Um texto norte-americano, mas que poderia se passar no Japão, na Turquia, na Palestina ou no Brasil. É assim que o diretor de teatro Fernando Philbert define “Três mulheres altas”, texto de Edward Albee escrito no início da década de 1990. A montagem foi dirigida por Philbert tem sessões neste fim de semana em Belo Horizonte.
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No palco, um trio de mulheres de diferentes idades reflete sobre as escolhas feitas ao longo da vida e as marcas deixadas por elas. As atrizes interpretam personagens identificadas apenas pelas letras A, B e C.
A mais velha, vivida por Ana Rosa, revisita memórias enquanto enfrenta a velhice. Ao seu lado, a personagem de Helena Ranaldi acompanha sua rotina, enquanto a advogada interpretada por Fernanda Nobre cuida das questões financeiras e burocráticas. “É um texto que fala sobre relações humanas e sobre o momento que as personagens estão atravessando”, afirma o diretor.
A peça foi escrita pouco depois da morte da mãe do autor, figura que teria servido de inspiração para a personagem mais velha. “Aquilo que você escolhe hoje, aos 20 anos, de certo modo vai determinar como você vai ser aos 90”, afirma Philbert.
A montagem passou pela capital mineira em 2023, mas agora retorna com um elenco completamente diferente. Na versão anterior, estavam Suely Franco, Deborah Evelyn e Nathalia Dill, que deixaram o espetáculo para se dedicar a outros projetos. “É um processo natural no teatro. Os atores vão entrando em outras agendas, surgem novos trabalhos”, comenta o diretor.
Segundo o diretor, à medida que entram outras atrizes, nasce também uma nova peça. “As naturezas das atrizes, as histórias delas, tudo isso vai ajudando a formar e transformar o espetáculo”, diz.
Reação do público
Para ele, dirigir teatro também passa por escutar quem está em cena. “Você precisa entender o que a atriz está vivendo, o que pensa sobre política, sobre o mundo, sobre o cotidiano. Tudo isso vai entrando na peça e nos personagens”, afirma.
A personagem de Fernanda Nobre, por exemplo, acabou incorporando características da própria atriz, que tem atuação em pautas feministas. Outro elemento que transforma a peça, segundo o diretor, é a plateia. Cada público reage de um jeito, olha para a peça de uma maneira diferente. Isso também influencia a apresentação.
Além de discutir as escolhas que fazemos ao longo da vida, “Três mulheres altas” fala sobre envelhecimento e perda de autonomia -–física e mental. “Tem uma frase da peça que acho muito dolorosa. A personagem mais velha diz sobre o filho: ‘Eu não lembro se amo ele. Acho que amo, mas não lembro’”, comenta Fernando Philbert.
Em sua opinião, o espetáculo também abre espaço para refletir sobre a forma como a sociedade enxerga a velhice. “Muitos jovens olham para uma pessoa velha como se aquilo estivesse distante, quase como um filme. Mas você está mais perto disso do que imagina”, afirma.
“Excelência do texto”
Veterana da TV e do teatro brasileiro, Ana Rosa, hoje com 83 anos, participou de “Alma cigana”, uma das primeiras novelas diárias da TV Tupi, exibida em 1964. Há mais de 25 anos, ela circula pelo país com o espetáculo “Violetas na janela”. O giro foi interrompido quando ela aceitou o convite para integrar “Três mulheres altas”.
“Foi justamente a excelência do texto que despertou meu interesse em fazer a peça. É um texto muito inteligente, que me seduziu bastante”, conta a atriz.
Segundo Ana Rosa, a forma de atuar não mudou tanto desde o início de sua carreira, nos anos 1960. Já a personagem A trouxe um desafio inédito. “Ela tem 92 anos. Nunca tinha feito uma personagem mais velha do que eu”, diz. Durante os ensaios, a atriz diz ter descoberto, aos poucos, as nuances da personagem.
Depois de 10 anos longe das novelas, Ana Rosa está confirmada na próxima novela das 19h da TV Globo, prevista para o segundo semestre. “Por enquanto, é só isso de concreto que tenho para falar”, comenta sobre o novo projeto.
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“TRÊS MULHERES ALTAS”
De: Edward Albee. Direção: Fernando Philbert. Com Ana Rosa, Helena Ranaldi e Fernanda Nobre. Sábado (16/5), às 20h e, domingo (17/5), às 16h e 19h, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046 - Centro). Plateia I: R$ 200 (inteira) e R$ 100 (meia-entrada); Plateia II: R$ 180 (inteira) e R$ 90 (meia-entrada); Plateia III: R$ 180 (inteira) e R$ 90 (meia-entrada); Plateia IV: R$ 180 (inteira) e R$ 90 (meia-entrada). Vendas pelo Sympla e na bilheteria do teatro.
