MEMÓRIA

'Maria Maria', primeiro espetáculo do Grupo Corpo, faz 50 anos hoje

Estreia, em 1º/4/1976, reuniu o empenho do trio Fernando Brant-Milton Nascimento-Oscar Araiz à garra de jovens bailarinos, com o apoio da família Pederneiras

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“Ahora vamos hablar com Oscar Araiz. Nuestro principal assunto é ‘Maria Maria’”. Com esse portunhol descarado no título, o Estado de Minas anunciou, em 30 de março de 1976, a estreia do primeiro espetáculo do Grupo Corpo. Dois dias depois, em um improvável 1º de abril, teve início, no Palácio das Artes, a história que segue até hoje.

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O espetáculo foi apresentado ao longo de uma década. E o Corpo, bem sabemos, já atingiu os 50 anos – na verdade, está em seu 51º ano de atividade. “A gente era tão pretensioso que achava que tudo ia dar muito certo. Em nenhum segundo tive alguma dúvida. Hoje, tenho todas. Mas na época não, achava que estava fazendo uma revolução nas artes cênicas”, diz Paulo Pederneiras, diretor artístico do Corpo.

A juventude tem dessas coisas, mas não dá para dizer, de forma alguma, que tal pretensão foi infundada. Eles eram jovens, desconhecidos, mas estavam bem amparados. “Maria Maria” veio ao mundo com Milton Nascimento assinando a música, Fernando Brant o roteiro e o argentino Oscar Araiz a coreografia.

“Nos demos bem. Somos dois calados. Não precisamos falar muito para nos entendermos”, afirmou Araiz a respeito de Milton. O EM informou que a montagem custou Cr$ 250 mil (a moeda daquela época era o cruzeiro).

Seja qual for esse valor nos dias atuais, Paulo comenta que “Maria Maria” não foi projeto caro. “A gente tem de ressaltar a generosidade do trio Fernando, Milton e Oscar. A princípio não cobraram nada. Obviamente, diante do sucesso espetacular de bilheteria, acertamos (mais tarde) com eles”.

Família de artistas

O Corpo foi fundado em 1975 pelos irmãos Paulo e Rodrigo Pederneiras, a mineira Izabel Costa e o argentino Hugo Travers (1932-2019). Dos quatro, só Paulo não dançava. Aliás, é o único dos seis filhos do casal Manoel de Carvalho Barbosa e Isabel Pederneiras Barbosa que nunca dançou.

Os outros cinco – José Luiz, Pedro, Rodrigo, Míriam e Mariza – estavam no elenco do espetáculo inaugural. “Maria Maria” tinha 12 bailarinos em cena, com Izabel Costa fazendo a protagonista.

Milton Nascimento, Fernando Brant e Oscar Araiz nos bastidores
Milton Nascimento, Fernando Brant e Oscar Araiz nos bastidores Instagram/Milton Nascimento

Ainda que tenha dado tudo muito certo, houve vários percalços. A começar pelo próprio Palácio das Artes. Paulo e Izabel levaram portas na cara quando tentaram marcar o principal teatro de Minas Gerais. A temporada inicial foi de 1º a 4 de abril, com ingressos esgotados. Logo depois, no dia 7, a trupe partiu para o Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.

Carteirada

O Grupo Corpo só conseguiu chegar ao Palácio das Artes depois de uma carteirada. Izabel é filha de Hélio Costa, na época presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

“Ele marcava as reuniões, eu e o Paulo íamos conversar. Meu pai acreditava na gente, deu muita força. Junto a ele, o (desembargador) Edésio Fernandes, o (escritor) Murilo Rubião, entre outros. O (programa) Amigos do Corpo começou com algumas dessas pessoas”, conta ela, que ficou no grupo até 1985. Mudou-se para São Paulo para trabalhar com Klauss Vianna.

Bailarinos seguram varas de bambu durante o espetaculo Maria Maria, do Grupo Corpo
Fernando Brant contou que o roteiro que escreveu para 'Maria Maria' foi inspirado em mulheres humildes que trabalharam na casa de sua família. Brant escreveu todos os textos, com exceção de 'Eu sou uma preta velha aqui sentada ao sol', de Sérgio Sant'Anna Arquivo EM/D.A Press

Fernando Brant foi o primeiro dos três criadores convidados para idealizar o espetáculo do zero. Foi ele quem levou Milton. Araiz veio por convite de Izabel, que o encontrou em Buenos Aires – os bailarinos tinham participado de oficina ministrada por ele no Festival de Inverno, em Ouro Preto. O título, “Maria Maria”, foi sugerido por Tavinho Moura. Era o nome de uma onça do conto “Meu tio o Iauaretê”, de Guimarães Rosa.

Paulo Pederneiras ouviu “Maria Maria” pela primeira vez ao lado de Izabel, na casa de Milton. Ao piano e fazendo vocalises, o cantor mostrou a melodia. A letra só viria a ser escrita por Brant alguns anos mais tarde.

Na época, não havia sede do Corpo. Aliás, havia. A casa de número 66 da Rua Barão de Lucena, na Serra, onde a família Pederneiras Barbosa foi criada. Em um gesto de “impressionante desapego”, comenta Paulo, os pais deixaram a casa – “a única que tinham” – para os filhos montarem ali sua escola e companhia de dança.

Os ensaios ocorreram na antiga Academia Internacional de Dança, na Rua Aimorés, no Bairro Funcionários. A estreia ocorreu com ingressos esgotados, como inúmeras sessões depois.

“Foi uma coisa totalmente inédita, porque não tinha espetáculo de dança que ficasse um mês em cartaz”, conta Izabel Costa. Isso não só em BH, mas em várias partes do Brasil e no exterior (o espetáculo foi apresentado em 14 países).

“Fazíamos duas sessões na sexta, duas no sábado. Os ingressos eram populares. Tinha gente que não assistia uma, mas várias vezes”, acrescenta ela.

“'Maria Maria’ acelerou nosso processo de aprendizado artístico e profissional”, acrescenta Paulo Pederneiras, revelando a dificuldade do Grupo Corpo de passar para outros projetos, diante da demanda do público.

Bailarina segura guarda-chuva. Ela está à frente de bailarino que segura gaiola e de outros dançarinos em cena de Maria Maria, espetáculo do Grupo Corpoi
'Maria Maria' conquistou plateias no Brasil e no exterior, fez turnê em 14 países e ficou em cartaz por uma década Arquivo EM/D.A Press

Quando o espetáculo finalmente acabou, uma década mais tarde, jamais foi remontado. “Para a gente, era importante não voltar ele, pois queríamos ter um grupo de criadores dentro do próprio Corpo”, explica Paulo Pederneiras.

Decepção

Perguntando sobre o 1º de abril de meio século atrás, o diretor artístico é muito franco. "Esteticamente, não gostei. A gente tinha muito pouco recurso cênico, de iluminação. Depois, mais na frente, acho que as coisas foram se ajeitando. Mas me lembro de conversar com o (arquiteto) Éolo Maia depois da estreia, no Bar do Tadeu (no Anchieta, frequentado pelos artistas da época). Falei que se soubesse que seria aquela batalha toda, no balanço, não tinha valido a pena", comenta.

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"A gente estava dando um passo enorme, mas, apesar do sucesso imenso, artisticamente fiquei decepcionado”, revela Paulo Pederneiras.

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