‘Os outros’ volta com novo cenário e escalada de tensão
Na terceira temporada da série estrelada por Adriana Esteves, a natureza é a paisagem onde os conflitos afloram; produção chega nesta quinta (9/4) ao Globoplay
O elenco da terceira temporada une a protagonista das temporadas anteriores, Adriana Esteves, com atores como Bruno Garcia (ao fundo) e a mineira Docy Moreira (E) crédito: Julia Mataruna/Globoplay/Divulgação
Deixar os ruídos da cidade para trás e reiniciar a vida em um lugar mais silencioso. Com motivações bem distintas, o desejo de recomeço une e move os personagens de Adriana Esteves e Lázaro Ramos, protagonistas da terceira temporada de “Os outros”. Mas a vastidão não amortece os embates entre vizinhos, marca registrada da série. Há ressentimentos, ameaças, feridas abertas, armas à mão, bichos à solta; tensão permanente. E o ambiente rural, por causa da natureza selvagem do ser humano, torna-se um campo minado.
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“Mudam a perspectiva e o cenário, mas a intolerância continua marcando as relações dos personagens”, conta o autor de “Os outros”, o roteirista Lucas Paraizo. “Nas duas primeiras temporadas foi trabalhada a ideia de o mundo em um condomínio. Quando a gente vai para a natureza, há uma expansão formal e estética, ampliando a tensão”, acredita a diretora, Luisa Lima. Quatro dos12episódios da temporada que fecha a ‘trilogia da intolerância’ estão disponíveis a partir desta quinta-feira (9/4) no Globoplay.
Protagonista das duas primeiras temporadas, Cibele (Adriana Esteves) volta com nova identidade e novo visual para escapar dos homens que quase mataram o seu filho, Marcinho (Antonio Haddad), reencontrado na temporada anterior. “Em última instância, ‘Os outros’ é sobre uma mãe que,para proteger seu filho, cruza limites e isso tem consequências. E a gente responde a essa pergunta no final da terceira temporada”, antecipa Lucas. “Cibele pega a estrada e acho que aí vem uma grande metáfora: a da estrada da vida”, complementa Luisa.
É numa estrada rural na Serra da Mantiqueira que, no final do primeiro episódio, os caminhos de Cibele e Marcinho se cruzam com o de Roberto (Lázaro Ramos), demitido de uma grande empresa após quase 30 anos e disposto a recomeçar a vida em uma casa no campo com a mulher, Marta (Mariana Lima). “A gente já parte, na largada, com dois personagens que estão buscando uma nova chance”, detalha a diretora.
A afinação do elenco é um dos destaques dos episódios assistidos pelo Estado de Minas. Dois nomes consagrados, Adriana Esteves (ainda a grande força dramática da série) e Lázaro Ramos (muito à vontade em papel que não desperta a empatia imediata do espectador) estão no mesmo tom dos intérpretes dos moradores locais: os caseiros Geraldo (Pedro Wagner) e Patrícia (Carol Duarte), e os vizinhos Diego (Adanilo) e sua mãe, Domingas. Esta última, inspirada na protagonista do romance “Sobre os ossos dos mortos” da polonesa Olga Tokarczuk, ganha interpretação marcante, desde o primeiro embate com Roberto por causa do atropelamento de um ganso (!), da veterana atriz mineira Docy Moreira. Como ocorreu com Eduardo Sterblitch, o miliciano Sérgio das duas primeiras temporadas, é a vez de Bruno Garcia sair da leveza da comédia para encarnar um tipo ambíguo e sombrio.
Outro destaque de “Os outros” é o esmero na elaboração de cada plano. Não há redundâncias nem enquadramentos previsíveis nas cenas externas gravadas em São Francisco Xavier, na região do Vale do Paraíba, e em Mauá, no Rio. A diretora assume influência da forma que cineastas como o russo Andrei Tarkovski e o norte-americano Terrence Malick filmaram a paisagem natural. “A gente tem muito o desejo de avanço formal, de experimentar. Ir para a natureza nos deu essa chance. Porque estamos falando da relação das pessoas com o ambiente exterior, mas também dos dilemas íntimos”, acredita Luisa.
Mas a natureza descortinada em “Os outros” não é contemplativa nem metafísica. A terceira temporada da série passa a reforçar o time das produções audiovisuais que transformam a calmaria do ambiente rural em campo de batalha. Enfrentamentos violentos em cenários bucólicos entre visitantes e moradores locais marcaram cultuadas produções dos anos 1970, a exemplo de “Sob o domínio do medo”, de Sam Peckinpah, e “Amargo pesadelo”, de John Boorman. Filmes europeus recentes como “As bestas” (2022), do espanhol Rodrigo Sorogoyen, sobre os conflitos entre um casal de franceses e a vizinhança num vilarejo na Galícia, são assumidos como referências pelos realizadores de “Os outros”, bem como a série brasileira “Onde nascem os fortes”, de George Moura e Sérgio Goldenberg. “A gente fala aqui de risco e desafio, mas dialoga com os códigos populares. Nós estamos fazendo televisão e streaming para a massa. A gente quer se comunicar com as pessoas”, destaca Lucas Paraizo.
Lucas Paraizo e Luisa Lima, autor e diretora de "Os outros": influências do cinema, da literatura e da própria televisão Globoplay/Divulgação
Conversa sobre intolerância
Se a comunicação foi atingida de forma quase unânime com a crítica e público na primeira temporada, ambientada em um condomínio de prédios, a segunda temporada, com as rixas entre moradores de casas de luxo, despertou reações divisivas. Os realizadores têm as suas interpretações para as diferentes acolhidas. “Na primeira temporada, a gente tinha uma característica de certa proximidade com o público com relação à ideia de que (os personagens) podem ser os vizinhos. Essa ameaça era muito latente. Na segunda temporada, eram pessoas mais ricas e muito religiosas, um outro braço onde a intolerância também impera, mas talvez as pessoas não se vejam tanto na segunda como na primeira. Mas foi uma escolha que fiz de levar a história para outros caminhos e no caminho da experimentação”, justifica o roteirista.
Luisa Lima atribui a reação menos entusiasmada à segunda temporada ao fato de alguns personagens não terem despertado tanta identificação. “Preciso ser muito honesta e dizer que, às vezes, eu ficava distante das motivações daqueles personagens. Para mim, era muito difícil entrar na pele de um miliciano ou de uma fanática religiosa”, reconhece. E a terceira temporada? “Vem muito ao encontro com a primeira: existe um fator de identificação gigante. Com as mutações, os dilemas e com o que aqueles personagens estão vivendo e os conflitos que estão atravessando”, garante a diretora.
Sem cravar o fim da série, Lucas Paraizo avalia o resultado obtido nas três temporadas. “Conseguimos conversar com a sociedade sobre intolerância”, acredita o roteirista. “Sou absolutamente feliz com essa trilogia. A gente conseguiu contemplar um grande reflexo social em muitas instâncias da sociedade: o medo no condomínio, a república das milícias e o fanatismo religioso, agora a sociedade no campo. Esses cenários, esses personagens, essas situações compõem o que, para mim, é ‘Os outros’”, define.
• Escrito por Lucas Paraizo. • Direção de Luisa Lima. • Com Adriana Esteves, Lázaro Ramos, Adanilo, Antonio Haddad, Bruno Garcia, Carol Duarte, Docy Moreira, Mariana Lima, Pedro Wagner. Os quatro primeiros episódios estão disponíveis no Globoplay a partir desta quinta-feira (9/4). Outros quatro nos próximos dias 16/4 e 23/4. O primeiro episódio está liberado também para quem não assina o streaming.