primeiro semestre, a poeta, ficcionista, ensaísta e editora da Revista Olympio foi recebida, dedicando um olhar singular para o mundo ao redor, em especial aos animais e às plantas, que foram o tema da conversa do primeiro Lacan na Academia do biênio 2025-2026, transitando entre a pesquisa acadêmica e o inventário de subjetividades poéticas. Cadeira 15 da Academia Mineira de Letras desde julho de 2022, ela foi finalista do Prêmio Jabuti, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Portugal Telecom de Literatura e Prêmio Oceanos, tendo publicado, dentre outros livros, “Animalidades: zooliteratura e os limites do humano” (Editora Instante, 2023), “Zoopoéticas contemporâneas” (Azougue Press, 2023), “Literatura e animalidade” (Civilização Brasileira, 2016), “Pequena enciclopédia dos seres comuns” (Todavia, 2021), “Essa coisa viva” (Todavia, 2024), “Longe, aqui. Poesia incompleta 1998–2019” (Quixote+Do, 2020), e “M de Memória” (Tln Edições, 2020), os quais foram brevemente comentados.
No segundo semestre de 2025, o professor do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas da UFSC, e da pós da UFPR, Alexandre Nodari, veio até Belo Horizonte para falar sobre seus trabalhos reunidos no livro “A literatura como antropologia especulativa (conjunto de variações)”, editado pela Cultura e Barbárie em 2024. O lugar da escuta, a questão dos limites (e seus deslimites), a filosofia e a animalidade, o olhar a partir do outro e a transição do eu para o outro por meio de uma operação literária sofisticada, bem como nomes de escritores brasileiros, tais quais Clarice Lispector, Oswald de Andrade e João Guimarães Rosa, somaram à conversa e deram outro estado para isso que Lacan postulou como estatuto do resto.
Agora os trabalhos serão retomados com um encontro no próximo dia 10 de junho, às 20h, com a poeta, tradutora e professora da UFJF, Prisca Agustoni. Seus poemas trabalham a questão das línguas, dos rastros, das migrações, das viagens, dos restos, do mundo e de arqueologias mutiladas, mas que seguem existindo e se traduzindo pelo avesso. Como pensar o avesso do que nem sempre apresenta outro lado? Se o discurso da psicanálise se contrapõe ao discurso do mestre, desde Freud, a poética de Agustoni aponta para o lugar lacunar da poesia, entre os destroços e a construção, o animal extremo e os deslocamentos do feminino, lugar do verso por excelência, constituído pelo corte, e sinônimo de avesso, insistindo em traduzir e escutar.
“Lacan na Academia: conversando com a Literatura” é uma iniciativa da Escola Brasileira de Psicanálise, seção Minas Gerais, junto à Academia Mineira de Letras. O biênio 2025-2026, cujo eixo central gira em torno da “Ecologia Lacaniana”, é coordenado pela psicanalista Yolanda Vilela, e organizado também por Lilany Pacheco, Paula Pimenta e Marina Baltazar.
“O avesso das coisas” com Prisca Agustoni e faz parte do ciclo de eventos Lacan na Academia: conversando com a literatura. Ocorrerá dia 10 de junho, quarta-feira, às 20h, na Academia Mineira de Letras (rua da Bahia, 1466). O evento é aberto e destinado a público amplo, não restrito a psicanalistas. Não é necessária inscrição prévia, lotação sujeita à capacidade do local.
MARINA BALTAZAR é crítica cultural, pesquisadora e professora. Recém-doutora em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários da Universidade Federal de Minas Gerais, onde defendeu a tese “O fio e o fim: ficções, apocalipses, bordados e o problema da literatura”. Publicou “Escrever Leonilson: expansão da poesia” (Relicário), além de outros textos para diversos meios.
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Trechos de poemas de Prisca Agustoni
“É preciso olhar mil vezes para uma mesma planta, deixar
ressoar em ti o nome da coisa para que a coisa comece a ser a coisa em si – dizia minha mãe –
nomear cada criatura é um exercício ecológico:
somos seres gregários, meu filho, destinados
a habitar a paisagem que por sua vez nos habita
e nos nomeia:
carvalho, pereira, silva, oliveira, pinheiro
– são nossa linhagem […]”
(Quimera, Círculo de Poemas, 2025)
“estar no epicentro
do apocalipse
a ilha uma língua
em extinção
uma ferida flutuante:
carrego um caderno
no ápice do dia
trágico e escrevo
:: pedra
:: árvore
:: poeira
:: criança
volto à estaca zero
do humano, quando
as palavras eram
ensaios contra a cegueira
[...]”
(primeira parte do poema “Diálogos”, em O mundo mutilado, Editora Quelônio, 2020)
“as palavras são
não são escamas
faíscas mínimas
no dorso esguio da língua são
não são signos que imitam
o arrepio das guelras,
o branco dos barbados que migram
não migram
como pequenos barcos
rumo ao avesso,
à foz”
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(O gosto amargo dos metais, Editora 7Letras, 2022)