O ator Hilton Cobra saúda o negro brasileiro na TV. Lázaro Ramos está feliz em estrear como vilão
- (crédito: Estevam Avellar/Divulgação)
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Foi-se o tempo em que personagens negros em novelas de época eram sempre escravizados, explorados e em posições inferiores. “A nobreza do amor”, que estreia nesta segunda-feira (16/3), na faixa das 18h25 da Globo, vai retratar, pela primeira vez na TV aberta, reis, rainhas, princesas e guerreiros de uma fábula africana dos anos 1920.
Intérprete do vilão Jendal, Lázaro Ramos se lembra de quando seus personagens em novelas nem sequer tinham família – eram sempre “avulsos”.
Outra novidade é interpretar um antagonista sádico. “Está sendo uma alegria imensa fazer esse vilão tão bem escrito por essa equipe de autores. E está sendo uma descoberta de prazer falar coisas absurdas e maldades”, diverte-se Lázaro.
Tonho (Ronald Sotto) e Alika (Duda Santos): o trabalhador nordestino e a princesa africana
Estevam Avellar/divulgação
Subalternos
Erika Januza, que vive a rainha Niara, comemora: “A gente, por tanto tempo, quis contar uma história como essa e nem imaginou que era possível.”
Na maior parte das produções de época da TV brasileira, artistas negros contaram histórias de escravizados ou subalternos, afirma.
“Elas também são válidas, porque a história tem de ser contada. Mas o passado que a gente contava era sempre triste, um passado de dor, que nos diminui. Chegou a hora de mostrar para as novas gerações e mesmo para as gerações atuais que existe outro passado”, afirma Erika. “Quando olho tudo isso acontecendo, acho, sim, que a gente está fazendo história.”
Hilton Cobra vive o conselheiro Chinua do reino de Batanga, que remete ao filme “Pantera Negra: Wakanda para sempre”.
“A novela vem coroar o que o movimento negro brasileiro exige há mais de 40, 50 anos: que a televisão aberta mostre de fato a vida da gente negra brasileira”, diz.
Para ele, trata-se de um divisor de águas, “um projeto no qual os 120 milhões de pretos e pretas deste país vão poder se ver no lugar da beleza e nobreza.”
A força da ancestralidade é representada pela personagem Dona Menina, vivida por Zezé Motta. Parteira e bezendeira, ela mora na vila dos colonos do Engenho Santa Fé, fabrica cerâmica e aprendeu a moldar o barro com os antepassdos africanos
Globo/divulgação
Welket Bungue, nascido na Guiné-Bissau e criado em Portugal, vive Lumumba, guerreiro que se torna rei de Batanga. Welket cresceu com raras referências de artistas negros. As principais vinham das telenovelas brasileiras. “O mais importante é podermos estar munidos de consciência histórica, consciência crítica e política”, afirma.
Princesa africana
A personagem de Duda Santos conecta os núcleos de Batanga, na África, e do Nordeste do Brasil neste folhetim “dois em um”, como define a criadora Duca Rachid.
Duda vive Alika, herdeira do trono de Batanga, que foge para o Brasil, desembarca na cidade fictícia de Barro Preto, no Rio Grande do Norte, e se apaixona por Tonho (Ronald Sotto), trabalhador de engenho.
“Foi o papel em que mais questionei minha existência. Estamos falando de uma princesa, em um reino construído para ela e para o tamanho dela. Ela não precisa se apequenar” diz Duda.
A atriz tinha referências da nobreza sempre branca e europeia. “A gente assistiu aos filmes 'Pantera Negra' e 'A Mulher Rei', mas é um exercício diário pensar sobre o quanto o racismo nos fez nos apequenar”, afirma Duda.