De 'traidor' a herói nacional: Como a figura de Tiradentes foi construída pela República
Entenda como a proclamação da República transformou a imagem do inconfidente; uma estratégia para criar um mártir e unir o país em torno de um ideal
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Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é uma das figuras mais emblemáticas da história do Brasil. Conhecido como mártir da Inconfidência Mineira, sua imagem de herói nacional com barba e cabelos longos, semelhante a Jesus Cristo, está gravada no imaginário popular. No entanto, essa representação heroica é, em grande parte, uma construção política cuidadosamente elaborada após a Proclamação da República, em 1889.
Mas como um homem considerado traidor pela Coroa Portuguesa se tornou o principal símbolo cívico do país? A resposta está na necessidade do novo regime republicano de criar seus próprios heróis e mitos fundadores, dissociando-se do passado monárquico.
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Durante décadas após sua execução em 21 de abril de 1792, a memória de Tiradentes foi associada à traição contra a Coroa. Embora essa visão tenha predominado por muito tempo, sinais de uma reabilitação começaram a surgir ainda durante o Império, como a inauguração de um monumento em sua homenagem em Ouro Preto, em 1867. No entanto, foi somente com a Proclamação da República que sua figura foi resgatada e elevada ao status de herói nacional, em um esforço deliberado para consolidar os novos ideais republicanos.
O mártir necessário
Para construir o mito, era preciso um mártir, e Tiradentes se encaixava perfeitamente. É importante notar que ele não foi o único condenado à morte pela Inconfidência. Diversos outros inconfidentes receberam a mesma sentença, mas a rainha Maria I comutou a pena da maioria para o degredo perpétuo. Tiradentes foi o único efetivamente executado porque assumiu total responsabilidade pelo movimento e teve sua sentença mantida devido a circunstâncias agravantes, tornando-o o sacrifício ideal para a causa republicana.
A construção da imagem do herói não foi apenas narrativa, mas também visual. Os republicanos promoveram uma iconografia que associava Tiradentes a Jesus Cristo. Pinturas como "Tiradentes Esquartejado" (1893), de Pedro Américo, o retratam com barba e cabelos longos, vestindo uma túnica branca, uma clara alusão à figura de Cristo. Essa representação, historicamente imprecisa, foi fundamental para criar uma conexão emocional e popular com o novo herói.
Símbolo oficial
A consolidação de Tiradentes como herói nacional foi oficializada ao longo do tempo. A data de sua execução, 21 de abril, foi transformada em feriado nacional por meio da Lei nº 4.897, sancionada em 9 de dezembro de 1965, durante o governo do presidente Castelo Branco. A mesma lei também o proclamou oficialmente "Patrono da Nação Brasileira", cimentando seu lugar no panteão dos heróis do país.
A história da transformação de Tiradentes de traidor a herói é um exemplo poderoso de como a história pode ser reescrita para servir a propósitos políticos. Ao criar um mártir que lutou por ideais de liberdade contra a opressão, a República encontrou um símbolo forte para unir a nação e legitimar seu próprio poder.
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