Cantora de voz doce e delicada, a paulistana Tiê faz hoje uma estreia de fogo em Belo Horizonte. Pela primeira vez, vai interpretar canções de Angela Ro Ro (1949-2025). “Mesmo que a gente tenha registros (vocais) diferentes, o tom funcionou. Vai ser uma interpretação nova”, diz ela, que selecionou três músicas, entre elas a obrigatória “Amor, meu grande amor”.
O tributo faz parte do show de Tiê no projeto Uma Voz, Um Instrumento, no Centro Cultural Unimed-BH Minas. Completando 10 anos, a iniciativa, idealizada e dirigida por Pedrinho Alves Madeira, vem homenageando artistas que fizeram parte do projeto e morreram recentemente. Ro Ro não participou uma, mas duas vezes.
“A força que ela traz é muito marcante para todos nós”, afirma Tiê, que nunca se apresentou ao lado de Ro Ro. “Tentei, na época em que ela estava reclamando na internet, chamá-la para participação em um show. Tinha cachê, mas não conseguimos desenrolar.”
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Tanto no momento dedicado a Ro Ro quanto em boa parte do show, interpretando suas próprias canções, Tiê estará acompanhada do cantor e compositor mineiro Vitor Santana. Ficaram amigos durante férias na praia de Moreré, na Bahia. Desde então, fizeram alguns shows juntos em Salvador e BH.
“Geralmente, a primeira metade é sozinha, a outra com o Vitor”, conta. O repertório traz os sucessos de Tiê – “Amuleto” e “A noite” são os maiores –, além de releituras de “Romaria” (Renato Teixeira) e “Desculpe o auê” (Rita Lee). Essa última foi gravada por ela no álbum ao vivo “Cartas de amor” (2025).
Tiê chega a Belo Horizonte na esteira do lançamento de seu novo álbum. Que nasceu como um, mas se tornou dois. “Esgotada”, com 10 faixas, chegou às plataformas em 20 de maio. “Amorosa” será lançado em algum momento do próximo semestre, talvez depois da Copa do Mundo e antes das eleições. Algumas faixas deste novo trabalho estarão no show, como “Atitude” (que contou com a participação de Adriana Calcanhotto) e “Contato”.
“O disco nasceu como um só. Inicialmente, seria só o ‘Amorosa’, mas fiquei meio insegura com tantas músicas. Acho complicado ouvir 15 músicas de uma vez só. Nessa urgência em lidar com tudo, acabei dividindo. Ao longo do processo de produção, senti tanto esgotamento quanto amorosidade”, explica.
'Sweet jardim'
Vida e carreira de Tiê sempre caminharam juntas. São 20 anos desde que ela se entendeu compositora. Tinha 26 quando fez “Chá verde”, uma das faixas de seu álbum de estreia, “Sweet jardim” (2009). “(Na época) Eu tentava escrever, como fazer para agradar. Quando fiquei muito doente, veio minha primeira canção. Foi aí que entendi que deveria escrever, de maneira simples e sincera, sobre minhas histórias.”
“Esgotada” é justamente parte disso. Tiê é mãe de três meninas: as adolescentes Liz e Amora e a caçula, Rosa, de dois anos e meio.
“Não parei com a maternidade. Lancei ‘Sweet jardim’ e engravidei da Liz. Depois veio Amora. As coisas foram seguindo sempre numa confusão mesmo. Em qualquer profissão, maternidade é sempre confusão, pois você faz quase tudo pela metade. Quando veio a pandemia, foi um baque. Vivi de locução e audiolivros, gravava em um estúdio em casa”, conta.
No fim da crise sanitária, ela engravidou pela terceira vez. Sofreu um aborto. “Aquilo mexeu demais comigo, fiquei me questionando. Não se fala sobre o luto gestacional, mas ele veio trazendo um monte de tristeza.”
Energia e cansaço
A vida seguiu até que em 2022 Tiê engravidou novamente – e perdeu mais uma vez o bebê. “Achei que não era mais para ter filho. Então, é claro que quando já estava desencanada, engravidei de novo. Veio a Rosa e, junto com ela, energia e cansaço. Quanto mais esgotada fico, mais energia invento para sobreviver. Vi que tinha de fazer um disco autoral, intenso e profundo.”
Nesse meio tempo, Tiê lançou o álbum “Cartas de amor”. O projeto ao vivo lhe garantiu uma boa agenda de shows. Em seus primeiros três meses de vida, Rosa fez 46 viagens de avião acompanhando a mãe em turnê.
“Entrei em estúdio (para ‘Esgotada’ e ‘Amorosa’) com bastante calma”, continua ela. No momento inicial foi o músico André Whoong, “namorido” e pai de Rosa, a assumir a produção. Ele logo convidou Tó Brandileone para dividir o projeto. Em um terceiro momento, Marcus Preto entrou para o trio de produtores.
Futuro
Falar de si mesma na música, levando suas próprias histórias para o formato da canção, é algo que mudou com o decorrer dos anos.
“No primeiro disco, eu tratava mais do amor romântico. Ao longo dos outros, havia outras reflexões. Não dá para melhorar o passado, mas só pensar no futuro. Na verdade, este disco fala de maturidade, tento entender o que é nosso e o que é do outro. Falo não só do amor romântico. É mais um olhar para si mesmo para tentar se compreender”, finaliza Tiê.
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UMA VOZ, UM INSTRUMENTO
Show de Tiê. Com Vitor Santana. Nesta quinta-feira (11/6), às 20h, no Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia), à venda na bilheteria e na plataforma Sympla.
