Quando o assunto é o filme “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, o que não faltam é mistérios envolvendo a história. Uma das perguntas que ecoa nas salas de cinema e, principalmente, nas redes sociais é direta: Marcelo / Armando, personagem de Wagner Moura, raparigou ou não raparigou?
A dúvida surge em uma cena aparentemente simples, mas carregada de tensão. Durante um encontro com seu Alexandre (Carlos Francisco), sogro do protagonista, Marcelo é questionado se traiu Fátima (Alice Carvalho) durante o casamento. Visivelmente constrangido, o professor evita responder e pede para que o assunto seja esquecido. O filme corta a conversa sem oferecer uma resposta clara — e é justamente aí que nasce o mistério.
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A ambiguidade foi suficiente para incendiar a internet. A frase “raparigou ou não raparigou?” rapidamente entrou para o vocabulário cinéfilo nacional. “Entrando pro hall de frases que eu gostaria de estampar numa brusinha”, escreveu um perfil no X.
“‘O agente secreto’ é muito bom, mas eu preciso saber se ele raparigou ou não”, disse outro perfil. Houve até quem transformasse a ida ao cinema em ritual de revelação. “Estou a caminho do cinema. E finalmente vou saber se esse cara raparigou ou não”, disse um terceiro comentário.
O debate chegou ao próprio diretor. “Alô @kmendoncafilho, me conta aí. O Armando raparigou ou não raparigou???”, questionou um internauta. Outros foram além do mistério narrativo e misturaram ficção e realidade.
“Eu não sei se o Wagner Moura raparigou ou não raparigou, mas caso ele raparigue, quero dizer que eu tenho interesse”, sugeriu uma pessoa. A repercussão foi tamanha que até a indicação do filme ao Bafta virou piada. “Parabéns também pelo primeiro roteiro nomeado ao BAFTA com a palavra ‘raparigou’”, observou mais uma pessoa.
A resposta existe — mas não no filme
Embora o longa preserve o silêncio, o roteiro de “O Agente Secreto”, lançado recentemente em formato de livro, revela o que Marcelo não diz em cena. No texto, após a insistência do sogro, o personagem admite: “A gente se gostava muito, era uma relação boa, mas às vezes complicada. Fátima também teve… histórias fora de casa.”
Depois, pressionado a ser direto, ele responde: “Rapariguei…”. E, ao ser questionado se a esposa também teria traído, Marcelo diz que a mulher também.
Seu Alexandre ainda tenta relativizar, sugerindo que a filha teria “raparigado menos”. Marcelo, encurralado, responde apenas: “Menos… sei lá… menos…”
O trecho encerra com o som do celuloide batendo como um chicote, numa metáfora que reforça o peso daquela confissão.
Mistério calculado
Para Carlos Francisco, ator que dá vida a seu Alexandre, o mistério não é falha — é estratégia. Ao Estado de Minas, o ator contou que, durante os ensaios, a resposta aparecia claramente, mas que a decisão de retirá-la do filme foi acertada.
“Achei melhor não oferecer a resposta. O mistério provocou uma polêmica em torno do assunto”, afirmou. Segundo ele, a repercussão se deve justamente ao suspense da pergunta sem resposta, que aguçou a curiosidade do público.
Carlos também aponta outro fator importante: o uso do verbo “raparigar”, pouco comum fora do Nordeste. “Algumas pessoas me disseram que não compreenderam o termo de imediato. Isso cria mais uma camada para justificar a repercussão da cena”, explicou.
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"A genialidade do Kleber Mendonça faz com que trechos de cenas ganhem vida própria e provoquem discussões e polêmicas. Isso torna seus filmes ainda mais especiais", destacou.
