O escritor, jurista e professor gaúcho Paulo Scott lança o livro “Direito constitucional antirracista” em BH, nesta terça-feira (30/6), durante encontro com o público no auditório do Tribunal de Contas do Estado, com mediação de Afonso Borges, pelo projeto Sempre um Papo. Scott oferece uma leitura técnica e filosófica das relações entre racismo, democracia, direitos fundamentais e acesso à Justiça.

“Direito constitucional antirracista” dialoga com o livro “Protocolo para julgamento com perspectiva racial” (2024), que Scott considera uma revolução normativa no Brasil, na medida em que amadurece a linguagem no campo do direito. A obra oferece ferramentas conceituais para profissionais, pesquisadores e estudantes interessados na construção de práticas jurídicas comprometidas com a igualdade racial.

Com mestrado em direito econômico, o autor lecionou direito tributário na PUC-RS e foi advogado de organizações populares. O novo livro nasce da percepção de que o racismo está vinculado à estrutura econômica e jurídica que atravessa séculos.

O violento racismo brasileiro é estrutural. Brasil foi o país que recebeu mais pessoas traficadas do continente africano, afirma Paulo Scott

Jean-Baptiste Debret

“O Brasil, de maneira muito sofisticada, incorporou a normalidade da violência e da desigualdade escravocrata como nenhum outro país do mundo fez. O que temos hoje é a mentalidade escravocrata moderna”, diz.

Scott considera o sistema financeiro brasileiro “de uma violência raríssima”, se comparado a outros países. “Se você tirar o racismo, a linguagem e a ética do racismo do Brasil, a estrutura econômica e financeira do país se desmancha no ar, desaparece, porque, mais do que outros países da América Latina, o Brasil é aquele para onde mais foram traficadas pessoas do continente africano, o país protagonista da triangulação Europa, África e América”, ressalta.

Autor de premiada obra que transita entre poesia, ficção, dramaturgia, roteiro e ensaio, Scott enfatiza que a reflexão crítica que “Direito constitucional antirracista” propõe não parte da perspectiva moral, mas econômica, filosófica e material. Ele chama a atenção para o abismo que separa 0,1% de super-ricos do restante da população, convicto de que o Brasil não se firmará como país soberano se não conseguir resolver essa desigualdade.

“Hoje, você tem a classe média que não consegue pagar as contas, e isso está dentro de certa normalidade. É a tecnologia da desigualdade reinante. Isso começa a se espalhar para o mundo, que está se 'brasilizando' com o neoliberalismo rentista”, aponta.

As instituições brasileiras incorporam o racismo institucional, e a Justiça está entre os três grandes motores do processo, defende Scott. Ele toma como exemplo dessa engrenagem perversa a atuação das polícias militares.

“Não tem governador que consiga romper o racismo institucional na origem da Polícia Militar no Brasil, porque ela foi criada para reprimir as pessoas negras e indígenas, mantendo-as longe do patrimônio das pessoas brancas e ricas. O patrimônio que a PM defende não é o da classe média, é o de quem manda no país. A classe média alta é o cinturão da elite de super-ricos, que são 0,1% da população”, diz.

Manifestantes protestam contra o racismo em passeata realizada em Brasília, em junho de 2020

Sérgio Lima/AFP

Porém, o autor pondera que uma parcela do sistema jurídico efetivamente luta contra a desigualdade. “Há quem tente cumprir eticamente as promessas da Constituição, que é relativamente boa”, afirma, destacando que seu livro propõe a renovação das formas de interpretação e aplicação da Carta Magna.

“Porém, outra parcela endossa a opressão do trabalhador. A Reforma Trabalhista é visivelmente inconstitucional. Outra coisa: não existe nada mais nocivo no sentido da manutenção e sustentação da desigualdade escravista do que o orçamento secreto”, ressalta.

Orçamento

Scott adverte que superar o racismo passa, sobretudo, pela transparência do orçamento público e pela ampla participação das classes oprimidas na destinação dos recursos.

“Não é no campo do discurso moral, e sim no da atuação concreta. A dotação que deveria dar condições materiais dignas para as pessoas pobres vai para financiar obras, pavimentação de estrada que leva para fazenda de político, sem transparência e sem critério racional democrático nenhum”, garante.

“DIREITO CONSTITUCIONAL ANTIRRASCISTA”

De Paulo Scott
Editora Thomson Reuters
200 págs

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

>>> Lançamento nesta terça-feira (30/6), no Programa Sempre um Papo TCE Cultura. Às 19h, no auditório do Tribunal de Contas de Minas Gerais (Avenida Raja Gabaglia, 1.315, Luxemburgo). Entrada franca.

compartilhe