Com mais de 30 anos de trajetória, o Teatro Negro e Atitude retoma uma das peças de seu repertório, “Àbíkú”, que estreou em 2011, que terá sessão gratuita às 20h desta sexta-feira (17/4), no Teatro Espanca! Com direção e dramaturgia de Evandro Nunes, a peça é livremente inspirada nas canções “Gênesis” e “Tiro de misericórdia”, de Aldir Blanc e João Bosco, e “Meu guri”, de Chico Buarque.


O espetáculo, estrelado por Sabrina Dourado, Luscas Gonçalves e Leo Campos, transporta o mito africano Àbíkú – das crianças espirituais destinadas a morrer cedo e nascer repetidamente no mesmo ventre – para a realidade brasileira, contrapondo a ideia de “destino”, presente na tradição mítica iorubá, à noção de “causalidade” imposta pelas condições sociais em que os personagens estão inseridos. “Estávamos querendo falar do genocídio da juventude negra”, destaca Nunes.


Ele observa que a morte do Àbíkú, em ciclos de 1, 3, 7, 13, 21 e 33 anos, não é aleatória – ela vem para trazer transformação. O diretor e dramaturgo conta que as músicas vieram a reboque da pesquisa sobre o mito. “As letras são só inspiração. 'Tiro de misericórdia', por exemplo, fala desse lugar, desse menino que ‘cresceu entre a ronda e cana / correndo nos becos que nem ratazana’, e que morre com 13 tiros de misericórdia. O texto foi construído colaborativamente a partir do mito e das músicas, que são apenas um mote. A peça não é uma representação delas”, destaca.


Situação real

Nunes ressalta que “Àbíkú” contrasta o mito e as músicas. Ele questiona se os meninos negros na sociedade brasileira são Àbíkús ou vítimas do desmazelo e do desamparo de um Estado impregnado pelo racismo estutural.


A montagem, conforme aponta, se estrutura a partir de uma situação específica: o assassinato, pela polícia, de André, uma figura real, primo de um dos integrantes do Teatro Negro e Atitude, morador do bairro Minascaixa. “Ele foi vítima desse tribunal que decreta a pena de morte sem julgamento”, diz.

Na medida em que toma um fato verídico como base da representação, ele acredita que o espetáculo reflete o noticiário acerca de fatos cotidianos ocorridos nas periferias do país. “Se o André tivesse outras possibilidades, se tivesse outros acessos, outra cor de pele, ele seria morto ainda jovem? O André da nossa peça é um menino que sonha em conquistar o mundo, mas é, a todo momento, açoitado pela sociedade e pelo estado, por meio de suas instituições. Tudo isso é o que interrompe esse sonho”, afirma.


O diretor pontua, a propósito, que “Àbíkú” ganhou uma nova montagem, com algumas mudanças determinantes. A principal delas é que, na primeira, que estreou no início da década passada, o enredo estava mais atrelado à canção “Meu guri” e deixava no ar se o protagonista tinha ou não envolvimento com a criminalidade.


Na remontagem, proposta em 2023, essa dúvida é suprimida. “Queremos trazer outro olhar. Esse menino é sonhador, filho de uma família carinhosa, sem vestígio de envolvimento com o crime”, diz Nunes.


Pioneirismo do grupo

Revisando a história do Teatro Negro e Atitude, fundado em 1994, ele destaca o pioneirismo do grupo e avalia que aconteceram mudanças significativas no panorama das artes cênicas no Brasil desde então.


“Somos o terceiro grupo de teatro negro mais antigo em atividade no país e éramos, até então, o único grupo de teatro negro em Belo Horizonte. Posso dizer que estávamos muito solitários e que hoje existe uma teatralidade negra na cena, como um todo. Acho que essa é uma grande mudança”, avalia.


O Teatro Negro e Atitude acompanhou todas essas mudanças ao longo de três décadas. “O número de atores negros, de produções capitaneadas por profissionais negros e o desejo de trazer e discutir a arte negra estão consideravelmente ampliados hoje”, diz.


“Nossa companhia esteve envolvida em todas essas mudanças, tendo participado não só dos movimentos de teatro de grupo, mas de todas as conferências de cultura realizadas em torno do tema. Estivemos próximos e fizemos parte dessas mudanças.”

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"ÀBÍKÚ"
Espetáculo do Teatro Negro e Atitude, nesta sexta-feira (17/4), às 20h, no Teatro Espanca! (Rua Aarão Reis, 542, Centro). Entrada franca.

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