Ana Maria Machado, destaque da Fliti, defende o corpo a corpo com o leitor
Escritora diz que contato direto com o público é 'insubstituível'. Ela estará na Feira Literária Internacional de Tiradentes, que começa na quarta (6/5)
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Um encontro inesperado no saguão de hotel, no interior da Bahia, ajudou a lembrar à escritora Ana Maria Machado, de 84 anos, por que ainda faz questão de cruzar o país para conversar com leitores. De madrugada, durante o checkout, ela foi surpreendida pelo funcionário que reconheceu seu nome completo. “Por acaso você é a Ana Maria Machado que escreveu ‘Menina bonita do laço de fita’?”, perguntou ele.
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Diante da confirmação, veio o relato. A história começou na infância, quando a irmã do rapaz levava repetidas vezes o livro da biblioteca para casa. Ao ver aquela menina negra se reconhecer como bonita, ele também passou a se enxergar assim. Isso o fez acreditar que poderia realizar seus sonhos. Tornou-se músico e, orgulhoso, mostrou à escritora o vídeo em que tocava trompete em uma orquestra.
“Esses encontros são absolutamente insubstituíveis”, diz Ana Maria Machado ao Estado de Minas.
Jornalista
Homenageada pela sexta edição da Feira Literária Internacional de Tiradentes (Fliti), que começa nesta quarta-feira (6/5) e segue até domingo (10/5) na cidade histórica, ela reitera que o contato direto com o público se tornou parte essencial de sua trajetória.
“É o que me alimenta de realidade, de observação. Sou escritora, mas fui também jornalista a vida toda. O jornalista começa pela observação, e o escritor aprofunda isso na linguagem. As duas coisas estão juntas”, afirma.
Histórias como a do jovem músico são frequentes. Em Serrinha, no interior da Bahia, a autora viveu outra experiência marcante ao participar de uma feira literária em que nem sequer havia livros seus à venda. O que poderia parecer um problema revelou outra realidade.
“A biblioteca municipal era maravilhosa, com uma bibliotecária extraordinária que trabalhava nas escolas. Quando encontrei os leitores, todos tinham lido meus livros e faziam perguntas”, conta Ana Maria.
O episódio sintetiza um ponto crucial: o acesso à leitura no Brasil nem sempre passa pelo mercado editorial. Por isso, afirma a escritora, o papel das bibliotecas e da escola pública é decisivo, especialmente fora dos grandes centros.
Nesse contexto, iniciativas como a Fliti ganham destaque. É costume da feira de Tiradentes disponibilizar um ônibus-biblioteca que percorre cidades da região ao longo do ano.
Além disso, são promovidos encontros com autores e artistas de outros segmentos que dificilmente se juntariam, não fosse o evento literário. Nesta edição, por exemplo, haverá mesas com Eliane Alves Cruz, Estevão Ribeiro, Paulo Betti, Cissa Guimarães, Pedro Doria, Luciana de Gnone e Daniel Kondo, entre outros, além da própria homenageada.
Aos 84 anos, 50 deles dedicados à literatura, Ana Maria Machado tem carreira consolidada como uma das principais vozes da literatura infantil brasileira. Lançou títulos traduzidos em mais de 30 países e reconhecidos pelo Prêmio Hans Christian Andersen.
A autora carioca também escreve romances e ensaios que não são infantis ou infantojuvenis. “É uma parte da minha obra que repercutiu menos do que eu gostaria, ou do que acho que merecia”, afirma.
Entre os romances fora do espectro infantil se destacam “Alice e Ulisses” e “Infâmia”. O primeiro narra o encontro entre mulher recém-separada, disposta a se aventurar por novos caminhos, e cineasta casado, preso a um relacionamento de aparências.
Assim como o Ulisses de Homero, o personagem parte em jornada arriscada, certo de que voltará para casa e encontrará a esposa. Já a Alice brasileira remete à personagem célebre de Lewis Carroll e sua busca por um mundo mágico e, de certo modo, perigoso.
Já “Infâmia” tratou de fake news antes mesmo de o termo existir. Lançado em 2011, o livro surgiu a partir de observações acumuladas ao longo do tempo, incluindo o impacto do Caso Escola Base, episódio em que acusações infundadas proliferaram na imprensa como se fossem verdade.
Hábito
O material, inicialmente reunido sem objetivo definido, acabou transformado em ficção anos depois. “Eu guardava, porque vinha do hábito do jornalismo. A gente nunca sabe quando vai precisar”, afirma Ana Maria.
A ocupante da cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras não tem mais o hábito de recortar e guardar notícias. Contudo, mantém a disciplina de escrever diariamente, todas as manhãs. O que virá a público ainda está em aberto. “Tenho trabalhado muito com memória. Às vezes vira um conto, às vezes outro texto. Não sei exatamente o que vai sair disso”, diz. “Está em processo de gestação”, conclui.
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6ª FLITI
Feira Literária Internacional de Tiradentes. De quarta-feira (6/5) a domingo (10/5) em diferentes espaços da cidade histórica mineira. Programação completa em no site.