Quem, no começo da década passada, viu o Olodum arrastar multidões no carnaval de Salvador conheceu uma música inédita do bloco. “Várias queixas” (Afro Jhow, Germano Meneghel e Narcizinho), lançada em 2012, era uma canção de batuques e foliões, restrita ao Pelô.
Em 2019, o ritmo mudou. Francisco, João e José, que ouviram a letra durante a festa, propuseram regravá-la a Narcizinho, que topou. Surgiu algo mais romântico, um pop com elementos do samba baiano. A ideia funcionou. O trio estourou com a faixa e o grupo, até então tímido no imaginário popular, ganhou força com o nome: Gilsons.
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Trata-se de homenagem a Gilberto Gil, pai de José, avô de João e Francisco. Quatro anos após o primeiro álbum, os Gilsons chegam ao segundo trabalho, “Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão”, atentos ao risco de repetir fórmulas, com medo da “síndrome do segundo disco”.
“Ele é mais uma expansão, não necessariamente uma ruptura”, explica João. O álbum expande o território já conhecido, cavando novas camadas dentro de uma linguagem que o público passou a reconhecer como própria do trio.
Tempo generoso
No intervalo entre os dois discos, os Gilsons fizeram temporadas no Brasil e exterior, apresentações em grandes festivais e participaram da turnê “Tempo rei”, do patriarca. Isso ajudou a amadurecer não só a performance, mas a dinâmica interna do grupo.
“O tempo foi generoso com a gente nesse sentido”, diz João. Embora a ideia do novo álbum estivesse no horizonte há algum tempo, o projeto só se materializou quando o trio decidiu interromper a lógica fragmentada de lançamentos e pensar o trabalho como unidade.
Serão 10 faixas ao final, reveladas gradualmente, começando com dois singles lançados esta semana.
Abrir o álbum com parcerias não é exceção, mas método. Entre os convidados estão Caetano Veloso, Moreno Veloso e Tom Veloso, cantando música de Arnaldo Antunes. Gravar com nomes de peso não assombra. José simplifica: além da honra, Caetano é seu padrinho. “É uma relação familiar muito estreita, nós crescemos com os meninos”.
“Minha flor”, faixa que junta os Gil e os Veloso, nasce quando a melodia sem letra é apresentada a Antunes, que devolve o tema completamente moldado pelas palavras. A segunda faixa, “Bem me quer”, é parceria com Narcizinho. Haverá outras colaborações no álbum, com produção musical de José.
Este é o primeiro álbum dos Gilsons desde a morte de Preta Gil. O luto não é tema explícito, mas atravessa silenciosamente o processo criativo. “Ele (o disco) veio como uma terapia. Não vou dizer cura, porque você não fica curado, mas como um exercício para justamente lembrar que a gente tá aqui, a vida vai seguir”, diz João.
“Era uma preocupação muito grande da minha mãe a gente não estagnar”, conta Francisco, filho de Preta.
“Depois da partida dela, não demorou muito tempo pra gente voltar pro estúdio. Voltamos gravando 'Minha flor' e eu me lembro de ouvir e ficar até meio sem graça, porque parecia que eles tinham escrito a música falando sobre esse momento”, conta. “Prefiro me colocar no lugar de ouvinte da canção e perceber que ela, para mim, ocupa o lugar da transmutação da presença.”
Canções refletem um mergulho mais introspectivo, abordando transformação, presença e impermanência sem recorrer ao tom confessional direto. “É impressionante a forma como minha mãe ainda se faz presente, de uma forma ainda mais profunda. Ela segue com a gente”, comenta Francisco.
Ao tentar resumir o álbum em uma palavra, os Gilsons oscilam entre “luz” e “transformação”. Termos que sintetizam o trabalho construído menos pela urgência do novo e mais pela confiança no tempo de viver, de amadurecer e de seguir sem estagnar. (Manoela Mourão/Folhapress)
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GILSONS
• Lançamento de “Minha flor” e “Bem me quer”, singles do álbum “Eu vejo luz em maior proporção do que eu vejo a escuridão”, previsto para fevereiro
