No embalo da Copa do Mundo que se aproxima, estreia nesta sexta-feira (29/5), no catálogo da Netflix, a minissérie de ficção “Brasil 70 – A saga do tri”, dirigida por Pedro e Paulo Morelli. Com cinco episódios, a produção mergulha, com grandiloquência épica, nos dramas, medos e emoções que cercaram os craques da Seleção comandada por Pelé que conquistou o tricampeonato mundial em 1970, no México.

Transbordante de méritos, “Brasil 70” tem força para cativar até quem não liga a mínima para futebol. Antes de mais nada, chama a atenção a impecável reconstituição de época, das roupas aos carros, passando pela arquitetura e pelos estádios, recriados em um trabalho minucioso de pós-produção, além dos trejeitos e modos de falar dos personagens.

Outro grande trunfo está no roteiro, que usa o futebol como fio condutor da trama que envolve política, história, memória, questões raciais e conflitos pessoais dos envolvidos naquela Copa.

Rodrigo Santoro (à esq.) vive João Saldanha, o técnico comunista cortado pelos militares da Seleção às vésperas da Copa de 1970

Alexandre Schneider/divulgação

A Seleção Canarinho, por um lado, era pressionada a servir de propaganda ao regime militar e, por outro, carregava o peso de recuperar o orgulho nacional, abalado com o fiasco na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, quando foi eliminada ainda na primeira fase.

Quem montou o escrete e esteve à frente como técnico nas eliminatórias foi o assumidamente comunista João Saldanha. Por sua postura avessa às intenções do governo Médici, ele foi afastado pouco antes do início da competição.

Cada episódio foca um momento específico da saga: os primeiros passos da Seleção, a chegada de Zagallo para substituir Saldanha, a violência da ditadura militar e a forma como os jogadores eram atravessados pela tensão do período, o trauma do “maracanazo”, ressuscitado diante de novo confronto com a Seleção do Uruguai e o desfecho da epopeia. Todo o contexto está em cena, mas o destaque, naturalmente, são os gramados dos estádios mexicanos onde a Seleção Brasileira pisou.

Jogadas clássicas foram recriadas de forma coreográfica, em reconstituição primorosa. É impressionante o trabalho de todo o elenco, que tem entre os principais atores Lucas Agrícola (Pelé), Rodrigo Santoro (João Saldanha), Bruno Mazzeo (Zagallo), Ravel Andrade (Tostão), Hugo Haddad (Félix), Caio Cabral (Carlos Alberto), Gui Ferraz (Jairzinho), Filipe Soutto (Gérson) e Daniel Blanco (Rivelino).

Agrícola, Santoro e Mazzeo, que vivem o trio central, entregam atuações exuberantes. Quem também se destaca, especialmente no quarto episódio, é Hugo Haddad, mineiro de Belo Horizonte, que interpreta o goleiro Félix.

O ator recebeu o convite do diretor de elenco Gabriel Domingues (que cumpriu essa função em “O agente secreto”) como um presente divino. “Quando cheguei, toda a Seleção estava escalada, fui o último a entrar no time, muito bem recebido pelos atores. No primeiro dia no set, senti que estávamos fazendo algo muito especial”, afirma.

Coreografia do jogo

O maior desafio de Haddad foi, em apenas dois meses, se “transformar” em jogador de futebol. “Tínhamos de aprender a coreografia do jogo, a dança entre os atores e a equipe de câmera.

Ao mesmo tempo, decorar o texto, incorporar a carga emocional. Era preciso energia lá em cima nas cenas de jogos, mas sem descuidar da dramaturgia”, destaca. Outro desafio foi interpretar personagens reais de uma época da qual não se encontram muitos registros.

O ator mineiro Hugo Haddad interpreta o goleiro Félix na minissérie 'A saga do tri'

Hugo Haddad/Facebook

“Pelé atravessou os anos como grande estrela, todo mundo conhece, sabe como ele é, como fala, mas do Félix não consegui encontrar tanto material de arquivo. Então, foi um trabalho que envolveu muito estudo e muita pesquisa, construção que inclui não apenas compreender o atleta, mas também o contexto histórico e humano daquela geração” explica.

Depois da preparação, houve mais quatro meses de filmagens, a toque de caixa, pela necessidade de lançar a minissérie antes da Copa do Mundo deste ano.

Haddad conta que quando assistiu à série finalizada, ficou “em choque” com a qualidade técnica.

“Fiquei muito emocionado. É tocante, mesmo para quem não entende de futebol, pois mostra o lado humano daquela Seleção, jovens vivendo seus dramas, sob pressão imensa. Os diretores foram precisos em desenvolver linguagem original que mostra uma parte importante da nossa história, porque muitas pessoas não associam aquela Copa à ditadura”, diz o ator mineiro.

Esta é a Seleção Canarinho convocada pela minissérie 'Brasil 70 - A saga do tri'

Alexandre Schneider/divulgação

Haddad conta que nos seis meses de trabalho para a minissérie o elenco conviveu como se estivesse, de fato, na concentração. Atores moravam no mesmo prédio, cada um em seu apartamento.

“Cada personagem tem uma carga emocional, e isso se refletia nas nossas relações. Rodrigo Santoro já chegava no set com postura de João Saldanha. A partir da segunda semana, as trocas já eram contaminadas: tivemos os mesmos conflitos, as mesmas ligações (dos jogadores). Brigamos, nos divertimos, nos emocionamos e hoje somos todos muito amigos”, destaca.

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“BRASIL 70 – A SAGA DO TRI”

• Minissérie em cinco episódios. Estreia nesta sexta-feira (29/5), no catálogo da Netflix

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