FOLHAPRESS - Quem pensa em Nuremberg, a cidade onde aconteceu o célebre julgamento do Estado Maior nazista em 1946, pensa no ato de fazer justiça. Pensa também em um momento em que a humanidade, juntou-se contra um inimigo comum. É por aí também que vai o novo filme de James Vanderbilt, ao retomar o confronto ali registrado entre o totalitarismo brutal e o pensamento humanista.

Este foi, em todo caso, o legado de "O Julgamento de Nuremberg" (1961), de Stanley Kramer, e de centenas de documentários sobre o assunto. Ali a monstruosidade nazista foi julgada. Mas não só ela, pois 1946 foi esse instante fugaz do mundo, em que todos os países aliados, incluídos EUA e URSS, partilharam a ideia de justiça e buscaram estabelecer um modo de convívio internacional fundado em leis que valessem para todos.

Digamos que nesse momento todos souberam distinguir o certo do errado, o justo do injusto, criaram tribunais que valem, valeriam ou valeram para todos. Algo que começou a se estilhaçar logo em seguida, admita-se.

É desse estilhaçar que trata o filme de James Vanderbilt, que corre o risco de desagradar todos aqueles para quem verdades históricas são imutáveis. Sobretudo quando se tornam verdades cinematográficas, ou seja, visíveis.

Bem, de 1946 a 2026, as coisas e os tempos mudaram. Desta vez, o confronto central do filme se dá entre Hermann Goering (Russell Crowe) – o número dois do regime nazista – e Douglas Kelly (Rami Malek), o jovem psiquiatra do Exército designado para desvendar e entender a mente perversa do líder nazista.

O que se passa a seguir leva o filme a caminhos não exatamente convencionais, pois conhecer o outro é dialogar. E Kelley, diante de um personagem monstruoso, se obriga a questionar o que leva um homem a se tornar um monstro?

A pergunta é mais incômoda do que parece: o que distingue um do outro, especialmente em uma situação de guerra? O diálogo introduz a ambiguidade num sistema que até hoje marcou um raro momento unívoco da humanidade: o da condenação ao nazismo.

Vanderbilt aceita a ambiguidade – tanto quanto o psiquiatra. É a partir daí que o filme se abre a incômodas questões. Aqui e ali, algumas palavras escapam da boca de Goering que abalam nossas velhas certezas e nos arrastam a preocupações bem atuais. Por exemplo: qualquer guerra pode levar a um conflito mundial. Lembra algo? Ou, se os nazistas mataram criminosamente 6 milhões de judeus, extinguir 150 mil civis em Hiroshima, em apenas um dia, não seria também um crime?

Questões que levam a pensar que Kelley, herói do saber psiquiátrico e da vitória aliada, talvez não seja tão heroico e sábio assim, e o vilão nazista nem tão vilão assim. Este último é um homem preso na engrenagem da derrota na Primeira Guerra, na humilhação e aniquilação da Alemanha que se deu então. Kelley, como nós, está preso na engrenagem da vitória de 1945.

A guerra e o morticínio daí decorrente é o problema, na visão de Vanderbilt. Estamos então diante do presente angustiante e, ao mesmo tempo, de um filme antibelicista feito no exato momento em que os EUA estão envolvidos em guerras no Irã, na Palestina, e em intervenções na América Latina (por ora, Venezuela e Cuba), sem contar as guerras comerciais.

A frase seguinte que o filme deixa escapar como quem não quer nada é mais ou menos esta: pode ser então que uma parte considerável da população dos EUA (mas não só de lá) possa agir de forma semelhante aos nazistas?

Em outras palavras, as ideias de bem e mal, certo e errado e mesmo de humano e monstruoso parecem bem relativas quando estamos diante de um fenômeno tão brutal quanto a guerra e de um face a face com um homem que sabemos previamente condenado.

 

