Ultimamente, o mundo obriga todos a se adaptarem a mudanças constantes, sobretudo no campo tecnológico. No entanto, pouco se fala sobre o impacto dessas transformações sobre quem cresceu acreditando que os 50 anos marcariam o início da velhice, mas agora se vê diante de uma cultura que valoriza o recomeço na maturidade.

O processo de revisão do tempo e das expectativas está no centro da peça “Eu quero ser uma locomotiva”, da Cia. Pierrot Lunar. Com direção de Lydia Del Picchia, do Grupo Galpão, a montagem fica em cartaz no Teatro 1 do CCBB-BH desta sexta-feira (3/7) até 27 de julho.

Fiel ao hábito de convidar diretores para cada montagem, a trupe da Pierrot Lunar será comandada por Lydia pela primeira vez. Em 2023, quando o convite foi feito, os atores Neise Neves e Léo Quintão chegavam aos 50 e queriam refletir, em cena, sobre a idade. “É o momento de a gente olhar para trás e olhar para a frente”, resume Lydia Del Picchia.

“Esta idade foi tabu durante muito tempo. Chegar aos 50 seria o auge, dali em diante, só ladeira abaixo. Mas a realidade mudou. Os 50 viraram os novos 30. A vida recomeça com novos desejos, novas perspectivas”, afirma a diretora.

A dramaturgia é assinada coletivamente por Lydia, Márcia Bechara, Jô Hallack, Arthur Barbosa e Ana Regis. Na trama, os personagens de Neise e Léo se perguntam o que ainda querem viver. Incentivados a deixar vestígios de si mesmos, decidem escrever uma carta para o futuro.

A escrita se dá em cena, desencadeando lembranças, dúvidas e desejos, até que uma terceira figura surge para avisar que o tempo está acabando. “Por mais que a gente ainda tenha muita coisa para viver, sabemos da finitude da vida, e isso nos impulsiona a viver mais”, comenta Lydia.

O espetáculo não acompanha apenas a escrita da carta. Enquanto decidem o que contar, os personagens se tornam “arqueólogos de si mesmos”, examinando objetos de um passado relativamente recente.

Cenário analógico

Itens analógicos garimpados em Belo Horizonte, como mimeógrafos, máquinas de escrever e orelhões, formam a cenografia assinada por Ed Andrade. “São objetos já obsoletos. Aquela tecnologia foi ultrapassada, apesar de eles ainda existirem e funcionarem”, explica Lydia.

Os objetos representam a transição vivida pela geração 50+. Mais do que a evolução tecnológica, eles simbolizam o mundo no qual envelheceram comportamentos, valores e formas de se relacionar.

Para Lydia, viver esse processo significa rever certezas e aprender novos modos de existir. “No mundo de uma diversidade enorme, a gente precisa acompanhar a evolução. Existem maneiras de lidar com o mundo e com as relações, mas não basta apenas se desapegar. É realmente deixar para trás e aprender uma nova maneira”, observa.

Metáfora

Em vez de adotar tom pessimista ou otimista, o espetáculo convida o público a refletir sobre o lugar desta geração no futuro. É nesse sentido que surge a metáfora da locomotiva, inspirada na canção “Quero ser locomotiva”, de Jorge Mautner.

“A locomotiva é um objeto antigo, mas de muita força, que produz calor, gera movimento e leva muita gente para a frente. É o símbolo perfeito desta geração e do resgate do passado com olhar no futuro”, define Lydia Del Picchia.

“EU QUERO SER UMA LOCOMOTIVA”

Com Cia. Pierrot Lunar. Direção: Lydia Del Picchia. Estreia hoje (3/7). Sessões de sexta a segunda-feira, às 20h, no Teatro I do CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). A temporada vai até 27/7. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda na bilheteria e no site ccbb.com.br/bh. Devido ao jogo da Seleção Brasileira, a sessão deste domingo (5/7) foi remarcada para a próxima quinta-feira (9/7), às 20h.

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* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria

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