A primeira e a última frase de “Fanon”, cinebiografia do psiquiatra, ativista pela independência da Argélia e pensador político Frantz Fanon (1925-1961), dirigida por Jean-Claude Barny, são citações textuais de seus livros – “Os condenados da Terra” e “Pele negra, máscara branca”.


“Achei necessário que esse filme fosse uma ferramenta pedagógica, que permitisse às novas gerações compreender a realidade e a potência das palavras de Fanon. Integrar ao roteiro citações de Fanon palavra por palavra permite compreender que o que Fanon dizia faz eco ao tempo de hoje e ao tempo de amanhã”, afirma o diretor.


O longa estreia nesta quinta-feira (14/5) no Brasil, depois de um espetacular sucesso na França. A seguir, a entrevista que Barny concedeu ao Estado de Minas, quando esteve no Brasil para divulgar o filme, em 28 de abril passado.

Alice Cherki, a psiquiatra, colaboradora e biógrafa de Fanon que é também personagem de seu filme, declarou: “Não suporto a recuperação de Fanon pelos movimentos identitários. O pensamento dele é completamente contrário a esse tipo de ideia”. Como o sr. se situa em relação a essa questão e qual é o desafio de seu filme no contexto da atual percepção dominante sobre o pensamento de Fanon?


Alice Cherki é a melhor pessoa para encarnar a ligação profunda do pensamento de Fanon, porque ela trabalhou ao lado dele como psiquiatra. Você percebe? Aí está toda a diferença.

Fanon é, antes de tudo, um médico psiquiatra; não é um político, não é um militante de um engajamento social e político. É alguém que trabalha sobre a psiquê, a alienação.


Penso que ela tem razão no sentido de que desvirtuamos a colaboração de Fanon no combate a todas as formas de discriminação, porque ele é alguém que escreve na qualidade de psiquiatra e analisa as formas de opressão, todas as formas de monopólio, por meio da retenção de poder. Ele desafia um sistema, um sistema engendrado pelo capitalismo.


Reduzir Fanon à visão identitária é quase contraprodutivo, porque o objetivo de Fanon é justamente desalienar os dois corpos – o corpo do colonizado e também o corpo do colonizador. Ele convida os dois a tentar se compreender sem se excluir. Ele interpela o dominador a compreender seu sistema de educação que o força a querer dominar o próprio irmão.


Portanto, o desafio de seu filme era retratar Fanon pela perspectiva do universalismo de suas ideias?


Quando falamos em universalismo damos a impressão de sugerir um consenso. Fanon era, antes de tudo, alguém radical. Em sua radicalidade, ele podia afirmar: “Sou radical, portanto, posso dizer ao outro para se sentar à minha mesa”. Essa conversa se dava no nível da psiquê.

Era explicado pela psiquê o modo como se pode desalienar uma pessoa que quer ocultar, discriminar o outro. Para ele, isso [o exercício da opressão] era muito próximo de um transtorno mental.


Chama a atenção o fato de que Jean-Paul Sartre aparece em seu filme apenas na estante de Fanon. O sr. preferiu evitar abordar o episódio do prefácio de “Os condenados da Terra” escrito pelo filósofo, que muitos consideram um desserviço à compreensão da obra de Fanon?


Discordo integralmente da tentativa de Sartre de caracterizar Fanon como alguém violento. O fato de ele ter associado Fanon à violência naquele prefácio impediu uma aproximação de Fanon como alguém que tinha algo a dizer de modo humano.

Sartre estava, ele mesmo, de certa forma, numa espécie de alienação, em todo caso em relação ao intelecto de Fanon. Eu não poderia ignorá-lo, porque havia uma admiração de Fanon por Sartre, mas isso foi antes do prefácio.


O prefácio de Sartre permitiu associar Fanon a todo tipo de violência. Fanon era consciente da violência que os dominadores exerciam sobre os dominados.

Ele defendia que a violência não deveria ser ignorada, mas ele queria desagregá-la, implodi-la, apaziguá-la a partir de seu interior. E, sim, Sartre fica na estante, porque é Fanon quem está em campo.


O sr. citou o pensamento de Fanon em torno da opressão como algo que se inscreve no corpo dos dominados. Gostaria de ouvi-lo sobre a escolha de Alexandre Bouyer para o papel-título.


Há algo muito importante no percurso de Fanon, que é o fato de ele ter vindo do Caribe [Fanon nasceu na Martinica]. Ele vem de uma história caribenha.

Então, esse neto de escravizados conhece a restrição geográfica. É alguém que viveu o encarceramento, a delimitação – você não tem direito de fazer isso ou aquilo, você deve se ater ao seu lugar.


E eu achava que, nesse filme, havia a necessidade de demonstrar que hoje somos pessoas livres, também no sentido intelectual. Ou seja, somos livres para propor outra coisa ao mundo. Não estamos apenas na digestão, mas na proposição.

Ao escolher alguém como Alexandre, que tem uma beleza natural, um físico avantajado e um intelecto muito poderoso, tínhamos alguém quase perfeito.


E isso denota e permite ao espectador compreender que ele não pode tentar nos ver como sempre nos viram, de modo pejorativo. Quando damos a Fanon o corpo de Alexandre, estamos falando de nobreza. É um personagem nobre. Fanon tinha uma elegância e uma nobreza naturais.

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“FANON”
(França, 2024, 2h13). Direção: Jean-Claude Barny. Com Alexandre Bouyer, Déborah François, Stanislas Merhar. Estreia nesta quinta-feira (14/5), no Cineart Ponteio (Sala 2, 16h30).

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