Teatro

'Mulher em fuga' acompanha jornada libertária de mãe oprimida e filho gay

Peça com Malu Galli e Tiago Martelli chega a BH no fim de semana, com duas sessões no Grande Teatro do Sesc Palladium

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Primeira adaptação brasileira para o teatro dos livros “Lutas e metamorfoses de uma mulher” (2021) e “Monique se liberta” (2024), do escritor francês Édouard Louis, a peça “Mulher em fuga” chega a Belo Horizonte no fim de semana, com duas apresentações no Sesc Palladium. Com dramaturgia assinada por Pedro Kosovski e direção de Inez Viana, a montagem é estrelada por Malu Galli e Tiago Martelli, idealizador do projeto.

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Martelli conta que o primeiro livro de Louis que leu foi “Quem matou meu pai” (2018) e pensou imediatamente em adaptá-lo para os palcos. No entanto, refletiu e considerou que a obra em que o autor fala de como o sistema político francês afetou a vida de seu pai não encontrava muitos paralelos com a realidade brasileira.

“Depois, Édouard publicou 'Lutas e metamorfoses de uma mulher'. Fiquei impactado pela temática, pensando que para este livro, sim, caberia uma adaptação”, diz Martelli. Passados três anos, Louis escreveu “Monique se liberta”. Ambos abordam a vida da mãe do autor, sob diferentes perspectivas.

O primeiro livro reconstrói essa trajetória pelo olhar do filho, que testemunhou um percurso marcado por pobreza, humilhações, trabalho exaustivo e casamento abusivo, bem como o momento em que ela decide romper com o ciclo de violências e buscar dignidade, liberdade e reconstrução.

O segundo título devolve a palavra à própria protagonista. Pela primeira vez, Monique assume a autoria de sua história, descrevendo com força e lucidez o que significa sobreviver e resistir dentro do sistema que silencia mulheres da classe trabalhadora.

“Resolvi juntar os dois. Já tinha em mente a Malu Galli para interpretar Monique. Pensei em alguns nomes para a direção e sugeri a Inez Viana, que chamou Pedro Kosovski para escrever o texto”, afirma o ator.

Conexão brasileira

A história ressoa de forma urgente neste momento que o Brasil atravessa. “A peça fala sobre maternidade precoce, interrupção dos estudos e dependência econômica. São vivências que espelham a realidade de muitas mulheres brasileiras”, pontua.

“Édouard nos entrega material muito bom para trabalhar no palco, rico em palavras e imagens. Foi muito interessante quando Pedro veio fazer a dramaturgia, porque é um texto original, mas muito fiel aos livros”, ressalta o ator.

O autor da adaptação diz admirar Inez Viana e Malu Galli. “A dificuldade foi fazer com que a dramaturgia correspondesse ao fluxo emocional com que Édouard conduz seu relato pessoal, a conversa com a mãe. Esse ponto deveria ser respeitado e mantido”, comenta Pedro Kosovski.

Os dois livros tocam em temas políticos urgentes – fluxo emocional que conduz o leitor, ou espectador, a questões importantes. “Homofobia, violência contra a mulher e machismo estão na ordem do dia, mas, pela polarização do debate público, ficam no lugar da pouca elaboração. O relato íntimo de Édouard faz com que possamos nos sensibilizar”, observa Kosovski.

A adaptação procurou focar na ambiguidade da relação entre mãe e filho, evidenciando tanto o conflito quanto o afeto.

“Existem sentimentos atravessados. Eles só vão se entender se puderem se conhecer como pessoas, como sujeitos, não só como mãe e filho. Atravessam essa jornada juntos, a despeito de tantas opressões. O filho homossexual e a mãe na condição de mulher oprimida, ambos buscando se emancipar. Esta é a luta deles. Apenas como mãe e filho os dois não conseguem se libertar”, diz Kosovski.

Louis em off

Édouard Louis participa da peça “Mulher em fuga” por meio de voz em off, na cena em que mãe e filho conversam ao telefone.

“A história da minha mãe é a história de uma vida roubada e, portanto, também a história de uma juventude roubada, como foi a vida e a juventude de muitas mulheres. É por isso que me pareceu importante escrever este livro, rebelar-me contra isso”,
afirma o autor.

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“MULHER EM FUGA”

Texto de Pedro Kosovski. Direção de Inez Viana. Com Malu Galli e Tiago Martelli. Sessões no sábado (30/5), às 21h, e domingo (31/5), às 19h, no Grande Teatro do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Plateia 1: R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia). Plateia 2: R$ 110 (inteira) e R$ 55 (meia). Plateias 3 e 4: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia), à venda na plataforma Sympla e na bilheteria.

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