José Carlos Novais da Mata Machado era aluno da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Líder do movimento estudantil na virada da década de 1960, tornou-se figura central na resistência à ditadura, integrando a Ação Popular Marxista-Leninista (APML).
Por causa da perseguição política, viveu na clandestinidade, dedicando-se à alfabetização de pessoas pobres no interior do Nordeste. Em 1973, ele foi preso no DOI-Codi de Recife, torturado e morto.
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Corta para a década de 1980. Era a reabertura política. Na mesma UFMG, o então estudante Rafael Conde conhecia os bastidores da história de José Carlos e achava que a versão amplamente divulgada estava mal contada. As coisas começaram a se esclarecer a partir da publicação do livro-reportagem “Zé”, do jornalista Samarone Lima, em 1998. Foi quando Rafael Conde se sentiu impelido a fazer um filme sobre o militante mineiro.
Lançado em 2024, o longa de mesmo nome do livro-reportagem será exibido gratuitamente nesta quarta-feira (1º/4), às 19h, no Cine Santa Tereza. Ele integra a mostra “Ditadura nunca mais”, que conta com outras produções de cunho político, como “Batismo de sangue”, de Helvécio Ratton (exibido em 4/4, às 19h); “O ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger (5/4, às 16h); e “Diário de uma busca”, de Flávia Castro (5/4, às 18h30).
Caminho tortuoso
“Zé” precisou percorrer um longo caminho, que durou pouco mais de 20 anos, até chegar ao circuito comercial. “Todo filme é assim, né? Você escreve roteiro, planeja isso, planeja aquilo, tenta cercar o filme por todos os lados, mas chega um momento em que várias questões se impõem”, relembra o diretor.
Quando finalmente conseguiu viabilizar o projeto financeiramente, o diretor foi atropelado pela pandemia. “Zé” foi rodado em 2021, período crítico, no qual limitações severas ainda eram impostas. “A gente não podia gravar multidões, e todo o processo de preparação de elenco foi on-line. Os atores só se conheceram pessoalmente três dias antes do início das gravações.”
No elenco, Rafael Conde reuniu desde atores veteranos, como Yara de Novaes, a jovens em ascensão, como Eduarda Fernandes e Samantha Jones. Zé é interpretado por Caio Horowicz, e Yara de Novaes dá vida a Yedda, mãe do protagonista.
Registro intimista
Embora o filme aborde o período que culminou no assassinato de José Carlos, em outubro de 1973, o diretor optou pelo registro intimista, focado nos dramas familiares e éticos, em vez de recorrer à violência gráfica ou a cenas de ação. A opressão é transmitida pelo cerco que se fecha e pelo impacto psicológico da perseguição. A atenção maior, no entanto, está voltada para os movimentos sociais compostos por jovens da época.
“Queria contar uma história real fazendo um paralelo com a juventude de hoje”, afirma Conde. “Mais do que um filme sobre ditadura, eu queria fazer um filme sobre juventude. Essa juventude que ainda alimenta alguma utopia de transformação”, acrescenta.
Atualmente professor de cinema da Escola de Belas-Artes da UFMG, ele reconhece que os jovens de hoje estão mais segmentados. As organizações estudantis não têm mais a mesma força que tinham nas décadas de 1960 e 1970, tampouco exercem a mesma influência na política e na sociedade. “Mas elas ainda existem”, argumenta o cineasta.
“É curioso que, na época em que o filme é ambientado, os estudantes se comunicavam por cartas. Muitas vezes, não conseguiam fazer contato entre si. Eram pessoas isoladas. Hoje, os jovens estão hiperconectados, ligados e articulados, mas o que temos é um movimento estudantil mais segmentado e disperso”, avalia.
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No Cine Santa Tereza (Rua Estrela do Sul, 89, Santa Tereza). Nesta quarta-feira (1º/4), às 19h: “Zé”, de Rafael Conde. Sábado (4/4), às 19h: "Batismo de sangue", de Helvécio Ratton. Domingo (5/4), às 16h: “O ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger. Às 18h30: “Diário de uma busca”, de Flávia Castro. Entrada franca, mediante retirada de ingressos no Sympla ou na bilheteria do cinema uma hora antes da sessão.
