São Paulo – A réplica de uma banquinha de jornal está abarrotada de publicações sobre os sucessos de Grande Otelo (1915-1993). Ao lado dela, a fachada do Cine Grande Othelo (grafado assim mesmo, com “TH”), que reproduz os típicos cinemas de rua da década de 1950.
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Ao centro, como se fosse um monumento, cercado por quatro lampiões e banquinhos de praça, o terno prata que o ator e comediante natural de Uberlândia usou no filme “Carnaval Atlântida”, de José Carlos Burle e Carlos Manga. Essa pequena cidade cenográfica faz parte da “Ocupação Grande Othelo”, em cartaz no Itaú Cultural, na capital paulista.
São aproximadamente 160 peças, entre fotos, poemas e partituras autorais, roteiros, documentos – está lá o contrato que Grande Otelo assinou com a TV Globo em 1967 – e objetos pessoais que, juntos, narram a trajetória de um dos primeiros artistas negros brasileiros a romper barreiras profissionais.
Não foi fácil. Conforme contou ao “Roda Viva”, ainda em 1987 sentia-se discriminado. Lembrou que, no auge do Cassino da Urca, nos anos 1940, mesmo sendo uma atração no palco, tinha que entrar pela porta dos fundos, porque “negro não entrava pela porta da frente”.
Grande Otelo usou o humor como arma e estratégia de sobrevivência, atingiu notoriedade nacional e construiu uma carreira que atravessou décadas e diferentes fases do cinema brasileiro. É essa trajetória que a exposição revisita.
Estão na mostra desde fotos do menino Sebastião Bernardes de Souza Prata (seu nome de registro) aos 10 anos, de terno com flor na lapela; até imagens dos bastidores de “Fitzcarraldo” (1982), de Werner Herzog, um dos trabalhos internacionais de maior destaque de que participou.
Grandes papéis
Também não ficaram de fora registros de “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, e dos filmes em que atuou ao lado de Oscarito, com quem formou uma das duplas cômicas mais famosas e queridas da história do cinema nacional. Os dois firmaram parceria entre as décadas de 1940 e 1950 e protagonizaram dezenas de produções, entre elas, “Não adianta chorar” (1945), de Watson Macedo; e “A dupla do barulho” (1953), de Carlos Manga.
“Ocupação Grande Othelo” exibe ainda o diploma de cidadão paulistano recebido pelo ator em 1978; o troféu Velho Guerreiro que ganhou das mãos de Chacrinha e vídeos com depoimentos de familiares. A maior parte do material faz parte do acervo de Otelo guardado desde 2008 no Centro de Documentação e Pesquisa da Funarte, no Rio de Janeiro. Há também material vindo dos arquivos da TV Cultura e da TV Globo.
“Não é uma exposição dessas comuns, que a gente vê por aí, onde as obras ficam expostas em espaços que mais parecem cubos brancos”, diz Natália Souza, coordenadora de curadorias da programação artística do Itaú Cultural. “A gente trabalhou com arquitetos e consultores para montar uma cidade cenográfica onde o Grande Otelo pudesse ser reconhecido”, explica ela.
A cidade cenográfica foi baseada no Rio de Janeiro da década de 1950, onde o artista viveu boa parte da vida, dividido entre a capital fluminense e São Paulo. A viagem temporal, porém, importa muito mais do que as referências territoriais. E é nessa imersão que o visitante vai conhecendo mais intimamente o artista homenageado.
Nesse processo, duas facetas de Grande Otelo se revelam: a de poeta e a de músico. Na década de 1960, ele escreveu um poema em homenagem a Herivelto Martins. Os curtos versos de “Invocação” soam como uma oração às entidades da umbanda para abrir os caminhos e guiar o poeta. A homenagem ao cantor não é à toa. Eles compuseram juntos os sambas “Praça Onze” e “Mangueira não”.
Surpresa
“Essa é uma das grandes surpresas em relação a ele”, afirma Natália. “Nós o conhecemos como artista, ator de teatro de revista e, principalmente, do cinema. Mas não temos a dimensão da criação musical e poética dele. Além de ser esse grande artista, que cantava e dançava, ele foi um grande compositor”, afirma, lembrando que Grande Otelo foi ainda um articulador político em defesa da classe artística, tendo presidido a Associação dos Artistas Cinematográficos.
“Era um homem que refletia sobre seu tempo, embora tivesse sido muito atacado, acusado de aceitar fazer qualquer papel – muitas vezes subalterno. Mas ele tinha consciência de tudo o que estava acontecendo e do racismo estrutural que sofria. Ele sabia que estava aceitando aquilo porque precisava pagar as contas e colocar comida em casa”, acrescenta ela.
Grande Otelo morreu em 1993, aos 78 anos, quando desembarcava no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, vítima de infarto fulminante. Ele tinha ido para ser homenageado no Festival dos Três Continentes, em Nantes, onde seria celebrado num painel dedicado à negritude no cinema. Seu corpo foi trazido de volta ao Brasil e enterrado em Uberlândia.
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*O repórter viajou a convite do hotel Tivoli Mofarrej.
