Tiradentes – O Brasil dificilmente deve voltar a parar seu carnaval para assistir ao Oscar nos próximos anos. Pelo menos é o que pensa o produtor Rodrigo Teixeira, responsável por títulos como "Ainda estou aqui", que deu ao país a sua primeira estatueta da Academia no ano passado, vencendo na categoria de Melhor Filme Internacional.
"Eu não vejo cinema brasileiro nos próximos dois ou três anos voltando para o Oscar", disse Teixeira, durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, durante debate realizado nesta terça-feira (27/1).
No atual bom ciclo deste biênio mais recente, o acaso encadeou filmes de "dois autores que têm o peso de um país", disse o produtor da RT Features sobre Walter Salles, de "Ainda estou aqui", e Kleber Mendonça Filho, de "O agente secreto", que concorre em quatro categorias do Oscar 2026.
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"Eles são artistas consagrados no mundo inteiro com carreiras muito longas, que sempre estiveram presentes nos principais festivais. Eles sempre foram considerados, sempre foram premiados", afirmou o produtor.
Segundo ele, os dois filmes abriram uma janela de interesse pela cultura brasileira, mas é preciso saber aproveitá-la. "Vai existir interesse no cinema brasileiro? Vai. Temos filmes para Cannes? Acho que não. Temos filmes para Veneza? Também acho que não", afirma. "Temos poucos filmes com chance de entrar, poucos. Deve ter dois ou três, sinceramente."
Teixeira advertiu que a realidade é bem mais dura para cineastas que não têm o mesmo "pedigree" de Salles e Mendonça Filho.
"Não é fácil. Agora, o Brasil tem potencial? Tem", afirma. "Até porque o cinema brasileiro é hoje o maior motivo de orgulho da nação, porque o futebol não entrega o que o cinema está entregando."
Para ele, falta fazer o esforço de encontrar os novos grandes realizadores do país. "Cadê os [cineastas] de 20 a 30 [anos de idade]? Tem que ter gente. Não é possível", diz Teixeira.
"A gente não faz essa pesquisa, o Walter é um realizador mais velho, de uma outra geração. O Kleber é de uma geração abaixo do Walter. Cadê essas pessoas? Cadê esses cineastas? Os cineastas premiados brasileiros são de 40 anos a mais."
Governo Bolsonaro
Para Teixeira, o bom momento do cinema brasileiro, porém, não vem de hoje. Já em 2019, ele lembra, o país se destacou em festivais importantes como Cannes, Locarno e Veneza, com filmes como "A vida invisível" e "Bacurau". "Por que parou em 2019 e voltou em 2024? Tá, a resposta está dada, a gente não precisa nem discutir", diz, se referindo ao desmonte da cultura no governo Jair Bolsonaro.
Mas mesmo após a presidência de ultradireita, a indústria cinematográfica nacional tem muito a avançar. Muito disso tem a ver com a internacionalização. "A gente acha que é autossuficiente, mas não é", afirma Teixeira. "Nós somos muito isolados. A gente não sabe se relacionar nem com a América Latina", advertiu
"Posso te falar, com certeza, que se a gente não tivesse o apoio da América Latina, o 'Ainda estou aqui' não ganharia o Oscar", afirma o produtor. "Porque eles [membros latinos da Academia] votaram na gente. Eles entendem que é necessário ter um filme da América Latina, é importante para a região. Ganha a região inteira."
Para o produtor, há um excesso de atenção voltada para os grandes centros, como Cannes e Berlim, enquanto lugares como Oriente Médio e América Latina, onde há opções de coprodução e parcerias, não ganham a atenção dos produtores brasileiros. "E os mercados marginais? A gente não vai".
"Antes de a gente expandir para a Europa, para outros lugares, a gente tem de expandir primeiro para a América Latina. A gente tem de se relacionar bem com os nossos vizinhos."
Regulamentação do streaming
O produtor também criticou as discordâncias internas no setor audiovisual, sobretudo em meio às negociações em torno da regulamentação do streaming. "A gente não vai ganhar todas as batalhas, não vamos emplacar as melhores negociações com as leis. Não vamos."
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"A gente vai ter de lidar com o que a gente tem para prosseguir e ir crescendo e fazer o negócio acontecer. Se a gente brigar entre nós, vamos afundar. A gente tem que se apoiar. Não dá para o audiovisual brasileiro ser dividido. Produtor não é vilão, produtor é parceiro."
