Até a próxima quarta-feira (4/3), o Estúdio Sonastério, em Nova Lima, será o laboratório de criação da Orquestra Novo Traço. Reunindo músicos de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, o projeto nasce com a proposta de ser um grupo sem amarras estéticas, aberto a diferentes linguagens, capaz de percorrer desde a obra de Heitor Villa-Lobos até o funk carioca, sem nenhum tipo de preconceito.
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A reportagem esteve no Morro do Chapéu, área nobre da Região Metropolitana de Belo Horizonte, para acompanhar um dia de gravações das NT Sessions, iniciativa que une a orquestra a artistas da música popular. Já passaram e ainda vão passar por lá nomes como Hamilton de Holanda, Zeca Baleiro, MC Pedrinho e o rapper Froid.
O ritmo é intenso. Dois artistas por dia entram no estúdio acompanhados pelos músicos da orquestra e por uma equipe de produção que reúne aproximadamente 70 pessoas, em jornadas que vão das 9h às 20h30. Na última quarta-feira (25/2), quem ocupou manhã e tarde foi Zé Ibarra.
Antes de gravar, os 15 músicos que participam das sessões afinam os instrumentos e fazem anotações nas partituras. A equipe técnica conecta os canais de áudio à mesa de som e ajusta a iluminação. Ibarra chega um pouco depois, faz maquiagem leve e aquece a voz. Conversa com o stylist, abre a mala de roupas trazida de casa e troca de blusa ali mesmo, diante da equipe.
Perfeccionista assumido, ele leva pelo menos meia hora para acertar os detalhes. Há um tipo específico de reverb do qual não abre mão, pensado para potencializar os agudos da voz. “Escolhi essas músicas que são muito baseadas no violão, nesse jeito mais cancioneiro de tocar”, avisa à orquestra, antes da primeira passagem de som.
É a primeira vez que tocam juntos. O regente Carlos Prazeres afirma que o maior desafio do projeto é criar, em poucas horas, uma unidade entre artistas e orquestra. São seis canções no repertório de Ibarra. A primeira é “Retrato de Maria Lúcia”, composição do alagoano Itallo França, presente no álbum “Afim”, lançado no ano passado. “Vai ficar bonito”, diz o cantor, animado.
Dificuldade com o disco
Primeiro disco solo desde a pausa do grupo Bala Desejo, que o projetou nacionalmente, o trabalho foi bem recebido. Esgotou os shows de lançamento e, sete meses depois, agora ganha nova vida com canções viralizando nas redes sociais.
“A galera está descobrindo o disco e não para de crescer. Eu estou achando a melhor coisa do mundo, porque tive dificuldade, já falei isso um milhão de vezes. Não queria lançar”, diz.
Ele trouxe da própria banda o baixista Frederico Heliodoro e o baterista Thomas Harres e gostou de ter a casa cheia na gravação. “O olhar do outro é importante. Me coloca no lugar de presença absoluta”, afirma. O repertório foi escolhido pensando nas músicas que poderiam ganhar força em formato orquestral.
Entraram “Nobreza”, releitura de Djavan que vem tocando nos shows, “Dos cruces”, uma paixão antiga do Clube da Esquina, e “Como eu queria voltar”, composição mais antiga que Zé sempre quis ouvir com orquestra. Esta última foi a favorita do dia. “Acontecem mágicas às vezes no estúdio e hoje aconteceu mágica com essa música”, comenta.
A estrutura impressiona. Guardadas as proporções, o tamanho da equipe se aproxima da mobilizada quando Milton Nascimento gravou uma sessão no estúdio em 2022. Curador e fundador do projeto, Rafaello Ramundo também está à frente da Novo Traço, empresa que dá nome à orquestra e atua no mercado de festivais e eventos culturais, muitos deles gratuitos ou a preços populares.
Autonomia
“A Novo Traço nasce da minha vontade, como músico e diretor artístico, de ter uma máquina de produção para realizar as ideias que eu tinha”, afirma. Em 2026, a empresa completa 19 anos. “Fundei a produtora para levar música e vida às pessoas”, diz.
O NT Sessions é financiado integralmente por investimento privado, o que, segundo Rafaello, assegura maior autonomia artística na concepção do projeto. A proposta, segundo ele, é montar um line-up pensado para chocar e provocar encontros pouco óbvios.
O maestro Carlos Prazeres diz ter gostado especialmente da experiência de gravar com Zé Ibarra. Para ele, o cantor é “um artista muito virtuoso”, que carrega e atualiza o legado da música popular brasileira para as novas gerações. “Ele honra e transporta esses artistas, numa repaginada, para as próximas gerações”, afirma, citando referências como Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
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Depois das gravações, o material passa por mixagem a masterização e será distribuído nas redes. Em abril, os encontros serão transformados em espetáculos ao vivo, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
