POESIA

Livro homenageia os talentos múltiplos de Laís Corrêa de Araújo

Ensaios, poemas e depoimentos reunidos no livro "Da invenção ao inventário:heranças de Laís Corrêa de Araújo" revisitam trajetória da poeta e cronista mineira

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“Por que a Laís está aqui?” A pergunta surgida durante a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em 1963, em Belo Horizonte, ainda reverbera nos dias de hoje. O questionamento à presença de Laís Corrêa de Araújo (1927-2006) em evento com presença majoritariamente masculina exemplifica os desafios que a cronista, poeta e ensaísta enfrentou na sua trajetória intelectual. “O espanto perceptível na pergunta permite-nos redimensionar a surpresa que sua presença devia causar, não só por circular desenvolta em ambientes até então reservados aos homens, mas principalmente por ter uma intensa vida literária e realizar, a despeito de todos, um trabalho inédito, sério e competente”, afirma Constância Lima Duarte, do Grupo de Pesquisa Mulheres em Letras da UFMG e organizadora do livro “Da invenção ao inventário: heranças de Laís Corrêa de Araújo”.

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Leia artigo de Maria Esther Maciel: Laís Corrêa de Araújo: inventário poético de riqueza e complexidade

Na apresentação, Constância conta que o livro resulta da admiração do grupo de pesquisa pelo fazer literário e pioneirismo de Laís em diversas frentes culturais em que atuou: ensaio, tradução, crônica, poesia. Casada com o poeta Affonso Ávila, Laís organizou com o marido o evento em torno da poesia de vanguarda que reuniu, na UFMG, nomes como os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Benedito Nunes, Luiz Costa Lima, entre outros. “À ampla repercussão obtida por esse evento é atribuída a consolidação do diálogo em torno do Concretismo e do Neoconcretismo, entre o grupo mineiro e demais poetas do Rio de Janeiro e de São Paulo”, afirma a organizadora do livro. 

Laís Corrêa de Araújo também se destacou na publicação em periódicos. Atuou como cronista nos anos 1950 neste Estado de Minas, como titular da coluna “Roda gigante”, e ainda no "Diário de Minas",  "Suplemento Literário de Minas Gerais", "O Estado de S. Paulo" e na revista "O Cruzeiro", entre outros periódicos. Tem também respeitada obra como poeta e escritora de livros infantis, bem como ensaios, a exemplo do estudo da poesia de Murilo Mendes. E ainda assinou traduções em português para textos de Julio Cortázar, T.S. Eliot, Ezra Pound, Jean-Paul Sartre, Federico García Lorca, Roland Barthes, entre outros.

“Importante intelectual, arguta e antenada, Laís foi uma incansável batalhadora pela afirmação e renovação de nossa literatura. Também uma aguerrida defensora da educação, particularmente dos livros e da leitura como meios de desenvolvimento democrático do país”, afirma, na edição, o poeta Carlos Ávila. Um dos filhos da escritora, ele classifica a obra organizada por Constância como “merecido gesto de reconhecimento a uma mulher-escritora à frente de seu tempo”. 

Outra filha de Laís, Cristina Ávila revela que a mãe a “viciou” em livros. Ganhou uma edição autografada de “O pirotécnico Zacarias”, de Murilo Rubião. “Lembro perfeitamente de ter ido ao lançamento, já adolescente, exibindo uma bolsinha de palha, comprada na Feira Hippie, exemplar que consta de minha biblioteca e iniciou minhas primeiras leituras de adultos”, rememora Cristina, em “Da invenção ao inventário”. 

Além de ensaios como o de Maria Esther Maciel, reproduzido nesta edição do Pensar, o livro traz uma preciosidade: “Sonetos à amada gestante”, poemas que Affonso Ávila dedicou à esposa. Considerada pelo presidente da Academia Mineira de Letras, Jacyntho Lins Brandão, como “uma das personalidades literárias mais importantes da segunda metade do século 20 em nosso país”, a cronista e poeta morreu em 2006, aos 78 anos. Sua trajetória única na atividade literária mineira responde à pergunta formulada, com ironia, no início dos anos 1960. Quase 70 anos depois, Laís Corrêa de Araújo ainda está aqui.

“Da invenção ao inventário: heranças de Laís Corrêa de Araújo”

Organização de Constância Lima Duarte

Todavoz Editora

234 páginas

R$ 60

Lançamento na Academia Mineira de Letras no dia 30 de maio

Artigos e ensaios no livro “Da invenção ao inventário: heranças de Laís Corrêa de Araújo”

“O inventário poético 

de Laís Corrêa de Araújo” 

Maria Esther Maciel 

“Palavras de mulher: heranças da escrita multifacetada de Laís Corrêa de Araújo” 

Renata Maurício Sampaio 

“Nota de pé de página ao inventário poético de Laís Corrêa de Araújo” 

Luciana Pimenta 

“Decurso de Prazo: escolhas poéticas de Laís Corrêa de Araújo” 

Viviana Pereira Silva e Ilca Vieira de Oliveira 

“Recados poéticos: o infantil em Laís Corrêa de Araújo” 

Noêmia Coutinho Pereira Lopes, Rita de Cássia Silva Dionísio Santos 

Ozana Aparecida do Sacramento 

“Ao rés-do-chão”: insubmissa escrita de Laís Corrêa de Araújo 

Laile Ribeiro de Abreu 

“Laís Corrêa de Araújo: leitora de Murilo Mendes” 

Josoel Kovalski

“Crítica e inserção intelectual: Laís Corrêa de Araújo” 

Kelen Benfenatti Paiva

“O olhar armado: Laís Corrêa de Araújo no ofício da crítica literária” 

Deivide de Almeida Ávila 

Ozana Aparecida do Sacramento 

“A tradução mediadora de Laís Corrêa de Araújo” 

Imaculada Nascimento

“Inventário” 



A matilha não force 

arcas de cadeado. 

Todo o bem de raiz 

                               foi dado. 

Todo o bem de raiz 

(não deixo outras lavras) 

eis o que é herança: 

                                palavras. 

Eis o que é herança 

sem o rumor de cascos. 

Umas faixas de som 

                                 e de ascos. 

Umas faixas de som 

difuso e carregado. 

Título público não 

                            localizado. 

Título público não 

existe nem objeto 

maior que o horizonte 

                          concreto. 

Maior que o horizonte 

a nuvem integral 

condensada em sonho 

                                    banal 

Condensada em sonho 

a morte, como a vida. 

Em depósito a célula 

                             sofrida. 

Em depósito a célula 

salvada por amor. 

Em outro cartucho 

                     seu calor. 

Em outro cartucho 

dispare o futuro. 

A reversão é mero 

                       escuro. 

A reversão é mero 

desejo de inventário.

 O corpo em seu navio 

                                 – armário. 

O corpo em seu navio 

e mais seu cadeado. 

Porque o que houve já 

                                          foi dado. 

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