Tiradentes foi condenado à morte por traição à Coroa Portuguesa, devido a seu envolvimento com a Inconfidência Mineira. A execução só se concretizou após uma segunda traição: a delação de Joaquim Silvério dos Reis. Registros históricos indicam que, logo após a denúncia, os dois tiveram um encontro, mas não há clareza sobre o que foi dito ali.
O espetáculo “A traição de Tiradentes”, que terá apresentações desta quinta-feira (23/4) a sábado (25/4), no Teatro da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, propõe uma versão desse encontro. A montagem da Orquestra 415, com participação do Coro 415 e da Cia 415 de Teatro, tem texto, direção e regência assinados pelo maestro André Salles-Coelho.
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A companhia mineira já apresentou 15 espetáculos cênico-musicais. O formato, segundo o maestro, amplia o alcance de público. “Depois de um certo tempo, a gente descobriu que espetáculos cênico-musicais chamam muito mais a atenção e são interessantes para todo mundo: para o público, para a gente e para os atores”, diz.
Com trajetória consolidada, é a primeira vez que a Orquestra 415 monta um espetáculo ligado a temas mineiros. O interesse de André Salles-Coelho pelo episódio envolvendo Tiradentes e Silvério dos Reis vem de longa data, desde a leitura de “A devassa da Devassa”, livro do historiador Kenneth Maxwell.
“Fiquei com aquele encontro na cabeça. Ficava pensando o que eles poderiam ter conversado naquele momento em que a atitude do Silvério dos Reis, indiretamente, causou a morte do Tiradentes”, pontua o maestro.
Salles-Coelho decidiu investigar mais profundamente o episódio. Leu “O Tiradentes: Uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier”, livro de Lucas Figueiredo que consolidou sua pesquisa. No palco, a história ganha contornos ficcionais, ainda que ancorados em registros históricos.
Gustavo Marquezini interpreta Tiradentes, Marco Túlio Zerlotini vive Joaquim Silvério dos Reis e Luciano Luppi atua como narrador. Parte dos diálogos foi inspirada nos “Autos da Devassa”, conjunto de documentos organizados durante a investigação da Inconfidência.
“Algumas informações são retiradas dos registros históricos, mas houve licença poética. Comecei a imaginar o que eles poderiam ter falado”, explica o diretor, que também incorporou poemas dos inconfidentes Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto à dramaturgia.
Lobo de Mesquita
A música que estrutura o espetáculo vem de “Te Deum”, obra do compositor mineiro Lobo de Mesquita, contemporâneo de Tiradentes. Composta por 16 movimentos, a peça é mesclada às cenas.
“A gente sempre intercala uma parte cênica e um movimento. Cada qual tem sequência própria. Não tivemos como mexer muito na música para os movimentos acompanharem exatamente o sentimento de cada cena. Mas, curiosamente, parece que tudo se encaixa muito bem”, observa Salles-Coelho.
A escolha da obra também tem sua própria história. Durante a finalização do texto, o maestro passou a ouvir o repertório colonial mineiro em busca da composição que dialogasse com a encenação. Foi quando encontrou “Te Deum”, inicialmente sem obter informações detalhadas sobre partitura e circulação.
“Existe uma gravação no YouTube e fiquei apaixonado logo que a ouvi. Foi feita na década de 1970, pelo maestro José de Lima Siqueira. Ele morreu na década seguinte, praticamente ninguém sabia dessa gravação. Conversei com vários maestros e musicólogos do Brasil inteiro, ninguém tinha informação”, revela.
O processo de recuperação da partitura foi longo. Depois de tentativas com diferentes fontes, incluindo contato com a família de José de Lima Siqueira, a localização só foi possível com a ajuda do maestro Márcio Miranda Pontes, que indicou o acervo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.
Lá, o material foi encontrado em bom estado de conservação e trazido a Belo Horizonte para a nova edição. Tanto a partitura quanto o texto em latim, com tradução, estão disponíveis no site da Orquestra 415.
Acesso complicado
O regente destaca a dificuldade de acesso a obras de autores mineiros. “Todos os nossos outros espetáculos foram sobre compositores europeus. Já fizemos Vivaldi, Bach e vamos fazer Mozart. Esse repertório é muito mais acessível”, comenta.
Segundo ele, “Te Deum” teve poucas execuções conhecidas. “Até onde sei, houve a gravação na década de 1970 e outra, na década de 1980, na Venezuela, com a maestrina Isabel Palácios. Depois disso, nunca mais. Há muito tempo esta peça não é montada no Brasil”, destaca o maestro
“A TRAIÇÃO DE TIRADENTES”
Espetáculo cênico-musical com Orquestra 415, Coro 415 e Cia 415 de Teatro. Direção e regência: André Salles-Coelho. Desta quinta-feira (23/4) a sábado (25/4), às 20h, no Teatro da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais (Praça da Liberdade, 21, Funcionários). Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia), à venda no site www.luanovacultural.com.
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* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria
