Para compreender amplamente a ópera “As bodas de Fígaro”, em cartaz no Grande Teatro Cemig do Palácio das Artes a partir deste domingo (17/5), é preciso voltar a outra obra central do repertório lírico: “O barbeiro de Sevilha”.
Embora a ópera de Rossini tenha sido composta cerca de 30 anos depois da estreia de Mozart, ela narra acontecimentos anteriores na trajetória dos personagens. Isso porque ambas são baseadas na trilogia teatral de Pierre Beaumarchais, iniciada com “O barbeiro de Sevilha”, seguida por “As bodas de Fígaro” e concluída em “A mãe culpada”.
Em “O barbeiro de Sevilha”, o centro da história é o jovem Conde Almaviva tentando conquistar Rosina. A moça vive sob tutela do velho Dr. Bartolo, que quer se casar com ela para controlar sua fortuna. Conde Almaviva conta, então, com a ajuda de Fígaro, um barbeiro espirituoso e especialista em artimanhas, que organiza uma série de disfarces, mentiras e confusões para driblar Bartolo.
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Em “As bodas de Fígaro”, Conde Almaviva já está casado com Rosina, que agora se chama Condessa Almaviva (a soprano Deborah Bulgarelli). O jovem romântico, que cantava serenatas e se recusava a lançar mão da riqueza e da boa posição social para conquistar a dama, agora é um aristocrata acomodado, que perdeu o romantismo e abusa do poder.
DESIGUALDADES
Fígaro (o baixo-barítono Fellipe Oliveira) também mudou. Tem maior consciência política e passa a enxergar as desigualdades sociais, os privilégios aristocráticos e a vulnerabilidade dos criados. Não bastasse isso, ele descobre ser filho de Bartolo (o baixo Saulo Javan), um antigo desafeto.
É como se esta segunda parte da trilogia de Beaumarchais mostrasse como os casamentos se desgastam, o poder corrompe, o desejo muda, mas as hierarquias continuam existindo. E Mozart consegue traduzir isso muito bem em música.
A história começa com Fígaro e Susanna (a soprano Melina Peixoto), criados do Conde Almaviva, preparando o quarto para o seu casamento. Susanna revela ao noivo que o conde está tentando seduzi-la, pretendendo restaurar o “droit du seigneur”, um direito feudal do senhor de dormir com a noiva antes do marido. O privilégio, no entanto, tinha sido abolido anteriormente pelo próprio conde. Fígaro, então, arquiteta um plano para desmascarar o conde e salvar o próprio casamento.
“‘As bodas de Fígaro’ estreou em 1786. Pouco tempo depois, os ideais de liberdade e crítica aos privilégios aristocráticos presentes na obra seriam incorporados pela Revolução Francesa”, diz o regente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, André Brant. Ele também assina a direção musical da montagem que abre a temporada de óperas deste ano da Fundação Clóvis Salgado (FCS). A direção cênica de “As bodas de Fígaro” é do italiano Mario Corradi. As próximas apresentações serão nos dias 17/5, 19/5, 21/5 e 23/5.
CENSURA E RESISTÊNCIA
Quando Mozart estreou a ópera em Viena, o momento político era delicado. A peça homônima de Beaumarchais já havia sido censurada na França e enfrentava resistência na Áustria por criticar frontalmente os costumes e a nobreza europeia. Na trama, Fígaro e Susanna são muito mais espertos que os patrões. É fácil perceber quem é inteligente, quem é ridículo, quem manipula e quem merece simpatia.
“O Fígaro é interessantíssimo nesse aspecto, porque ele não é apenas o criado esperto. Em muitos momentos ele parece mais lúcido do que os aristocratas todos. A ópera inteira praticamente demonstra que a inteligência social circula fora da nobreza”, diz o maestro.
A música de Mozart contribui para essa interpretação. As linhas melódicas traduzem hierarquia, desejo, manipulação e inteligência emocional. O Conde Almaviva (o barítono Homero Velho), por exemplo, frequentemente tenta controlar a cena, mas Mozart corrói essa autoridade a partir dos conjuntos de voz, que vão se embolando e tirando o destaque do conde.
“A grande dificuldade dessa ópera são justamente os ensembles”, destaca o regente, referindo-se ao conjunto de voz. “É claro que a gente não considera o dueto como um ensemble, e sim quando há três, quatro, cinco cantores. Agora, outra coisa que merece destaque é o que Mozart começa a desenvolver em ‘As bodas…’: os ‘finales’ mais extensos. Na ópera tem três deles. O primeiro, que é considerado um dos mais famosos, tem 20 minutos ininterruptos de música”, ressalta.
Outro mérito de “As bodas de Fígaro” é o papel que as mulheres ocupam na obra. São elas as mais inteligentes, que contribuem intelectualmente para o desenvolvimento do arco narrativo, sendo Susanna a mais esperta, e a condessa a que tem maior inteligência emocional. Diferentemente delas, os homens explodem com facilidade e se confundem quase sempre.
“Embora a primeira ópera do verismo seja ‘Carmen’, de Bizet, lançada quase um século depois, já podemos ver uma espécie de ‘ensaio’ do verismo por parte do Mozart”, acrescenta o maestro. “Até então, as óperas costumavam falar sobre grandes reis e mitologia. O próprio Mozart fez óperas com essas temáticas também, mas, em ‘As bodas de Fígaro’, ele busca romper com isso, ao falar sobre pessoas comuns. ‘As bodas…’ não é verismo, mas é quase o início”, afirma.
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“AS BODAS DE FÍGARO”
Ópera de Mozart, com libreto de Lorenzo da Ponte. Direção-geral: Cláudia Malta. Direção cênica: Mario Corradi. Direção musical: André Brant. Com Coral Lírico e Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. No Grande Teatro Cemig Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Domingo (17/5) e sábado (23/5), às 18h; terça (19/5) e quinta (21/5), às 20h. Últimos ingressos à venda por R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia), na bilheteria e pelo Sympla. Mais informações: (31) 3263-7400.
