“Ato noturno” é um dos raros filmes com temática LGBTQIA+ em que o projeto estético se sobrepõe claramente ao projeto didático. Como escreveu o escritor Bernardo Carvalho, já não existem projetos estéticos, só didáticos.

No filme de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, também roteiristas, Matias (Gabriel Faryas) é um jovem e ambicioso ator em início de carreira em Porto Alegre e, no momento, disposto a passar a perna em um colega a fim de conseguir teste para importante papel em uma minissérie para TV com alcance nacional.

Ao mesmo tempo, ele decide transar com outro homem, que conheceu apenas por aplicativo, Rafael (Cirillo Luna). Os dois transam e se dão muito bem. No dia seguinte, Matias volta à casa onde haviam ficado para reencontrar Rafael, mas é barrado por um guarda-costas (Ivo Muller).

Matias rompe o bloqueio do guarda-costas e Rafael topa ter novas relações com ele. Logo, porém, saberemos que Rafael é um candidato com reais chances de ganhar a prefeitura de nada menos do que Porto Alegre. Isso, claro, desde que nada transpire de sua homossexualidade, o que arruinaria suas chances, menos pelo fato de ser gay do que pelo hábito que mantém de transar em lugares públicos.

Temos, então, duas ambições que se encontram, a de Matias como ator e a de Rafael como político. Se somarmos o que têm um com o outro, pode-se dizer que “Ato noturno” é um filme comandado pelo desejo.

Não é pouca coisa. São duas pessoas dispostas a quase tudo para realizarem seus objetivos, desde que não interfiram em sua sexualidade. Com isso, o filme se encaminha, suavemente, ao domínio do suspense, pois qualquer passo em falso pode causar a desgraça de ambos. E digamos que a dupla vive pisando em falso.

Temos um filme bem narrado, sem grandes voos, mas capaz de correr de maneira fluente e pôr em relevo belos e muito eficientes atores centrais, Farias e Luna. E ainda consegue aproveitar muito bem Muller, ator brasileiro com carreira em Portugal marcada pelo ótimo “Tabu”, de Miguel Gomes, que ressurge aqui como uma figura tão estranha quanto ameaçadora.

Aresta solta

O voo, porém, poderia ser mais amplo. O beijo inaugura a relação entre os amantes, seguem-se cenas de relações sexuais que remetem ao tempo da pornochanchada, mostrando ao público como se pode dar o amor.

Mas fica solta uma aresta. Afinal, Rafael insistia que nunca transava com ninguém mais de uma vez. Topa transar uma segunda vez com Matias e depois se tornam amantes. O que justifica a mudança de atitude? Matias se revela um parceiro sexual satisfatório? Pode ser, mas é fraco. Tudo entre eles pode ensejar escândalo e perdas. No entanto, preferem o risco.

E aí as justificativas me parecem um tanto frouxas. Uma atração romântica irrecusável? Pode ser até na vida real, mas na arte é fraco.

Muito pessoalmente, me ocorreu que esse encontro entre estas pessoas em tudo e por tudo distantes lembrava muito o encontro de “Hiroshima, meu amor”, de Alain Resnais. Encontro também erótico ao extremo, cujas motivações se revelam ao longo do filme.

Ali, em vez de demonstrações vulgares de habilidades sexuais dos personagens, Resnais os desnuda em planos cheios de mistério de mãos e rostos que se torcem, se cruzam, se escondem, e assim passam do encontro fortuito a um revelador.

Direitização LGBTQIA+

Ao longo de “Ato noturno” é impossível não pensar que a trama traz referências ao atual governador do Rio Grande do Sul, que há algum tempo, já depois de eleito, declarou-se gay.

Alguém que também viu o filme já soprou a ideia de que o filme gaúcho trata da “direitização” do movimento LGBTQIA+.

Se a referência for o governador, sem dúvida; se for o ator, também. São duas imagens do neoliberalismo, em que o sucesso individual, no palco teatral ou no palco político, justifica a existência. Isso quando o movimento está cada vez mais integrado, por política ou arte, ao establishment contemporâneo.

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“ATO NOTURNO”


Brasil, 2025, 119min. De Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Com Gabriel Faryas, Henrique Barreira e Cirillo Luna. Filme em cartaz no UNA Cine Belas Artes 3, às 18h10.

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