Artes cênicas

Grupo Diadokai leva 'A caverna', de José Saramago, para o palco

Trupe carioca apresenta em BH a peça 'O amor possível', adaptação do romance lançado em 2000, com sessões até domingo (26/7) no Teatro João Ceschiatti

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No palco, a argila vai aos poucos ganhando forma nas mãos da atriz Priscilla Duarte, do grupo carioca Teatro Diadokai. Enquanto modela o barro, ela fala sobre a própria viuvez, o amor que sente pela também viúva Isaura Madruga e a fidelidade de seu cão Achado. A atriz interpreta o oleiro Cipriano Algor, personagem do livro “A caverna”, de José Saramago, na peça “O amor possível”, adaptação do romance lançado em 2000 pelo vencedor do Nobel de Literatura.

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Em cartaz no Teatro João Ceschiatti de hoje a domingo (24 a 26/7), o monólogo reflete sobre o drama de Cipriano, artesão cujo ofício está sendo extinto pelo mundo acelerado do consumismo e pela substituição da louça de cerâmica/argila por objetos de plástico. Saramago previu a conjuntura social de hoje, mas não chegou a viver para confirmar a própria profecia. O escritor morreu em 2010, aos 87 anos.

“Se ele visse o que está acontecendo hoje, com essa questão da inteligência artificial, ficaria louco”, aposta a atriz. Para ela, a partir do que Cipriano vive no romance, o escritor português antecipa o cenário atual, no qual a tecnologia ocupa o lugar das pessoas, tornando obsoletos o próprio trabalho humano e muitas profissões.

“No documentário ‘Janela da alma’, Saramago chegou a dizer que ‘nunca, em nenhum momento da história, a gente viveu tanto na Caverna de Platão’. Isso era uma questão para ele. Realmente, a alienação está cada vez mais maior. O tempo inteiro ficamos no celular, superconectados na telinha microscópica que a gente acha que é o retrato da realidade. Mas é tudo meio fake. A vida é bem mais complicada”, comenta Priscilla.

Mito de Platão

Em “A caverna”, Saramago se vale do mito de Platão, no qual o homem que vive acorrentado aos companheiros dentro de uma caverna consegue sair, descobre o “mundo real” e é desacreditado quando lhes conta o que viu. As sombras nas paredes projetadas pelo fogo eram consideradas realidade.

Saramago desloca a falsa ideia de “mundo real” para o capitalismo contemporâneo. Quem vive neste sistema acredita estar confortável, com a melhor vida possível, mas não olha para quem está ao redor e para o que ocorre no entorno.

Na adaptação para o teatro, Priscilla não interpreta somente Cipriano. Divide-se entre os papéis de Isaura e Achado, que, embora seja um cão, traz reflexões sobre o comportamento humano. Há ainda alusões a mais dois personagens: Marta, filha de Cipriano e oleira como ele, e Marçal, marido de Marta.

“Personifico os personagens de maneira muito sutil”, diz Priscilla. “Não troco de roupa e nem tenho adereço para aludir a Isaura ou ao Cipriano. A roupa é sempre a mesma, um avental, porque já traz em si o elemento feminino e masculino. Até as mudanças no meu corpo e minha voz são sutis. A ideia é deixar espaço para o espectador projetar as próprias imagens e reflexões a respeito do que está sendo dito”, ressalta.

A proposta atual é um movimento inverso na história do grupo. Desde que foi fundado, há 30 anos, o carioca Diadokai sempre investiu na linguagem corporal, com espetáculos que transitavam entre teatro de rua, perna de pau, técnicas de dança oriental e acrobacias.

“A gente estava acostumado a colocar a linguagem do corpo em primeiro plano. Não sei se é por causa da maturidade, mas queremos agora partir da palavra. É algo novo para a gente, ainda que pareça a coisa mais banal, já que normalmente no teatro convencional os atores começam a ler o texto e vão para cena”, explica.

Etapas

O processo de gestação de “O amor possível” foi feito em etapas, aproximando-se involuntariamente do lento trabalho dos oleiros. Em 2005, Priscilla vivia na Itália, atuava com um grupo de teatro local e queria voltar a trabalhar em português. Tocada pela leitura de “A caverna”, começou a fazer experimentos cênicos sem o compromisso de transformá-los em projeto formal.

Tudo foi parar na gaveta, só em 2014 a atriz resolveu retomar os experimentos. O projeto ganhou fôlego em 2017, quando Priscilla trabalhou na adaptação com o ator e diretor francês François Kahn. Durante a pandemia, ela fez do marido Ricardo Gomes um observador crítico dos ensaios realizados em casa. O olhar “de fora” deu nova roupagem ao espetáculo, que só estreou em 2023. “Costumamos dizer aqui no Diadokai que somos artesãos da cena”, brinca a atriz.

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“O AMOR POSSÍVEL”

Adaptação do romance “A caverna”, de José Saramago. Direção: Priscilla Duarte e Ricardo Gomes. Teatro João Ceschiatti do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Nesta sexta (24/7) e sábado, às 20h; domingo (26/7), às 18h. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda na bilheteria e na plataforma Sympla.

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