Opção todos tiveram, mas não houve como fugir. Os seis filhos do ator, cantor e produtor Billy Blanco Jr., netos de Billy Blanco (1924-2011), precursor da bossa nova, assumiram a veia artística. Terra Blanco, de 36 anos, a terceira da prole, está lançando seu álbum de estreia, “Nem tudo são dores” (Kuarup).
“Sempre dividi com a família e os parceiros. Agora, com meu álbum solo, chegou a hora de fazer o que quero”, afirma. Batizada Ana Terra em homenagem à célebre personagem de Érico Veríssimo, ela, na infância, integrou o grupo Família Blanco. Billynho, como o pai é chamado, reuniu os filhos no álbum “É Natal”, lançado em 2004 pela Sony Music. Fizeram shows e muitos programas de TV.
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Na adolescência, Terra abraçou a soul music. Aos 17, entrou para o teatro, participou de musicais. Chegou à televisão por meio de “Malhação”. Fez novelas (“Geração Brasil”) e séries (“Sob pressão”) até que montou com o marido, Gabriel Chadam, também ator e cantor, a banda Fulanos & Ciclanos. Veio a primeira filha, Gaia.
Com a maternidade e a maturidade, chegou a vontade de um trabalho próprio. No início do processo, Terra participou de um show do pai e da irmã, Lua Blanco. Na plateia estava Paulinho Mendonça, parceiro de João Ricardo em “Sangue latino”, sucesso dos Secos & Molhados. Foi ele quem levou Terra à Kuarup. “A ideia era fazer um repertório de músicas conhecidas. Mergulhei para encontrar, mas segui minha intuição. Escolhi algumas releituras, que canto como se fossem minhas”, diz.
Há canções que dispensam apresentações, como “Me dê motivo” (Sullivan e Massadas), sucesso de Tim Maia, e “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque. “Escolhi músicas que me faziam arrepiar. No final, vi que todas (as regravações) falavam de término, algum tipo de despedida”, conta. Terra é dona de um timbre grave que imprime personalidade a canções que já ouvimos tantas vezes. A sonoridade de seu trabalho passeia por samba, soul e reggae.
Dolores, Baden e Marcel
Desde sempre, houve a intenção de gravar alguma composição do avô. A escolha foi “Samba triste”, parceria de Billy Blanco com Baden Powell. Marcel, filho de Baden, é afilhado de Billy e Ruth Blanco, avó de Terra. “A gente se conhece desde criança, mas eu nunca tinha gravado com ele. ‘Samba triste’ era uma das preferidas do meu avô. E o Marcel é um alien como o pai: toca com emoção, tem sua própria identidade no violão. Ele topou na hora.”
Dolores Duran foi uma das primeiras a gravar Billy Blanco – o registro de “Outono” é de 1952. Muito fã da diva do samba-canção, Terra escolheu “Fim de caso”. Os encontros não terminam aí. Sobrinho-neto de Dolores, Will Gordon produziu o disco em parceria com Bruno Cunha.
“Estava no aniversário do filho do Will quando comentei que a gente deveria gravar uma da tia dele.” O registro acabou sendo em dueto com Tony Gordon, pai de Will e sobrinho de Dolores. “Foi emocionante mesmo, tanto que na hora a gente chorou cantando”, conta Terra.
Outro encontro nada planejado foi para o registro de “História mal contada” (Paulinho Mendonça/Billynho Blanco). Ney Matogrosso divide a voz com Terra nesta faixa; os dois também estão juntos no vídeo gravado com a participação do ator Cláudio Tovar.
“Quem deu a ideia foi o Paulinho Mendonça (que trabalhou em vários projetos com o cantor). Ele me disse, quando conheceu a música, que imaginava o Ney comigo. Achei que era brincadeira, deixei o tempo passar. O Paulinho voltou e comentou que tinha mostrado minha voz para o Ney”, conta Terra.
As boas notícias não pararam aí. No dia em que os dois se encontraram, Ney disse para ela que quando a ouviu, teve a mesma sensação de quando ouviu Nina Simone pela primeira vez.
“Até hoje não acredito”, diz ela, que em um só dia gravou a faixa em estúdio e o vídeo.
Compositora
A intenção, mesmo sendo um álbum de estreia, não foi só apresentar Terra como intérprete. A faixa-título “Nem tudo são dores” é parceria dela com a cantora e atriz Jana Figarella.
Já “Machista”, canção da época da banda Fulanos & Ciclanos, é quase como uma carta de intenções de Terra: “Eu vim aqui pra dizer/ Não vou mais ceder/ Eu vim aqui pra falar/ Não vai mais me calar”, canta ela, acompanhada do improviso de MC Winnit, artista trans pioneiro nas batalhas de rima.
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“NEM TUDO SÃO DORES”
• Álbum de Terra Blanco
• Kuarup
• Oito faixas
• Disponível nas plataformas digitais
