A gente sabe o fim de “A voz de Hind Rajab”, o candidato da Tunísia ao Oscar de Melhor Filme Internacional, que estreia nesta quinta-feira (29/1) no UNA Cine Belas Artes. O que ocorreu em Gaza há exatos dois anos, em 29 de janeiro de 2024 – e seus desdobramentos – foi amplamente divulgado mundo afora.
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Mas nada disto impede que o longa da diretora Kaouther Ben Hania nos impacte sobremaneira – e mesmo que saibamos que não há final feliz possível, chegamos a torcer por ele.
Hind Rajab foi uma menina palestina de 6 anos incompletos que se juntou a parte de sua família – tios e primos, sete pessoas ao todo – em uma fuga do bairro Tel Al-Hawa, na Faixa de Gaza. Naquele fatídico dia, a região estava sendo evacuada sob as ordens do Exército israelense.
Não foram muito longe. O carro foi bombardeado pelas Forças de Defesa de Israel (IDF). Seis pessoas morreram quase instantaneamente. Como que por milagre, a menina sobreviveu. Presa no carro, cercada pelos corpos dos parentes, ela usou o celular.
“Estou com tanto medo, por favor, venham.” Durante horas, a menina apelou para os socorristas da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino. O veículo estava em um posto de gasolina distante oito minutos da ambulância mais próxima. Só que a ajuda não chegou a tempo.
Versão com atores
O filme ficcionaliza o drama com elenco exclusivamente palestino lançando mão das gravações originais de socorro, que tomam a tela. O espectador acompanha minuto a minuto a aflição crescente dos voluntários incapazes de fazer alguma coisa diante da burocracia. E o horror é inevitável, como se nota pelo fio de voz de uma menina.
“A voz de Hind Rajab” é o terceiro longa consecutivo de Kaouther Ben Hania indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Sua produção é claramente calcada nos direitos humanos. “O homem que vendeu sua pele” (2020) acompanha um jovem sírio que foi para o Líbano para fugir da guerra e sonha em viajar para a Europa para viver com o amor de sua vida.
“As 4 filhas de Olfa” (2023) aborda a luta de uma mãe tunisiana quando duas de suas filhas se juntam ao Estado Islâmico na Líbia. O primeiro filme é baseado em fatos; o segundo, um documentário.
Já no novo filme a linha entre documentário e ficção é bastante borrada. A trama foi criada em cima das gravações entre os voluntários e a menina. Mas o que vemos na tela é o que se passa no escritório do Crescente Vermelho. Omar (Motaz Malhees) recebe uma ligação da Alemanha (de uma parente da família) contando o que havia ocorrido. Pouco depois, a ligação é da própria menina.
Burocracia e aflição
A partir do contato da menina, a narrativa acompanha os atendentes se afligindo diante da demora, decorrente de burocracia dos protocolos, no atendimento. Para que o salvamento seja realizado de forma segura para vítima e socorristas do Crescente Vermelho, tem que haver uma cooperação entre instituições, incluindo a Cruz Vermelha e um órgão do próprio algoz, o Ministério da Defesa de Israel.
Os ânimos se elevam diante da morosidade e da percepção de que todos estão de mãos atadas. Há brigas, acusações e uma tentativa após outra de salvar a menina. O espectador é atingido em cheio pela tragédia iminente. Com maestria, na fase final da narrativa, Ben Hania une as imagens ficcionais com as reais, feitas de celular, do que ocorreu naquele 29 de janeiro.
Os quatro personagens que interpretam os socorristas foram calcados nas voluntários reais – não só usam o mesmo nome, como também têm muita semelhança física.
O novo filme foi lançado no Festival de Veneza, de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri. Tem um elenco de estrelas assinando a produção-executiva: Brad Pitt, Alfonso Cuarón, Jonathan Glazer, Rooney Mara e Joaquin Phoenix.
O troféu decepcionou muita gente – o vencedor do Leão de Ouro foi “Father mother sister brother”, considerado um filme menor na obra de Jim Jarmusch. Esperava-se que Ben Hania levasse a melhor: o longa causou uma comoção em Veneza que culminou com o recorde de 23 minutos de ovação.
Autorização da mãe
Há uma questão ética em torno do projeto – pegar as gravações reais de uma tragédia envolvendo uma criança e fazer delas um filme – que foi levantada desde a première em Veneza. Ben Hania justificou suas escolhas, em entrevista à BBC News. “Como fazer a voz dessa garotinha ecoar? Porque o mundo não quer ouvir isso. Não é algo fácil de encarar. Para mim era importante honrar a voz dela e fazer com que ela ressoasse além das fronteiras.” A cineasta obteve autorização da mãe de Hind Rajab para fazer o longa.
É fato que nenhum outro filme sobre o massacre da Palestina ecoou tanto mundo afora – e há outras produções sobre o conflito atual. Uma delas é o documentário “Guarde o coração na palma da mão e caminhe”, da diretora iraniana Sepideh Farsi, lançado em novembro passado nos cinemas brasileiros, que acompanha uma fotojornalista palestina que documentou o conflito até morrer.
A indicação de “A voz de Hind Rajab” ao Oscar – e também ao Bafta e ao Globo de Ouro, entre vários outros prêmios –, aumenta, de forma exponencial, a repercussão do filme e a história que ele conta. Mas como dói!
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“A VOZ DE HIND RAJAB”
(Tunísia/França/EUA/Reino Unido/Itália/Arábia Saudita/Chipre, 2025, 89min.) – Direção: Kaouther Ben Hania. Com Saja Kilani e Motaz Malhees. O filme estreia nesta quinta-feira (29/1), no UNA Cine Belas Artes (Sala 2, 14h).
