Cinema

Filme 'O riso e a faca' tem três horas e meia de duração. E convence

Longa do português Pedro Pinho, rodado na Guiné-Bissau, aborda questões complexas do mundo contemporâneo, como imigração, racismo e desigualdade social

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O longa “O riso e a faca”, do diretor português Pedro Pinho, tinha tudo para dar errado. Praticamente criado ao longo de sua realização, com cenas se construindo em tempo real no cenário pós-pandemia, sem ensaios e diálogos decorados, o filme chegou ao fim da primeira versão com pouco mais de 20 horas, abordando múltiplas e complexas questões sociais.

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Depois de inúmeros cortes, trabalho que se estendeu por quase dois anos, a versão em cartaz em BH tem três horas e meia. Tempo longuíssimo para os padrões atuais.

“O riso e a faca”, no entanto, contrariou expectativas e vingou. No Festival de Cannes do ano passado, foi exibido na mostra “Um certo olhar” e rendeu o prêmio de Melhor Atriz à cabo-verdiana Cleo Diára. O jornal Le Monde o definiu como “um dos mais belos filmes de Cannes”, enquanto a IndieWire o classificou como “um feito gigantesco que atravessa continentes”.

A consagrada revista Cahiers du Cinéma destacou o longa, coprodução entre Brasil, Portugal, França e Romênia, colocando-o em quinto lugar na lista de melhores filmes de 2025. Mas, afinal, por que um projeto tão arriscado assim conquistou críticos e cinéfilos?

“Pareciam estar reunidos todos os ingredientes para um desastre fenomenal, não é?”, reconhece, bem-humorado, o cineasta Pedro Pinho, em entrevista ao Estado de Minas.

“Uma coisa que venho buscando há algum tempo nos meus filmes de ficção é a relação entre o descontrole e o controle. É muito venturoso trabalhar essa possibilidade, a vertigem do descontrole. Mas, claro, temos uma série de redes para realizar nossas acrobacias com a certeza de que não vamos cair no chão”, afirma.

Ao longo de três horas e meia, Pinho apresenta um complexo universo ambientado na Guiné-Bissau. É a partir desse território que o filme constrói um olhar singular sobre o mundo contemporâneo, abordando questões como imigração, racismo, sexualidade, exploração econômica, desigualdade social e os desejos mais íntimos dos seres humanos.

O cineasta Pedro Pinho olha para a câmera ao posar para fotos no Festival de Cannes
O cineasta Pedro Pinho no Festival de Cannes, em 2025. Ele diz que os protagonistas de 'O riso e a faca' são 'três meteoritos que se cruzam num espaço qualquer e depois seguem seu caminho' Bertrand Guay/AFP

Na trama, o engenheiro português Sérgio (Sérgio Coragem) chega ao país africano a serviço de uma ONG para avaliar o impacto ambiental da construção de uma estrada. Sua condição de homem branco europeu em posição de poder cria tensões, sobretudo quando ele se aproxima do brasileiro Gui (Jonathan Guilherme) e da cabo-verdiana Diára (Cleo Diára).

Estrangeiro absoluto

Sérgio se sente estrangeiro absoluto naquele contexto que desconhece. Ocupa lugar de indefinição que se reflete, inclusive, em sua sexualidade fluida. Não se percebe como superior, embora revele traços de arrogância e, por vezes, atitudes moralistas, até violentas. Ainda assim, é frequentemente acolhido pelo afeto dos personagens negros, como alguém confrontado por uma história que o antecede e da qual não pode se dissociar.

Diára, por sua vez, é independente e responsável pelo sustento da família. A força desta mulher impacta profundamente Sérgio. Gui, imigrante brasileiro, também se aproxima dele. Ao buscar suas origens, enfrenta o paradoxo de ser visto pela população local como “mais branco do que negro”, enquanto lida com os próprios conflitos em torno da sexualidade diante do ambiente novo e desconhecido.

“Os três personagens são como três meteoritos que se cruzam num espaço qualquer e depois seguem seu caminho”, afirma o diretor. “Mas existe outra questão no filme que as pessoas, às vezes, não conseguem perceber: a questão linguística”, afirma.

Usando vestido, ator brasileiro Jonathan Guilherme está deitado sobre parapeito e posa para os fotógrafos no Festival de Cannes, em 2025
O ator brasileiro Jonathan Guilherme posa antes da sessão de 'O riso e a faca' no Festival de Cannes, em maio de 2025 Bertrand Guay/AFP

“Aquelas três pessoas falam a mesma língua, mas são personagens deslocadas de maneiras muito diferentes. O Sérgio é o engenheiro ambiental português que vai para um lugar que não conhece e se depara com uma espécie de olhar sobre si mesmo, que reflete o lugar que já existia antes de ele ter chegado. A Diára vem de família mista de cabo-verdianos e guineenses. Ela entende o criolo e fala o dialeto que mistura o criolo de dois países que, até há pouco tempo, eram um só. E o Gui traz o português do Brasil”, destaca o diretor.

Antítese

“O riso e a faca” se apresenta como antítese das fórmulas que passaram a dominar o cinema industrial. “Não queremos oferecer o ‘pão e circo’ amplamente consumido hoje”, afirma a produtora brasileira Tatiana Leite.

“Por mais que seja um filme com duração de três horas e meia e milhares de questões, ele faz isso com inventividade cinematográfica que leva as pessoas a ficarem completamente capturadas. Isso é o mais interessante, pois traz algo completamente diferencial, e, ao mesmo tempo, traz o cinema na sua essência mais pura e absoluta”, destaca a produtora.

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“O RISO E A FACA”

Brasil/Portugal/França/Romênia, 2025, 211 min. De Pedro Pinho. Com Sérgio Coragem, Cleo Diára e Jonathan Guilherme. Em cartaz na sala 2 do UNA Cine Belas Artes, às 20h20. Classificação: 16 anos

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