Parte da correspondência de alguns dos principais nomes da literatura brasileira do século 20 esteve guardada, durante décadas, em caixas espalhadas pelo apartamento da escritora Maria José de Queiroz (1934-2023), no Rio de Janeiro.
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Cartas de amigos, anotações de pesquisa, manuscritos, fotografias e livros com dedicatórias de escritores como Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino estavam misturados em gavetas, armários e caixas de sapato.
Membro da Academia Mineira de Letras, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora de mais de 30 livros, Maria José foi especialista em literatura hispano-americana. Aos 26 anos, tornou-se a professora mais jovem da UFMG.
Depois da aposentadoria precoce, passou a viajar pelo mundo como professora convidada em universidades dos Estados Unidos, Itália, Alemanha, França e Portugal.
“Essa pessoa viveu para isso, para escrever. Então reuniu um fundo documental muito grande, que é tudo aquilo que uma personalidade acumula ao longo da vida”, afirma Soraia Lara, bibliotecária responsável pela organização, preservação e manutenção dos acervos da AML.
Maria José, que ocupou por mais de 50 anos a cadeira número 40 da Academia, manifestou o desejo de doar o material à instituição, para que o acervo se tornasse objeto de pesquisa e estudo. Após a morte da escritora, ocorrida em 2023, uma equipe da AML foi até o apartamento onde ela morava para recolher cerca de 180 caixas de documentos, livros e correspondências.
Foram mais de 3 mil cartas identificadas no acervo de Maria José. “É um trabalho minucioso, quase cirúrgico. Às vezes precisamos retirar um clips enferrujado, uma cola derretida no papel. E, à medida que vamos organizando, começamos a identificar quem são essas pessoas que se correspondiam com ela”, conta a bibliotecária.
As cartas revelam bastidores da vida intelectual e também aspectos íntimos da experiência de viver longe do Brasil. Como passou anos lecionando fora do país, Maria José mantinha uma troca constante de correspondências com amigos e familiares.
“As cartas são fontes muito ricas de informação, porque ela escrevia numa linguagem muito sentimental. Falava sobre a chegada dela nesses países, sobre a recepção como professora brasileira, as dificuldades de adaptação, os afetos, os desabafos”, diz Soraia. “Também discutia pesquisa, crítica literária, temas que estava estudando para publicar livros. Era uma troca intelectual muito forte”, completa.
Parte desse material agora ganha uma nova forma de circulação. A AML lança nesta segunda-feira (1º/6) o podcast “Orthophonias”, dedicado a revelar histórias, curiosidades e bastidores da vida literária. A correspondência de Maria José de Queiroz é o tema da temporada inaugural.
Intitulada “Cartas mineiras”, a temporada terá 12 episódios, divulgados semanalmente, sempre às segundas-feiras, nas plataformas digitais. O episódio de estreia apresenta a proposta do projeto e traz comentários do presidente da AML, Jacyntho Lins Brandão, sobre a importância das cartas.
As correspondências são lidas pelo ator João Santos e pela poeta Flávia de Queiroz. Nos episódios seguintes, convidados comentam os temas levantados pelos documentos. Segundo Soraia, o podcast nasceu da vontade de aproximar o público desse tipo de documento.
Hoje, o acervo bibliográfico da Academia reúne mais de 50 mil obras, enquanto o conjunto documental já se aproxima de 90 mil itens organizados. “Todos esses documentos e objetos são cuidados, preservados e mantidos dentro desse projeto de preservação da memória. Temos muita coisa para explorar. Espero que as pessoas se deliciem ouvindo o podcast”, afirma a bibliotecária.
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“ORTHOPHONIAS”
Podcast da Academia Mineira de Letras. Lançamento nesta segunda-feira (1/6) nas principais plataformas de áudio, com episódios semanais.
