A gravação original de “Clube da esquina 2”, com letra, tem uma história com vários personagens. O primeiro registro, de Nana Caymmi, é de 1979, porque ela insistiu para que Márcio Borges fizesse a letra à revelia dos autores, Milton Nascimento e Lô Borges, que só conheceram a versão depois de gravada. Quem fez os arranjos foi Dori Caymmi.

Nada mais natural, então, que “Clube da esquina 2” fosse uma das escolhidas para a homenagem que Dori e sua sobrinha, Alice, farão a Lô nesta noite (26/3). O filho do meio de Dorival Caymmi e Stella Maris abre a temporada 2026 do projeto Uma Voz, Um Instrumento, que está completando 10 anos.

Com ingressos esgotados, a apresentação desta noite é de Dori. Alice vai cantar com o tio quatro canções de Lô: “O trem azul”, “Um girassol da cor do seu cabelo”, “Tudo o que você podia ser” e a supracitada “Clube da esquina 2”. Só esta, vale dizer, não está no álbum “Clube da esquina” (1972), o disco duplo traz apenas a gravação instrumental.

“A Nana encheu tanto o saco (de Márcio Borges) que ele acabou fazendo a letra, que é de uma extensão difícil. O Milton tinha falsetto muito alto e defendia muito bem. Aliás, ele é meu herói. Meus três heróis, da minha geração, são ele, Chico Buarque e Paulo César Pinheiro”, afirma Dori, cantor, compositor, produtor e arranjador, que em 26 de agosto completa 83 anos.

Bem-humorado e distribuindo afetos na conversa com o Estado de Minas, ele falou da mineirada presente em sua trajetória. “Quando comecei a gravar meu primeiro disco ('Dori Caymmi', de 1972), tinha um conjunto quase integralmente mineiro”, comenta ele, referindo-se ao Som Imaginário.

“É uma época em que todos os grandes músicos mineiros começaram a aparecer: Nelson Angelo, Toninho Horta, Helvius Vilela, Tavito. Eu poderia citar todos, pois toquei com todos. Inclusive esse primeiro disco tem quatro faixas com o Som Imaginário.”

Milton, diz Dori, “foi paixão à primeira vista”. Tanto que foi ele a inspiração para “Nosso homem em Três Pontas”, com letra de Paulo Cesar Pinheiro, que fecha o álbum de estreia do filho de Dorival Caymmi.

A cantora Alice Caymmi representa a terceira geração do tradicional clã da música popular brasileira

Marcela Cury/divulgação

Nos dias atuais, outro mineiro tem feito sua cabeça: Sérgio Santos. “É de um bom gosto extraordinário, um grande músico. Tenho até um pouco de inveja dele”, assume. Santos, exímio violonista e compositor, dividiu a autoria e gravou com Dori “Pelas mãos de algum poeta”, uma das 10 faixas de seu novo álbum, “Utopia” (Biscoito Fino, 2025).

No trabalho, Dori reuniu outros nomes importantes. Além do parceiro Paulo Cesar Pinheiro (os dois trabalham juntos há meio século), o disco contou com a participação de Monica Salmaso, Boca Livre e MPB-4, além de Ivan Lins, que letrou pela primeira vez melodia de Dori (“Isabela”).

Fazer um álbum de música brasileira chamado “Utopia” é também provocação, não? “Um pouquinho”, assume. “A música ficou cheia de bailarinos atrás dançando a mesma coisa. O celular e a internet esculhambaram tudo. As novas gerações não são mais influenciadas, elas copiam. Isso tudo é muito ruim para o Brasil.”

Milton Nascimento inspirou a canção 'Nosso homem em Três Pontas', faixa do primeiro álbum solo de Dori Caymmi. A foto mostra a dupla de amigos nos anos 1980

Acervo pessoal

Ser um Caymmi, diz ele, é ser “extremamente brasileiro”. “Que ama o Brasil, que não é vira-lata, que ama Noel Rosa, Pixinguinha, Braguinha, Ataulfo Alves. Não é ser patriota, isso é uma bosta. Ser brasileiro na essência é gostar de frevo, da poesia, da literatura, da pintura. Ser filho do meu pai significa gostar de ser brasileiro”, responde.

Dori não é de frequentar grandes palcos. “Não gosto de tocar para 10 mil pessoas. Gosto de 100, 200, para ver o rosto. Saber que estão gostando de mim ou me censurando, mas dizendo a verdade no olho.”

As contas

A morte de Nana, em 1º de maio de 2025, e tratamentos de saúde o tiraram do circuito. “Estamos armando agora alguns shows para poder pagar as contas”, continua, acrescentando que hoje a popularidade dos Caymmi cabe à sobrinha, que também prestará tributo à tia nesta noite.

“Alice é muito mais popular do que eu. Nunca enchi teatro nem pensei no sucesso. Mas a verdade é que sou música. Se você tem no seu passado João Gilberto, Dorival Caymmi e Tom Jobim, não tem outro jeito. Segui essa trilha. Sou um homem feliz”, afirma Dori.

"Saudade e memória"

O compositor não tem celular (diz nem saber segurar o aparelho direito) e o telefone fixo de casa, em Petrópolis, para falar com os amigos, foi para as cucuias desde que roubaram os cabos no alto da serra. Mas Dori mantém ativo – não alimentado por ele próprio, obviamente – o perfil no Instagram (@dori_caymmi_oficial_). A conta apresenta a série “Saudade e memória”, com vídeos de Dori contando a história de um grande nome da música brasileira.

“Tive um sonho com o Agostinho dos Santos (1932-1973), cantor formidável de São Paulo. Sonhei com ele cantando. Daí me lembrei de que brasileiro não tem memória e liguei para o Guto (Burgos, seu produtor) pedindo que a gente publicasse isso.” A série, em texto e vídeo, é alimentada constantemente.


UMA VOZ, UM INSTRUMENTO

Dori Caymmi convida Alice Caymmi. Nesta quinta-feira (26/3), às 20h, no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Ingressos esgotados.

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OUTRAS ATRAÇÕES

Nos 10 anos do projeto Uma Voz, Um Instrumento, serão realizados também os seguintes shows: Otto acústico (23/4); Patrícia Ahmaral convida Sergio Pererê, Pedro Morais e Marcelo Veronez para show com as parcerias entre Caetano e Gil (24/5); Tiê convida Vitor Santana (11/6); e Zeca Baleiro e Swami Jr. interpretam Dolores Duran (23/7). Todos ocorrerão no Centro Cultural Unimed-BH Minas. Os ingressos para Otto (R$ 80 e R$ 40 a meia) estão à venda na plataforma Sympla e na bilheteria do teatro.

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