Carlos Márcio, violoncelista da Sinfônica de Minas, diz que seu manifesto antirracista é também instrumento de cura pessoal crédito: Divulgação
Em 1885, a Bélgica, sob o reinado de Leopoldo II, invadiu o Estado Livre do Congo, atual República Democrática do Congo. Sob o pretexto de liderar missão filantrópica e humanitária, o monarca controlou o local por 23 anos, à frente de campanha brutal para extração de látex e marfim. Arregimentou milicianos, que escravizaram a população. Se alguma aldeia não cumprisse a meta, mãos e pés de homens, mulheres e crianças eram cortados.
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Esse episódio hediondo é transformado em poesia por Carlos Márcio, violoncelista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG), em seu livro de estreia “Racismo, constante como o tempo” (Editora Arte da Palavra). O lançamento será nesta segunda-feira (25/5), às 20h, no Auditório Vivaldi Moreira do Tribunal de Contas. Na ocasião, haverá concerto e sessão de autógrafos.
Em 102 páginas, Carlos transita entre poesia e ensaio, tendo o racismo como fio condutor. “Este livro é dedicado a todos nós que temos a companhia de um segurança sem nenhum motivo, somos ‘confundidos’ com malfeitores, somos ‘até educados’; e, sobretudo, a todos aqueles vitimados por balas perdidas, ‘fatalidades’ e ‘enganos’ que, não por acaso, acertam sempre a mesma cor”, escreve ele na dedicatória.
“A gente custa a se perceber como negro, porque o negro é um lugar social”, diz o autor. “Quem me fez descobrir que era negro foi um amigo. Ele me abriu os olhos e me fez entender por que não era chamado para um casamento ou, quando era chamado, recebia cachê mais baixo”, revela.
Hoje, as coisas melhoraram um pouco, ele reconhece. Há cerca de 20 anos, quando entrou na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), havia pouquíssimos estudantes negros no curso de música. Número ainda menor conseguia comprar instrumentos.
Essas experiências inspiraram “Racismo, constante como o tempo”. Os poemas funcionam como manifesto e ferramenta de cura pessoal. Tratam o preconceito não como evento isolado, mas estrutura persistente e cotidiana.
“Chega, meu pai” e “3 tiros”, por exemplo, são dedicados a Durval Teófilo Filho, assassinado em 2022 na entrada do condomínio onde morava, em São Gonçalo (RJ), pelo vizinho que o confundiu com bandido.
Marielle Franco e George Floyd
O poema “O negro da semana” lista vítimas de violência, como Marielle Franco, George Floyd e crianças mortas por balas perdidas. Já “A banalidade do mal” expõe as atrocidades cometidas pelo rei belga Leopoldo II.
A invisibilidade de uma empregada em cena de novela, cujo rosto e voz não importavam para a narrativa, é analisada em “Anjo mau, 1976”, enquanto “Partituras” relata o episódio em que Carlos Márcio foi abordado por policiais armados. Só se convenceram de que ele não era bandido por causa das partituras que carregava.
“Alguns poemas são episódios corriqueiros que sempre me incomodaram, mas ficava empurrando ali para debaixo da minha pele”, revela.
Hipocrisia nos teatros
Há versos que fogem um pouco da linha adotada por Carlos. “Ecos de Chico Rei e Nise da Silveira” é homenagem para Aldo Bibiano e Ligia Amadio, respectivamente, o primeiro tubista quilombola em cargo fixo de orquestra no Brasil e a primeira mulher regente titular da Sinfônica de Minas em 50 anos.
Escrito antes da demissão da maestra Ligia, em janeiro deste ano, depois de expor as condições precárias da orquestra, o poema ganhou caráter premonitório, de acordo com o autor, por causa dos versos finais: “Aldo e Ligia, aplausos que ecoam fatos,/ estilhaçando a hipocrisia reinante dos teatros”.
“A gente ficou sem chão”, relembra o músico ao comentar a demissão da regente. “Ela realmente transformou a orquestra, no sentido de elevar o nível.
O ponto alto do livro é o ensaio “Devoção, memória e racismo estrutural: Caminhos de escuta”. Carlos usa a ópera “Devoção”, da Fundação Clóvis Salgado (FCS), como ponto de partida para criticar o revisionismo histórico.
Embora tenha participado da montagem – Carlos não nega isso em momento algum, cumpre dizer –, ele questiona a exaltação de um bandeirante escravocrata naquela narrativa de fé, enquanto personagens negros permanecem mudos e submissos em cena.
Ópera 'Devoção' é tema de ensaio do violoncelista Carlos Márcio sobre revisionismo histórico e racismo no Brasil Marcia Charnizon/divulgação
O ensaio traça paralelos entre os horrores de Auschwitz e o que o autor chama de “fazendas de concentração” brasileiras. A tese central é que, embora ambos sejam crimes contra a humanidade de crueldade equivalente, a sociedade brasileira falhou por não conferir à escravidão o peso de luto, memória e reparação que o mundo dedica ao Holocausto.
“Não é comparação de quem sofreu mais”, ressalta. “O que falo é que os judeus sofreram tudo aquilo no Holocausto, mas houve um luto, um reconhecimento da humanidade que tiraram deles. Os alemães não os consideravam pessoas, mas o resto do mundo, sim, e lutou para que saíssem daquela situação. Os negros escravizados jamais tiveram isso.”
Detalhe da capa do livro de estreia de Carlos Márcio Arte da Palavra/reprodução
• Livro de Carlos Márcio • Arte da Palavra • 102 páginas • R$ 50 • Lançamento nesta segunda-feira (25/5), às 20h, no Auditório Vivaldi Moreira do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (Av. Raja Gabaglia 1.315, Luxemburgo). Antes da sessão de autógrafos, haverá concerto de Carlos Márcio. Entrada franca.