Ator retoma premiado solo sobre amor e crueldade, 10 anos depois da estreia
'Cachorro enterrado vivo', monólogo em que Leonardo Fernandes faz três papéis, incluindo o do cão, terá sessão única neste domingo (3/5), em BH
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No primeiro ensaio para a remontagem de “Cachorro enterrado vivo”, o ator Leonardo Fernandes sentiu um cansaço que não existia em 2016, quando saiu em turnê com o primeiro solo da carreira. O trabalho lhe rendeu convites para o cinema e para o streaming, além do Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de melhor ator.
Ao comentar o desconforto com a preparadora corporal, Eliatrice Gischewski, ouviu uma resposta direta: “Léo, você tinha 28 anos quando fez essa peça pela última vez. Agora você tem 38. Seu corpo não é mais o mesmo”.
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As mudanças, no entanto, não são apenas físicas. Uma década depois, o ator retorna mais maduro – profissional e pessoalmente – para encarar os três personagens do monólogo, que exigem não só rigor corporal, mas também alta densidade psicológica. “Cachorro enterrado vivo” terá sessão única em BH neste domingo (3/5), às 19h, no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas. Os ingressos estão à venda no Sympla.
Com dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho e direção de Marcelo do Vale, o espetáculo se constrói sobre uma premissa simples e brutal para, a partir daí, mergulhar em temas como perda, solidão e violência. Em cena, um homem manda enterrar o próprio cachorro, ainda vivo, depois de ser abandonado pela parceira. O animal, afinal, representava o elo entre o casal.
Leonardo se alterna entre três vozes – a do dono, a do homem contratado para executar o crime e a do próprio animal. “A força do espetáculo está na simplicidade. É o teatro no seu estado mais essencial”, afirma o ator.
“Mas não é porque é simples que deixa de ser sofisticado”, pondera. A encenação aposta em poucos elementos e na transformação visível do corpo do intérprete, sem lançar mão de grandes recursos externos. Tudo acontece diante do público.
Se o corpo hoje responde de maneira diferente, é justamente o acúmulo de experiências que aprofunda o trabalho nessa nova etapa. “São personagens marcados pela dor. Uma dor amorosa, de perda, de solidão. E isso só fica mais profundo com o tempo. Quanto mais dias passam, mais você vai sendo atingido pelas dores inevitáveis da vida. E isso serve muito ao espetáculo. Os personagens ficaram mais pesados”, explica.
Para acessar essa carga emocional, o ator recorreu a estímulos externos. Buscou depoimentos de pessoas que perderam alguém, como forma de não esquecer que os sentimentos em cena são reais e capazes de gerar empatia e identificação.
O impacto no público, aliás, foi uma das marcas da montagem. Em uma apresentação de 2016, uma espectadora chorou durante toda a sessão. “Ela não estava vendo uma peça, estava vivendo alguma coisa semelhante ao que acontecia ali no palco”, diz o ator.
Baseado em fatos
Baseado em uma notícia real, o texto de Daniela Pereira de Carvalho provocou reações já no título, à época da estreia. Houve tentativas de impedir a apresentação por parte de pessoas que interpretaram a proposta de forma literal. Depois, ao assistirem ao espetáculo, compreenderam que não se tratava de maus-tratos aos animais.
Mais do que narrar um episódio extremo, a dramaturgia se interessa pelo que ele revela em camadas mais profundas. O desfecho da história do cachorro pouco importa no contexto da peça. “A gente está falando da raça humana e da crueldade”, diz Leonardo. “A crueldade existe, e a gente precisa olhar para ela, não virar as costas. Não por acaso, a peça é frequentemente associada à ideia de um limite ético. Muitas críticas falaram disso, do limite da crueldade humana, do animal no homem”, acrescenta.
Apesar do reconhecimento e do desejo do público por novas apresentações, o retorno acontece em formato reduzido. A sessão única reflete também as condições de produção. Leonardo, que também trabalha como diretor de teatro, vem de uma sequência de trabalhos independentes, bancados pela bilheteria de cada montagem.
Ainda assim, a remontagem reafirma a força de um trabalho que resiste ao tempo e que, talvez justamente por isso, se torne mais potente. “As coisas não desaparecem. Elas ficam adormecidas, você só precisa acordá-las”, diz.
CACHORRO ENTERRADO VIVO
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Texto: Daniela Pereira de Carvalho. Direção: Marcelo do Vale. Com Leonardo Fernandes. No domingo (3/5), às 19h, no teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Ingressos à venda por R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia), na bilheteria do teatro ou no Sympla. Informações: (31) 3516-1360.