Fundamental no modernismo brasileiro, um dos pintores mais influentes e valorizados do país, Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) é, no entanto, pouco conhecido fora de Minas Gerais. A afirmativa vem dos dois biógrafos do artista, os jornalistas mineiros Marcelo Bortoloti (“Guignard: Anjo mutilado”, da Cia. das Letras) e João Perdigão (“Balões, vida e tempo de Guignard”, da Autêntica). Os dois volumes foram publicados em 2021, com uma diferença de meses.
“Como a obra dele ficou na mão de colecionadores, e há muito pouco nos museus brasileiros, ela não chega ao grande público”, afirma Bortoloti. “Acho que, além do fato de ele estar em coleções particulares, também por Guignard ser um outsider e estar fora do eixo Rio-São Paulo”, acrescenta Perdigão.
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Bortoloti chama ainda a atenção para o fato de que a mais recente grande exposição de Guignard foi realizada em 2000, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. “Houve menores, como a do MAM (“Guignard – A memória plástica do Brasil moderno”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 2015) e a do Palácio das Artes (“A paixão segundo Guignard”, com obras dele e de vários alunos, em 2024), mas uma retrospectiva com a obra em conjuntos, não mais.”
Catalogação
Mesmo que museus importantes tenham um número representativo de obras do artista – a Pinacoteca de São Paulo e o Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP), além do Museu de Arte da Pampulha (MAP) e o Museu Casa Guignard, em Ouro Preto, que enfrenta dificuldades enormes para sua manutenção –, a maior parte de sua produção é privada. Isso dificulta a realização de uma grande exposição e também a confecção de um catálogo raisonné, há muito cobrado pelo meio da arte.
Há duas décadas a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG) lançou o Projeto Guignard, que previa a catalogação de toda a obra. A iniciativa teve uma primeira etapa concluída, mas foi paralisada posteriormente. Lançado em 2022 e disponível no Canal Curta!, o média-metragem “Guignard: Mundo sem chão”, de Marcos Guttman, aborda essa dificuldade de catalogação.
João Perdigão considera que há “coisas mais relevantes a fazer” em torno da obra e do legado de Guignard do que um raisonné. “Diferentemente de pares como Portinari e Lasar Segall, Guignard colaborava em obras de alunos. E um raisonné só traz obras do artista, ou seja, esses trabalhos não entrariam. Além disso, mais do que um catálogo, acho importante estudar a obra, conhecer o Guignard em si. Houve os dois livros, mas sinto falta de um documentário que debate a obra dele, os artistas que o influenciaram e os que ele influenciou.”
Alunos famosos
Guignard teve muitos alunos, alguns tão grandes quanto ele: Amilcar de Castro e Lygia Clark fazem parte deste grupo. Outros nomes a serem destacados são Farnese de Andrade, Maria Helena Andrés e Wilma Martins. Em seu livro, Perdigão preferiu destacar nomes menos conhecidos, entre eles o de Osvaldo Catarino, pai da ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo – portanto, tio da escritora Conceição Evaristo.
“Guignard acabou virando patrimônio de Minas, um artista das montanhas. No Nordeste e no Sul, ele não tem tanta penetração para além do circuito da arte”, comenta Bortoloti. A despeito disso, a importância da obra do artista continua “inquestionável” 130 anos após seu nascimento, em Nova Friburgo, na serra fluminense.
“Ainda que o debate esteja na mão de poucos, no meio acadêmico e na crítica de arte ele é cada vez mais reconhecido. Nunca foi considerado velho, pelo contrário: seu paisagismo está em conexão com os artistas contemporâneos. Além disso, é o cara que criou a tradição do ensino de arte no Brasil.”
Em 2023, Bortoloti lançou a biografia “Di Cavalcanti – Modernista popular” (Cia das Letras). “Guignard é conhecido por um público restrito, diferentemente do Di Cavalcanti, que é superpopular, inclusive nas escolas”. No entanto, diz o jornalista, o interesse pela biografia de Guignard foi maior.
“Como Di Cavalcanti é muito conhecido, há mais resistência das novas gerações em apreciá-lo, ter acesso, pois (o artista carioca) é conhecido pelo estereótipo daquele que pinta mulatas. Já o Guignard desperta um maior interior no meio dos que se interessam por arte porque é pouco conhecido.”
Homenagem em festival
A terceira edição do Festival Literário Internacional de Petrópolis – Flipetrópolis vai homenagear Guignard. A pintura do modernista vai compor a iconografia do evento, que será realizado entre 11 e 15 de novembro, no Palácio de Cristal.
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A escolha não é de ocasião. Nascido em Nova Friburgo, o pintor chegou à cidade histórica antes de completar 3 anos. Viveu em Petrópolis até os 8, quando sua família se mudou para a Europa. Marcelo Bortoloti vai apresentar no evento um texto inédito sobre a relação de Guignard com Petrópolis.
