Livro que revela a cartografia da tragédia de Brumadinho é lançado em BH
Fotos de Leonardo Finotti e textos de Milton Hatoum destacam lágrimas, fendas e percursos do memorial dedicado às 272 vítimas do desastre na barragem da Vale
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Quando o arquiteto Gustavo Penna soube do rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, em janeiro de 2019, sentiu vergonha de ser mineiro. “Foi muito triste”, afirma. “Senti vergonha ao ver nossas montanhas palco de uma tragédia como aquela. A fenda na parede gramada da barragem ficou impregnada na minha memória.”
Este sentimento se reverteu, em parte, com a aprovação do projeto arquitetônico do Memorial Brumadinho por familiares das 272 vítimas, em 2020. “Traduzir a tragédia em arquitetura foi um processo de escuta. Palavras lidas em jornal, ouvidas em entrevistas na televisão, em conversas com bombeiros e com a comunidade… Tudo aquilo foi se sedimentando no nosso coração e na nossa sensibilidade. Com esse material, construímos o projeto”, destaca.
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O Memorial Brumadinho foi inaugurado em 25 de janeiro de 2025, no sexto aniversário do desastre. Recebeu cerca de 25 mil visitantes – turistas, estudantes, pesquisadores, público escolar e caravanas de funcionários de mineradoras, levados ao local pela própria empresa na qual trabalham. O propósito é a conscientização sobre o impacto de decisões tomadas por quem ocupa postos de chefia.
Erguido majoritariamente em concreto no local onde ocorreu a tragédia, o memorial tem suas principais características registradas no livro “Brumadinho: Espaços e tempos da memória” (Editora Unesp), com fotos de Leonardo Finotti e textos de Milton Hatoum, cujo lançamento ocorrerá neste sábado (11/4), às 11h, na Livraria da Rua. Hatoum e Gustavo Penna estarão presentes.
Dividido em duas partes, a primeira com fotografias de Finotti e a outra com textos de Hatoum, o livro serve como uma espécie de visita guiada ao memorial. A entrada é caracterizada por diversas fendas na fachada recortada, que permitem acesso a seu interior. O concreto utiliza pigmento da lama que jorrou da barragem após o rompimento. O resultado é a matéria terrosa, de tom escurecido. O volume do edifício foi projetado para dar ideia de fragmentação, representando algo que foi rompido de maneira brutal.
Ao atravessar as fendas de entrada, o visitante chega ao ambiente iluminado por pequenas aberturas no teto. Passa pelo salão e o espaço meditativo propositalmente escurecido, sugerindo “noite longa” ou “amanhecer tardio”. Depois, segue pela passagem de 230 metros que corta o terreno como se fosse outra fenda. Chega ao Espaço Memória, no qual se depara com fotografias, nomes e objetos pessoais das vítimas. Depois, segue pelo Espaço Testemunho, onde monitores chamados contadores de tempo mostram o instante da ruptura.
“O visitante é envolvido por monitores que mostram, de três pontos de vista, o instante da ruptura”, escreve Hatoum. Eles são “a parede de rejeitos que cede, o avanço da lama pela mina e a demolição vista por trás. A partir desse núcleo, a sala se desdobra em percursos que compõem a cartografia do acontecido: a história do município e da mineração na região; os números que sintetizam a tragédia; mapas interativos com estruturas da mina, imagens de antes e depois, o traçado dos rejeitos pelo Paraopeba e a planta do próprio memorial”.
“Há um espaço dedicado aos que buscaram sem descanso”, continua Hatoum. “Cenas do resgate, falas dos bombeiros, vitrines com objetos de trabalho e a bandeira do Brasil manchada de lama, símbolo do país atravessado pela vergonha e pela dor”, relata.
Choro das águas
O único elemento vertical é o Monumento às Lágrimas. A escultura de 11 metros de altura tem formato de cabeça, com águas vertendo dos olhos e escorrendo como rios. Próximo a ele ficam o mirante suspenso, de onde é possível ver o local exato do rompimento da barragem, e o jardim onde foram plantados 272 ipês-amarelos, representando a promessa de reflorescimento da vida.
“A ideia tanto do livro quanto do memorial é reforçar a consciência do valor da vida”, diz Fabíola Moulin, diretora-presidente da Fundação Memorial Brumadinho, organização privada e sem fins lucrativos criada para cuidar do espaço.
Guardião do luto
A ideia partiu da fundação. “O livro amplia a possibilidade de fruição do memorial, compreendendo sua função. Olhar para ele é como se estivéssemos percorrendo esse espaço que procura contar a história do que aconteceu a partir da perspectiva das vítimas”, ressalta.
Mais do que espaço expositivo, o memorial assume a função permanente de luto. Desde 2024, o espaço é reconhecido por lei municipal como local de salvaguarda dos segmentos corporais das vítimas da tragédia. Ou seja, guarda, preserva e protege restos mortais das vítimas que eventualmente sejam encontrados, sobretudo fragmentos que não puderam ser identificados e jazem ao lado dos ipês-amarelos.
“BRUMADINHO: ESPAÇOS E TEMPOS DA MEMÓRIA”
• Fotos de Leonardo Finotti
• Textos de Milton Hatoum
• Editora Unesp
• 242 páginas
• R$ 160
• Lançamento neste sábado (11/4), a partir das 11h, na Livraria da Rua (Rua Antônio de Albuquerque, 913, Savassi).
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MEMORIAL BRUMADINHO
Rua Hum, 100, Córrego do Feijão, Brumadinho. De quarta a sexta, das 9h30 às 16h30; sábado, domingo e feriado, das 9h30 às 17h30. Entrada franca, ingressos disponíveis no site da instituição.