Além do cinema, Bardem é engajado politicamente e já defende publicamente causas como os direitos palestinos, como você viu no começo da galeria. Reprodução
Mais recentemente, interpretou Stilgar na saga de ficção científica "Duna", de 2021, e "Duna: Parte 2", de 2024. Divulgação
Em 2010, Bardem viveu Uxbal no drama "Biutiful", papel que lhe rendeu sua segunda indicação ao Oscar de Melhor Ator. Divulgação
Outros papéis marcantes incluem o vilão Raoul Silva em "007 - Operação Skyfall", de 2012, e Juan Antonio na comédia romântica "Vicky Cristina Barcelona", de 2008. Divulgação
Antes disso, Bardem se destacou em outros filmes como "Colateral" e "Mar Adentro", ambos lançados em 2004. Divulgação/Dreamworks
A consagração veio em 2008, quando conquistou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel o icônico vilão Anton Chigurh em “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Reprodução
Em 2000, brilhou ao interpretar o escritor cubano Reynaldo Arenas em “Antes do Anoitecer” e recebeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator. Reprodução
Um de seus primeiros papéis que tiveram um reconhecimento maior foi em "Carne Trêmula", de 1997, dirigido por Pedro Almodóvar. Reprodução
Em 1992, contracenou pela primeira vez com sua futura esposa, Penélope Cruz, na comédia romântica "Jamón, jamón". Reprodução Papo de Cinema
Nos anos 1990, Bardem faturou diversos prêmios de atuação na Europa, antes de ganhar destaque no cinema hollywoodiano. Reprodução
Antes de se consolidar no cinema, jogou rugby na seleção espanhola e estudou artes plásticas. Com 11 anos, já atuava ao lado da mãe em algumas produções. Reprodução
Nascido em 1º de março de 1969, em Las Palmas, nas Ilhas Canárias, Bardem vem de uma família profundamente ligada às artes. Sua mãe, Pilar Bardem, foi uma atriz respeitada. Wikimedia Commons/Georges Biard
Javier Bardem, aliás, é um dos atores espanhóis mais reconhecidos internacionalmente. Conheça mais sobre a trajetória dele! Wikimedia Commons/Carlos Delgado; CC-BY-SA
Outras, porém, questionaram a presença de temas políticos em eventos de premiação. A fala acabou se tornando um dos episódios mais lembrados da edição 2026 do Oscar. Reprodução de vídeo / El Mundo
A frase chamou a atenção do público e ganhou grande repercussão nas redes sociais. Além disso, antes e durante a cerimônia, ele usou um broche escrito "Não à guerra". Como observou a revista "Variety", o momento gerou reações variadas, com parte das pessoas elogiando a posição do artista. Reprodução de vídeo / El Mundo
A participação de Javier Bardem no Oscar ficou marcada por um comentário político feito no palco da cerimônia. Ao apresentar uma das categorias, o ator espanhol declarou, como primeira fala, "Não à guerra, e Palestina Livre". Reprodução de vídeo / El Mundo

O que nos leva à obviedade seguinte, proferida por Goering, quando diz: vocês só estão me julgando porque ganharam a guerra.

Isto é, os que ganham julgam os perdedores. Esta é a lei. E este é o ponto de Vanderbilt: o direito internacional forjado em Nuremberg tem algo de aparência de justiça. E, por ser aparente, pode se desmilinguir com certa facilidade. O direito de julgar quem estabelece é o mais forte.

Como é quase impossível não pensar nessas coisas sem pensar na política estadunidense atual para o mundo, o Oscar houve por bem esquecer de "Nuremberg" em favor de algumas nulidades.

Entende-se: a Academia de Hollywood não tem força para promover um filme que, no fundo, discute as práticas do governo atual daqueles país. Tem poder apenas para barrar um filme que abdica da ousadia formal para deixar mais claro o pensamento de seu autor (um filme de roteiro, se se quiser, já que Vanderbilt é um roteirista). Também aqui, julga quem tem poder.

Questionar certas crenças históricas que parecem imutáveis, no entanto, é função óbvia da arte. E "Nuremberg" presentifica a questão ao postular que a monstruosidade da guerra é a mais vasta: o nazismo é apenas parte dela.

Vanderbilt não está distante, nesse ponto, de outra iconoclasta, Hannah Arendt, a pensadora do totalitarismo.

Para Arendt, que teve de fugir da Alemanha nazista, a vida seria coisa maravilhosa, não fosse a história humana uma sucessão de infâmias. Arendt correu riscos pessoais e intelectuais a vida inteira. Vanderbilt arriscou-se também, ao lembrar que o totalitarismo não é privilégio só do lado de lá (seja qual for). Pode estar bem debaixo de nossos narizes e sob formas insidiosas. Decifrá-las é o desafio de quem ainda pretenda viver em liberdade. Por propor esse desafio é que "Nuremberg" é tão interessante e, sobretudo, tão atual.

Por fim, é impossível não perceber o quanto Russell Crowe está formidável em sua composição de Goering.

 "NUREMBERG"

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(Estados Unidos, 2025, 148 min.) Direção: James Vanderbilt. Com  Russell Crowe, Rami Malek, Richard E. Grant. Classificação:16 anos. Estreia nesta quinta-feira (26/3) nos cinemas. 

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