Durante décadas, a literatura policial foi tratada como território essencialmente masculino. Para a escritora Luciana de Gnone, essa percepção parte de um equívoco histórico. “A pioneira do romance policial foi Anna Katharine Green, ainda no século 19”, afirma, referindo-se à nova-iorquina que viveu de 1846 a 1935.

Green já trabalhava com elementos clássicos do gênero, como o mistério em torno do assassino, muito antes de nomes consagrados como Agatha Christie (1890-1976), frequentemente apontada como a grande referência da literatura policial, e o próprio Arthur Conan Doyle, com seu icônico Sherlock Holmes. Ainda assim, a consolidação do gênero acabou associada a personagens e autores masculinos.

Essa distorção, de acordo com Luciana, tem origem na valorização crítica de um subgênero específico, o hardboiled, que ganhou força nas décadas de 1930 e 1940 com escritores como Raymond Chandler (1888-1959).

“A crítica deu muita ênfase a esse tipo de narrativa, com detetives durões, antissociais e quase sempre homens. Isso ajudou a consolidar a ideia de que o gênero era masculino”, afirma Gnone. “Você cria uma cultura e depois leva tempo para desconstruir essa imagem.”

Se no passado as mulheres apareciam majoritariamente como vítimas ou coadjuvantes, nos papéis de secretárias, esposas ou figuras de apoio, hoje o cenário é outro. No mercado internacional, personagens femininas passaram por transformações consideráveis. Tornaram-se femme fatales, heroínas e, mais recentemente, anti-heroínas e até vilãs.

No Brasil, porém, essa evolução ocorre de forma mais lenta. “Aqui, a maioria das personagens femininas ainda é retratada como heroína. Temos poucos livros com mulheres vilãs”, diz Luciana. Outro traço marcante da produção brasileira, segundo ela, é a forte presença de temas sociais.

Feminicídio

A literatura policial brasileira está muito ligada ao feminicídio, à violência contra a mulher e a dilemas da vida urbana. Todos esses aspectos foram levados por Luciana Gnone e Renata Marinho, autora de “O veneno do caracol”, à mesa “A representatividade das mulheres no romance policial – De autoras a personagens, como as mulheres são retratadas e aceitas no gênero majoritariamente masculino”, realizada quinta-feira (30/4) passada, no Festival Literário de Poços de Caldas (Flipoços).

O festival prossegue até domingo (3/5), com participação de Miriam Leitão, Daniel Munduruku, Aline Midlej e do quadrinista Victor Caffagi. A programação completa está disponível no site flipocos.com.
Apesar do crescimento do protagonismo feminino na narrativa policial, a presença de autoras brasileiras no mercado editorial enfrenta obstáculos. “Eu não diria que existe resistência. Acho que existe desconhecimento”, diz Luciana Gnone.

Ela aponta um contraste: enquanto autoras estrangeiras dominam listas de mais vendidos e chegam ao Brasil já consolidadas, como Gillian Flynn (de “Garota exemplar”), escritoras brasileiras têm dificuldades para alcançar visibilidade, apesar de ganharem prêmios e reconhecimento da crítica.

“Um exemplo é a Patrícia Melo, premiada e reconhecida internacionalmente. É difícil encontrar livros dela que não sejam exemplares usados. Isso é um desserviço ao leitor”, critica Luciana.

Esse debate ganha ainda mais fôlego em seu novo livro, “Voz de prisão” (Ed. MapaLab), que será lançado na próxima semana. O romance nasceu de reportagem lida por acaso e será levado para o cinema pela produtora Intro Pictures. A atriz Carol Castro, produtora associada do projeto, protagonizará o filme.

A trama acompanha uma escrivã que, décadas depois do assassinato do pai, participa da captura do criminoso. Luciana entrou em contato com a pessoa entrevistada pelo repórter e iniciou pesquisa que incluiu viagens, entrevistas e acesso a documentos do caso.

“Voltei com mais de nove horas de gravação e acesso ao inquérito completo”, lembra. O desafio foi transformar aquele material em literatura. Inicialmente pensado em terceira pessoa, o livro foi reestruturado para a primeira pessoa, após sugestão editorial, o que exigiu negociação delicada com a protagonista real.

No cinema

Além de “Voz de prisão”, outro livro de Luciana, “Evidência 7” (MapaLab), ganhará adaptação cinematográfica, a cargo da EH! Filmes, de Elisa Tolomelli, que também produziu “Central do Brasil” e “Cidade de Deus”.

Para Luciana de Gnone, o movimento de revisão histórica e ampliação de vozes na literatura policial está apenas começando. E passa, necessariamente, pelo reconhecimento das escritoras, tanto do passado quanto do presente.

“Precisamos olhar para o que já foi feito e para o que está sendo produzido agora, porque as mulheres sempre estiveram presentes no gênero. Só não foram vistas da mesma forma”, conclui.

“VOZ DE PRISÃO”

. De Luciana de Gnone

. Editora MapLab

. 192 páginas

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