Hyldon faz show e comemora seus 75 anos em Belo Horizonte
Pioneiro do soul faz aniversário sexta (17/4), com sessão de 'As dores do mundo'. Quinta (16/4), ele canta com Adrian Younge e Carlos Dafé no Unimed-BH Minas
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Hyldon tinha não mais de 8 anos quando apareceu com um furúnculo no dedo indicador. No Hospital Antônio Pedro, em Niterói, ouviu do ortopedista que a solução seria amputação. Dona Ildonete não pensou duas vezes: saiu de fininho. Seguindo orientação de amigos, levou o garoto até a Policlínica de Botafogo. Por garantia, pediu ao Senhor do Bonfim que se o filho não perdesse o dedo, iria com ele até Salvador cumprir a promessa na igreja.
“Minha música não ia ser a mesma, os bordões (cordas mais grossas do violão, que permitem as notas graves) são a minha especialidade”, comenta ele hoje, lembrando com graça a história de quase sete décadas atrás.
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Nesta semana, Hyldon está em Belo Horizonte por mais de uma razão. Na quinta (16/4), ele participa do show de abertura da Semana Jazz Is Dead. No Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas, concerto vai reunir o compositor, produtor e multi-instrumentista americano Adrian Younge, sua banda, Hyldon e Carlos Dafé. Na sexta (17/4), dia em que comemora 75 anos, o baiano criado no Rio de Janeiro participa da sessão comentada do documentário “As dores do mundo: Hyldon”.
Dirigido por Emilio Domingos e Felipe Rodrigues, o filme abre a programação de longas que celebram a cultura negra, em especial a música. Até a próxima quarta (22/4), o cinema do centro cultural vai exibir títulos, novos e antigos, que tratam de temas caros ao Jazz Is Dead, selo e gravadora de Los Angeles fundado por Younge e Ali Shaheed Muhammad, DJ, produtor e músico integrante do grupo A Tribe Called Quest.
Jazz is Dead no Brasil
Por meio de gravações analógicas, o Jazz Is Dead tem lançado novos discos de mestres da música, muitos deles sampleados pelas novas gerações. Vários brasileiros gravaram lá: além de Hyldon e Dafé, Azymuth, João Donato, Marcos Valle e Joyce Moreno.
“Todo mundo conhece as canções do Hyldon, mas não entende quão grande ele é. Tem muita gente que nem sabe quem é Carlos Dafé, que tem uma voz linda e única”, afirmou Younge a esta repórter em 2024.
Foi ele quem entrou em contato com Hyldon. “Iam produzir um show em Los Angeles com o Marcos Valle e o Azymuth e queriam me levar. Foram muito profissionais, vieram ao Brasil para fazer um olho no olho. Conversamos e fechamos a minha ida para dois shows”, relembra. Acabaram sendo quatro. “Como fiquei uma semana para ensaiar, descobri que o Adrian era meu fã, tinha meus discos.”
Logo veio o convite para que Hyldon fizesse álbum com o Jazz Is Dead. No estúdio todo analógico, Younge gravou as bases com Ivan Conti, o Mamão, baterista do Azymuth morto em abril de 2023.
“Tive que criar melodia e letra em cima do que ele tinha feito com o Mamão. Quando mandei, ele ficou maluco com o resultado. Quinze dias depois, estava no Brasil com as fitas de duas polegadas, e a gente gravou no estúdio Marini, do Kassin, voz e vocais. O som é meio lisérgico e fiquei muito feliz, além do mais com as letras em português”, relembra Hyldon.
O álbum “Hyldon Jazz Is Dead 23” traz oito faixas. Até a apresentação desta semana, só houve um show em São Paulo, no ano passado. “O Adrian gosta muito de ‘Olhos castanhos’ (faixa do disco que fizeram juntos). Devo fazer mais umas duas ou três do meu repertório, pois não tem como não tocar ‘Na rua, na chuva, na fazenda’”.
Monalisa mineira
Maior sucesso do soulman brasileiro, esta canção romântica dá título a seu álbum de estreia, que em 2025 completou 50 anos. A efeméride também gerou o documentário “As dores do mundo”, lançado em junho passado no festival In-Edit Brasil. No filme, Hyldon perpassa sua história como integrante da primeira geração do soul brasileiro ao lado de Cassiano (1943-2021), Tim Maia (1942-1998) e Tony Tornado.
A canção que o acompanha até hoje nasceu por causa da juiz-forana Gioconda, Hyldon conta. “Nos conhecemos na Ilha Madre de Deus, na Bahia. Ficamos amigos lá por 1968, 1969. O pai dela era dono de um hotel na Rua Halfeld (coração de Juiz de Fora) e a gente ficou se correspondendo. Eram horas no telefone. Uns dois anos depois, aluguei com uns amigos uma casa na praia de Itaipava, no Espírito Santo. Em frente tinha um coreto cheio de sapê por cima. Choveu muito nesse carnaval, e os meus amigos ficavam pegando no meu pé para ir para o baile. Eu estava apaixonadão e ela tinha ido para a fazenda com os pais.”
Tempos depois, Hyldon já morava em Ipanema. Certo dia, ao violão, a música “Na rua, na chuva, na fazenda” veio toda de uma vez. E a Gioconda?
“Nossos caminhos se separaram, a gente não se viu mais”, conta Hyldon. Mas a Monalisa de Juiz de Fora acabou encontrada. Gioconda é uma das personagens do documentário “As dores do mundo”.
JAZZ IS DEAD
Adrian Younge convida Hyldon e Carlos Dafé. Show nesta quinta-feira (16/4), às 20h, no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Ingressos de R$ 63,75 a R$ 150, à venda na bilheteria e na plataforma Sympla.
MOSTRA DE CINEMA
. Sexta (17/4)
19h30: “As dores do mundo: Hyldon” (2025). Sessão comentada com Hyldon e os diretores Emilio Domingos e Felipe Rodrigues
. Sábado (18/4)
16h: “Black Dynamite” (2009), de Scott Sanders. Sessão comentada com Adrian Younge, Loren Oden e Gabriel Martins
. Domingo (19/4)
16h: “Boyz'n the Hood” (1991), de John Singleton
. Segunda (20/4)
18h: “O matador de ovelhas” (1978), de Charles Burnett
. Terça (21/4)
18h: “Our vinyl weights a ton: This is Stones Throw Records” (2013), de Jeff Broadway
. Quarta (22/4)
18h: “Rockers” (1978), de Ted Bafaloukos
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No Centro Cultural Unimed-BH Minas, com entrada franca. Ingressos devem ser retirados na bilheteria uma hora antes de cada sessão