Apaixonado pela crônica, o jornalista e escritor Lindolfo Paoliello quis trazer para o presente sua visão de como era o mundo nas duas últimas décadas do século passado. Isso o motivou a escrever o livro “A guerra de cada um” (Del Rey), com pré-lançamento nesta quinta-feira (9/7), às 18h30, no Parrilla Savassi, marcando o aniversário de 80 anos do autor.
Os textos foram publicados em jornais entre as décadas de 1980 e 2000, cerca de 90% delas no Estado de Minas, onde trabalhou por 15 anos.
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Paoliello lançou outra coletânea em 1997. Um dos critérios de “A guerra de cada um” foi reunir os que ficaram fora daquele livro. Outro critério foi buscar crônicas que melhor traduzissem o contexto social, político, econômico dos anos 1980 e 1990.
“A palavra-chave é referência. Quis mostrar o cenário daquela época exatamente como era, uma coisa honesta, proporcionando referências”, diz.
Em 1981, o jornalista lançou o primeiro livro, “A rebelião das mal-amadas” (Codecri). Seguiram-se “Nosso alegre gurufim” (1983), “O poeta que não sou” (1986), “Banquete dos mendigos” (1992) e “As cores das palavras” (1997). Paoliello explica que optou por não atualizar a linguagem e tampouco adequar conceitos à luz dos tempos atuais.
“As crônicas têm muitos termos que não são mais usados, mas não importa, quero proporcionar o conhecimento sobre um contexto tal qual ele era, como quem presta um serviço para que as pessoas tenham referência”, ressalta. Ele toma como exemplo a primeira crônica do livro, “Juruna, saga e destino”, em que traça um breve perfil do então deputado federal Mário Juruna, referido em várias passagens como índio, e não indígena, pelo viés de sua “literatura impressionista”.
Poder da palavra
“Gosto sempre de partir da impressão que um fato ou personagem provoca em mim. Minha tarefa é, pelo poder da palavra, fazer o leitor ouvir, sentir e ver a cena que estou narrando. Uso como epígrafe esse pensamento de Joseph Conrad, escritor polonês que foi viver na Inglaterra e se tornou expoente da literatura impressionista”, diz. Ele evoca Conrad, mas enfatiza que sua maior referência literária é Machado de Assis, que leu pela primeira vez aos 13 anos.
Paoliello se apaixonou pela elegância, estilo e sutileza do autor de “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Posteriormente, entrou em contato com a obra de Dostoiévski e de outros autores “pesados”, até encontrar a leveza da crônica com Fernando Sabino.
“A partir daí, mergulhei no universo dos cronistas, adentrei esse território lendo e escrevendo. Aí veio minha segunda grande influência, que foi Rubem Braga, que tem linguagem muito refinada, com lirismo e humor.” Estes são traços distintivos da boa crônica, que deve ser capaz de acolher o leitor, afirma.
Ídolos
“Os textos de Rubem Braga e Fernando Sabino fazem isso bem, com humor, com certa ironia e refinamento estilístico, o que falta a muitos escritores. Vários deles escrevem bem, abordam grandes temas, desenvolvem grandes enredos, mas às vezes pecam pela falta de refinamento estilístico”, observa Paoliello.
Em “A guerra de cada um”, ele pretende oferecer ao leitor síntese, leveza, crítica e uma certa nostalgia. “A crônica talvez seja o gênero que melhor traduz a alma brasileira. As antigas marchinhas de carnaval brincavam com o contexto e o espírito de seu tempo, a crônica também faz isso. Entre o jornalismo e a literatura, com linguagem acessível e olhar atento para acontecimentos, ela é genuinamente brasileira”, diz.
Cronista acidental
Mineiro de Ubá, Lindolfo Paoliello veio para Belo Horizonte para estudar direito, com o intuito de ser diplomata. Com a chegada do regime militar, decidiu ser jornalista. “No primeiro ano da faculdade de direito, fui procurar o diretor de redação do Estado de Minas, que abriu espaço para que publicasse uma crônica, daí escrevi 'Paraíso perdido', em 1967”, relembra.
“Fui trabalhar como repórter na editoria de cultura, depois na de economia, e com isso o cronista ficou de lado. Deixei o jornalismo diário, atuei como executivo na Fundação João Pinheiro, no Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais e na Fiat.”
No fim dos anos 1970, quando os Diários Associados criaram o Jornal de Shopping, ele voltou a escrever. “Publiquei minha primeira crônica em 1967 e a segunda em 1979, no Jornal de Shopping, que tinha o Wander Piroli como editor. Quando ele fechou, fui convidado a escrever no Estado de Minas às quartas-feiras. Em 1981, lancei meu primeiro livro de crônicas reunidas”, recorda.
“A GUERRA DE CADA UM”
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Pré-lançamento do livro de crônicas de Lindolfo Paoliello. Nesta quinta-feira (9/7), às 18h30, no Parrilla Savassi (Rua Professor Moraes, 158, Savassi). A obra chega às livrarias em 15/7. Entrada franca.
