A mera junção dos termos política, Toni Servillo e Paolo Sorrentino, como acontece em “A graça”, pode causar uma corrente fria percorrendo nossa espinha, preparando-nos para o pior dos cenários cinematográficos.
É o diretor e o ator que cometeram “Loro” (2018), em que Servillo interpreta Silvio Berlusconi. Trata-se de um longa tão ruim que nos faz pensar em desistir de acompanhar o diretor. Sentimento que retorna porque seu filme anterior, “Parthenope” (2024), parece entender que cinema é comercial de bebida alcoólica.
Sorrentino, aliás, parecia mesmo o diretor de um único filme que presta: “A mão de Deus”, de 2021. Podemos até dar uma colher de chá e dizer um filme e meio, já que “Il divo” (2008), obra que o revelou, tem lá seus acertos.
Leia Mais
Durante um tempo, “A graça”, filme mais recente da dupla, parece caminhar em chão mais assentado. A câmera predominantemente fixa emoldura o palácio do governo de modo a valorizar o espaço cênico e a arquitetura do local.
Acompanhamos o presidente fictício da Itália, Mariano De Santis, vivido por Servillo, em fim de mandato, cheio de problemas inerentes ao posto e ainda atormentado pela solidão e pela dor da perda de sua esposa Aurora.
Ele gosta de rap e música eletrônica, tem amiga crítica de arte que pretende botar fogo nos museus, se confessa com o papa, um preto. A sociedade que enfrenta é mais inclusiva, mas continua com seus vícios e suas armadilhas, como a polêmica em torno da eutanásia.
Eis que, na visita do presidente de Portugal, personagem tratado como caricatura da terceira idade, uma caminhada se dá em câmera muito lenta, sob intensa chuva, com o encarregado da recepção tendo problemas com o guarda-chuva. Um desastre.
Sorrentinices
Música eletrônica agressiva acompanha boa parte do constrangimento entre chefes de Estado, até que o silêncio se impõe e vamos para o telhado do palácio, onde o presidente Mariano de Santis, papel de Servillo, fuma um cigarro. Aquela cena não tem maior consequência na trama a não ser a exposição ao ridículo de um presidente.
Eis a primeira sorrentinice do filme, insuficiente, ainda, para abalar suas estruturas. Sorrentino parece ter dosado essas viagens para não desagradar demais os espectadores predispostos a negar seu trabalho de antemão.
Em alguns momentos, a ousadia da direção é recompensada. Logo após um grupo de convidados entoar, junto do presidente, o “Valore Alpino”, hino em louvor à infantaria que defende as fronteiras nos Alpes, a câmera se movimenta para cima, passando por trás de uma bandeira com as cores da Itália.
Em seguida, estamos novamente no telhado, local adorado pelo presidente, num tipo de enquadramento inicial que deixa negra toda a metade de baixo da tela. Conforme sua caminhada, essa metade dá lugar à inscrição “Daqui não se passa”, que logo ocupa toda a tela.
É um efeito interessante, de um maneirismo bem-sucedido como nem sempre acontece com o cineasta. Temos um efeito interessante com a escuridão e a interdição à espreita, o que reflete o instante de indecisão pelo qual passa o protagonista e os perigos que rondam o governo italiano.
Um dos grandes momentos do filme, talvez o maior, é o encontro entre o presidente e o professor de história Cristiano Arpa, personagem de Vasco Mirandola.
Arpa é condenado pelo assassinato da esposa por eutanásia, ainda não permitida na Itália. Sua comunidade pede indulto. O presidente ouve que ele tinha amante e começa a fantasiar que poderia ser ele o amante de sua esposa, cuja identidade ele nunca descobriu.
Sorrentino e Bellocchio
A cena no presídio é um duelo de inteligências, único momento em que Sorrentino pode dizer que chegou perto de Marco Bellocchio, ainda que o diretor de “O sequestro do papa” certamente teria dominado a cena de modo muito mais convincente, já que a diferença entre os dois cineastas é grande demais para ser medida.
Mas é verdade também que Sorrentino, quando controla seus impulsos, consegue realizar um filme bem razoável. Há diretores que se jogam no maneirismo e normalmente se dão muito bem: Brian De Palma, Raoul Ruiz, Dario Argento. No cinema atual, isso tende a ser raro, por algum motivo que escapa à dedução.
Com “A graça”, talvez o diretor tenha conseguido realizar seu segundo bom filme. Algo que o tempo pode confirmar. (Sérgio Alpendre/Folhapress)
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
“A GRAÇA”
Itália, 2025, 133min. De Paolo Sorrentino, com Toni Servillo, Anna Ferzetti e Orlando Cinque. Em cartaz na Sala 3 do UNA Belas Artes, às 18h10, e na Sala 1 do Centro Cultural Unimed-BH Minas, às 18h.
