Há algo de bom no reino de Hollywood. Mas muitos anos foram necessários para acertar. As 16 indicações para “Pecadores”, na 98ª edição do Oscar, são um recorde histórico para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Até então, apenas três longas – “A malvada” (1950), “Titanic” (1997) e “La la land: Cantando estações” (2016) – haviam chegado perto, com 14 nomeações cada um.


A escolha não só do campeão de indicações, como também de outros competidores, incluindo o brasileiro “O agente secreto”, reforça uma tendência já vista em anos anteriores, da diversidade da produção de Hollywood. Ser global é ser diverso, o mundo real já mais do que provou isto.


Escrito e dirigido por Ryan Coogler, “Pecadores” é um filme muito americano, diga-se. Blues, campos de algodão, Ku Klux Klan, está tudo lá. Ambientado no Mississippi nos anos 1930, período da segregação racial, acompanha os gêmeos Smoke e Stack (Michael B. Jordan). Depois de viver algum tempo em Chicago, retornam para a cidade natal, Clarksdale, para um recomeço. Abrem um bar com atrações musicais e acabam tendo que enfrentar uma invasão de vampiros.


Sim, o campeão de indicações é, em suma, um filme de terror, e a crítica costuma olhar de soslaio para o sobrenatural. Mas não com esta produção, incensada desde sua estreia, em abril de 2025. “Hino apaixonado e efusivo sobre a vida e o amor, incluindo o amor pelo cinema”, cravou o “New York Times”. “O filme culturalmente mais importante de 2025”, afirmou o “Guardian”.


Sucesso de bilheteria

Ainda que o terror seja o pano de fundo, a narrativa mistura gêneros de forma quase alucinada. Fazendo coro com a crítica especializada, o público compareceu. “Pecadores” é, também, um sucesso de audiência. Sua bilheteria atingiu US$ 368 milhões, com a maior parte (76%) vinda dos EUA (dados da Mojo Box Office).


Em 2026, completam-se 10 anos desde o fatídico #OscarSoWhite, quando não houve nenhuma indicação para negros ou latinos nas categorias de atuação. Sob pressão, a Academia reconheceu, na época, que seus 6 mil membros eram 93% brancos e 76%homens, com idade média de 63 anos.


A mudança está sendo gradual, mas a demografia de hoje é mais diversa. São cerca de 11,1 mil integrantes, com 33% identificados como mulheres e 24% de comunidades sub-representadas (negros, indígenas, LGBT). Quase um quarto dos votantes vive fora dos EUA.


Esta nova realidade garantiu a “Pecadores” a indicação de 10 artistas negros – entre atores e profissionais de outras áreas. No cômputo final das indicações das categorias de atuação, 30% são atores de comunidades sub-representadas.


Ainda há muito a fazer? É claro, basta ver que, com sua nomeação a Melhor Ator, Wagner Moura se tornou, apenas, o sexto latino a ser indicado na categoria. Já Chloé Zhao se tornou a primeira pessoa não branca a ser indicada duas vezes ao Oscar de Melhor Direção – é a segunda mulher a realizar o feito. Ela venceu essa categoria em 2021, com “Nomadland”, quando foi apenas a segunda mulher indicada na história do Oscar.


Outro ponto fora da curva em torno do filme de Ryan Coogler é que, dos 10 longas que disputam Melhor Filme, ele foi o primeiro a estrear. Chegou aos cinemas em abril e ao streaming em 4 de julho. Ou seja, contraria a regra segundo a qual quem chega mais tarde no jogo do Oscar leva a melhor.


Carta de agradecimento

Ryan Coogler faz parte do grupo de cineastas que defende que filmes devam ser vistos no cinema. No final de abril, diante da boa repercussão de “Pecadores” nas telas, o cineasta e roteirista escreveu uma carta aberta de agradecimento.


“Acredito no cinema. Acredito na experiência da sala. Acredito que ele seja um pilar essencial da sociedade. É por isso que eu e tantos colegas dedicamos nossas vidas a essa arte. Não conseguiríamos fazer o que fazemos se vocês não comparecessem.”


Coogler continuou seu agradecimento: “O público global dos cinemas me permitiu sonhar, encontrar uma carreira e construir uma vida mais sustentável para mim e minha família... Ver a reação de vocês ao filme me revigorou, assim como a muitos outros que acreditam nessa forma de arte”.


Aqui vai a ironia da história. Os dois principais candidatos ao Oscar, “Pecadores” e “Uma batalha após a outra”, de Paul Thomas Anderson, somam 29 nomeações para a Warner Bros. Um dos mais tradicionais estúdios de Hollywood – o célebre QG em Burbank foi fundado em 1923, mas lançou seu primeiro filme, “Don Juan”, três anos mais tarde – muito em breve pode parar nas mãos da Netflix. Desde sua fundação, quase 30 anos atrás, o gigante do streaming (com atuais 325 milhões de assinantes em todo o mundo) vem mudando a lógica da produção e exibição de conteúdo audiovisual.


No início desta semana, a Netflix anunciou que pretende pagar integralmente em dinheiro (US$ 82,7 bilhões) para adquirir a Warner Bros Discovery. Anteriormente, a negociação seria feita em um misto de dinheiro e ações. Com a medida agressiva, a empresa comandada por Ted Sarandos pretende neutralizar a Paramount Skydance, sua rival na negociação.

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Caso a negociação seja concluída, a Netflix passará a contar com todo o catálogo da Warner e HBO Max. O negócio ainda tem que ser aprovado pelos acionistas da Warner Bros. Caso vingue, ele certamente irá mudar os rumos da história.

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