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Peter Jackson prepara as novas aventuras de Tintim no cinema

Diretor neozelandês, homenageado em Cannes, diz que próximo filme sobre o repórter dos quadrinhos começa onde terminou o longa de 2011, de Spielberg

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Carlos Helí de Almeida/Especial para o Estado de Minas

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Cannes – Em sua primeira visita ao Festival de Cannes, em 1988, quando promoveu “Bad taste”, seu longa-metragem de estreia, Peter Jackson foi expulso do Palácio dos Festivais antes mesmo de chegar ao balcão de credenciamento.

“Estava usando shorts, o que não era permitido no prédio central. Eu, que não gosto de usar nem sapatos, aprendi muito cedo que tenho de ser respeitoso nesse festival. Não fosse isso, estaria aqui conversando com vocês com os pés descalços”, contou o diretor neozelandês, em tom de brincadeira, no dia seguinte à homenagem em que recebeu a Palma de Ouro honorária da 79ª edição da mostra francesa, encerrada sábado (23/5).

Jackson nunca teve um filme seu exibido na seleção oficial de Cannes, mas o festival serviu de plataforma para a exibição do corte promocional de “A sociedade do anel” (2001), primeiro longa da trilogia “O senhor dos anéis”, inspirada nos livros de J.R.R. Tolkien, que se transformaria em um sucesso planetário nos anos seguintes, vencedora de inúmeros Oscars.

“Ele é dono de uma obra que funde hits de bilheteria e filmes de autor, com uma visão artística extraordinária”, disse Thierry Frémaux, diretor-geral do festival. Na entrevista a seguir, Jackson, de 64 anos, fala sobre o impacto da saga de Tolkien e a continuação de “As aventuras de Tintim”, lançado por Steven Spielberg em 2011, que o diretor está preparando.

Quando o primeiro livro da saga “O senhor dos anéis” foi lançado, nos anos 1950, causou certa euforia entre os conservadores, porque fala de distúrbio da ordem e da perda de identidade. Isso o incomoda?

O livro foi a maneira de (J.R.R.) Tolkien expressar sua tristeza diante do fato de que o Reino Unido havia adotado a Revolução Industrial. Tolkien era um ludita que amava o interior da Inglaterra, os riachos, os rios e as árvores. Viu fábricas sendo construídas, produzindo vapor, o aumento da mineração de carvão, e ficou de coração partido com a perda da paisagem rural inglesa com a qual cresceu. Ele dramatizou isso contando histórias sobre elfos partindo de suas terras, já que o mundo que conheciam nunca mais seria o mesmo. Tinha a ver com a perda de sua amada paisagem rural inglesa, o que era fácil de aplicar a quase qualquer país naquela época, quando o mundo se transformou de bucólico em industrializado.

Mas a franquia de filmes tem um gosto mais contemporâneo, pois sublinha temas como disputa de poder, personagens tirânicos…

Bem, como quase todas as histórias são na verdade, não é? Há disputa de poder e tirania nos contos dos irmãos Grimm e nas antigas lendas gregas. Tolkien certamente se baseou muito nisso, sabe? Ele foi professor de inglês na Universidade de Oxford, então se inspirou em “Beowulf” (poema épico, marco da literatura medieval), nas sagas nórdicas e na mitologia grega. Mas Tolkien só vendeu os direitos de “O senhor dos anéis” e de “O Hobbit” no final dos anos 1960, porque tinha grande dívida em impostos para pagar. Ele nunca quis que seus livros fossem transformados em filmes. Era fundamentalmente contra. Mas, claro, uma vez vendidos, não havia como impedir que fizessem qualquer coisa a partir deles.

Andy Serkis, o Gollum de “O senhor dos anéis”, vai dirigir “The hunt for Gollum”, uma espécie de spin off da saga. O senhor terá alguma função nesse novo capítulo da série de filmes?

Sou um tipo de produtor-executivo. Temos produtores botando a mão na massa no projeto, então só estou lá como amigo, para dar um pouco de conforto a todos, usar a minha experiência para ajudar a fazer o filme. Não faço nada além do que me pedem, nunca irei lá para dizer isso ou aquilo para o Andy, ou o que ele deve ou não fazer. Mas se Andy me chamar e disser “posso ir a sua casa conversar contigo sobre algumas coisas relacionadas ao filme?”, é claro que vou recebê-lo. Então, sou como uma espécie de pai, de deus, que está disponível quando e como for necessário (risos).

Ator Eijah Wood olha para a frente em cena do filme O senhor dos anéis
'O senhor dos anéis', protagonizado por Elijah Wood, estreou em 2001 e projetou mundialmente o diretor Peter Jackson. Saga conquistou 17 Oscars e se tornou ícone do cinema de fantasia New Line/divulgação

O personagem Gollum apareceu pela primeira vez em “O Hobbit”, lançado em 1937, e voltou nos demais livros da saga. Mas não há um livro específico sobre ele. De onde vêm os elementos para o filme sobre Gollum?

“O senhor dos anéis” tem um apêndice enorme no final, umas 50 ou 60 páginas de anotações do Tolkien, notas sobre o contexto de determinados episódios e coisas que não estão no romance, mas foram acrescentadas no final. São como pequenas histórias paralelas, descrevem certos detalhes, expandem elementos da trama. Parte do projeto “The hunt for Gollum” está descrita ali e envolve um pouco da infância do personagem, descreve as tentativas dele para chegar ao condado, a perseguição dos patrulheiros, até ser capturado em Mordor. O apêndice faz parte dos direitos que a Warner Bros comprou, então podemos adaptar qualquer coisa que apareça nela.

O senhor não pensou em dirigir o filme “The hunt for Gollum”?

Nunca, porque achei que o filme ficaria mais interessante nas mãos de Andy, que interpretou o personagem desde o início, conhece os vícios, as lutas e conflitos internos dele melhor do que ninguém.

Em que pé está o novo filme sobre Tintim que o senhor vai dirigir? É inspirado em algum álbum específico das histórias criadas por Hergé?

Bem, prefiro não contar muita coisa ainda, simplesmente porque eu, Anthony Horowitz e Fran Walsh estamos escrevendo o roteiro agora, literalmente. Quando acabarmos aqui, vou voltar ao hotel e continuar enviando páginas para eles, na Nova Zelândia. Steven (Spielberg) quer ler o roteiro. Ele pode dizer que não gostou e sugerir que busquemos um outro livro com o Tintim. Tudo o que posso dizer é que começa exatamente onde termina o filme que Steven lançou em 2011.

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