Afonso Borges se despede de Mário Vale, morto nesta quarta (25/2), em BH
Produtor cultural lembra momentos marcantes ao lado do artista plástico, cartunista e autor premiado de livros infantojuvenis. Causa da morte não foi divulgada
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AFONSO BORGES
Um sopro atroz de delicadeza e bom humor atravessa a minha vida, agora. Em uma sala escura, a moviola da memória se movimenta rápido, em frames:
Diamantina, 1981, em cima do bandejão da universidade, tinha uma sala de aula que virou quarto. Morei 40 dias com o Mário ali, vivendo aquela loucura criativa pós-ditadura que o Festival de Inverno da UFMG proporcionava. Repeti a dose em 1982 e 1983.
Casa na Rua Major Lopes, no São Pedro, onde funcionava a mágica Oficina Mágica, do Mário e do Marcelo Xavier. Fizeram ali a primeira logomarca do Sempre um Papo. Mais que isso, na pindaíba geral em que vivíamos (obrigado pela palavra, Celso Adolfo), me abrigaram ali por seis meses.
Ziraldo, quando viu a marca, passou décadas dizendo que foi ele que fez. Ciúmes de homem é um horror.
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Depois, fiz duas edições do Festival Brasileiro de Teatro Amador, por iniciativa da Confenata – Confederação Brasielira de Teatro Amador/ Funarte. Não, não existia o Ministério da Cultura. Com Mário Vale vivia primeira experiência imersiva enlouquecida de trabalho: duas noites e um dia inteiros acordados, fechando um jornal do festival. Tenho como provar.
A partir daí, em quase tudo que fiz na vida Mário Vale esteve presente: os anos em que trabalhei no Hoje em Dia, os inúmeros eventos do Sempre um Papo, noites e mais noites de folia, alegria, bebida e muito mais. Além disso, vivemos juntos no mesmo Retiro das Pedras por quase duas décadas.
Quando tinha livraria na Avenida Getúlio Vargas, criamos juntos uma série camisetas com charges e desenhos de incentivo à leitura, com frases de Fernando Fabbrini e Humberto Werneck, entre outros. Foi uma felicidade conceitual, e um fracasso comercial. Mas ficou.
Me tornei irmão de Monica Sartori, vi seus dois filhos com o Mário crescerem. Dividimos segredos, revelações e “puxamos angústia”, como dizia Hélio Pellegrino.
Sabendo que ele estava doente, promovi uma exposição em sua homenagem no Flitabira com os cartuns de incentivo à leitura. Outro dia mesmo, fiz um 'Mondolivro', na Rádio Alvorada.
Hoje ele descansou. Vou sentir falta daquele abraço apertado, de urso. Daquele jeito estrambótico que ele tinha de cumprimentar, misturando o dedão com o anelar, fazendo um código. Da sua gargalhada enérgica e do traçado com a cabeça, em diagonal, como se não soubesse qual era o assunto. Mas ele sempre sabia.
Da sua arte, genial, falei pouco. Mas ela ficou. Hoje é dia de falar do amigo que se foi. Vai fazer uma falta miserável.
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O cartoon de hoje é um papel em branco.